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19 de setembro de 2014

Como Iniciar uma Vida de Oração - Parte 1

Uma das maiores dificuldades de quem se faz o propósito de iniciar uma vida de oração é a perseverança. Começar não é fácil, e persistir na decisão mais ainda. Todas as decisões na vida necessitam de disciplina, caso contrário as mesmas estão condenadas ao fracasso. Na vida de oração não é diferente. A mesma requer: disciplina, perseverança e fidelidade.

O primeiro passo é adquirirmos a consciência da importância da oração em nossa vida espiritual. Sem uma vida orante, nossa alma desfalece. E quando isto ocorre nos perdemos em primeiro lugar de nós mesmos. Em segundo lugar nos perdemos de nossos irmãos e irmãs. E em terceiro lugar nos perdemos de Deus.

Deus permanece fiel ao nosso lado. Nós, contudo, nos afastamos dele e de sua presença. E uma vez afastados peregrinamos sem rumo. Não sabemos para onde caminhamos e nem qual a direção correta para os nosso passos. Uma vida de oração fecunda nos devolve ao porto seguro de nossa caminhada espiritual: o próprio Deus.

Adquirida esta consciência da importância da oração na vida espiritual seguimos para o segundo passo: a decisão de orarmos. Este passo é também difícil. No início irão surgir mil e uma coisas mais importantes a serem feitas. A decisão requer coragem para avaliar quais são as verdadeiras prioridades para nosso bem estar espiritual. Muitas demandas da vida diária que antes não eram tão importantes surgiram como necessitadas de prioridades urgentes para o momento presente. Diante destes conflitos humano-espirituais será preciso parar, olhar com calma a realidade presente e decidir o que é mais importante para a alma naquele momento.

Powered By BRApp×Uma vez decididos em dedicar um momento do dia á vida de oração seguimos para o próximo passo: a escolha do tempo de oração. Para quem nunca cultivou uma vida de oração será preciso prudência e discernimento. No momento do impulso poderão surgir decisões precipitadas. Muitos começam sua vida de oração com um hora diária, e depois de 5 dias estão desesperados e não conseguem ficar nem mais um minuto em oração. É preciso equilíbrio quando o assunto é tempo. Não adianta começar uma rotina de oração com uma hora se ainda não está acostumado a rezar nem vinte e cinco minutos sozinho. Um bom tempo para se reservar neste primeiro momento é vinte minutos diários de oração. Antes vinte minutos bem rezados que uma hora de eterno desespero.

Comece com vinte minutos diários, e com o tempo, se sentir necessidade aumente gradativamente este período. No entanto, este processo tem que ser realizado com muita calma e tranquilidade, respeitando seu ritmo interior e seu progresso espiritual.

No próximo artigo continuamos com as dicas!

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Vigário na Senhora do Carmo (Cambuí - MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com

20 de agosto de 2014

HABEMUS PAPAM

Foi no dia 13 de março de 2013 que o mundo recebeu a notícia: Temos um Papa. Diante da expectativa todos nós cristãos católicos, e também não católicos aguardávamos a Boa Notícia. Em nosso coração a certeza de que o Arcanjo Gabriel nos seria portador de uma Boa Notícia. E ela chegou: Francisco.

Aparentemente tímido e assustado ele surgiu. O mundo estava com olhos fitos nele. Suas primeiras palavras foram tão doces e ternas que poderíamos dizer que o víamos como um velho amigo. De fala fácil e sorriso sincero, pouco ou nada sabíamos de Francisco. Aos poucos fomos sendo informados sobre quem era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio,SJ. Nasceu em Buenos Aires, capital da Argentina, em 17 de dezembro de 1936.  Tornou-se arcebispo metropolitano de Buenos Aires no dia 28 de fevereiro de 1998. Jesuíta. Outras fontes sobre sua vida encontramos com abundancia na internet e em diversos livros já publicados e outros que ainda serão. Não nos prenderemos a estes detalhes, que não deixam de ser importantes, mas que aqui não serão tratados.

Em sua primeira aparição e fala encontramos um caminho espiritual que vamos agora conhecendo e nos apropriando. Seu primeiro discurso como Papa para a multidão que o aclamava na Praça São Pedro foi repleto de espiritualidade. Talvez em meio ao momento e emoção que todos vivenciávamos não conseguimos abarcar toda a profundidade de suas palavras iniciais. Leiamos novamente o que Francisco nos disse:

“Irmãos e irmãs, boa-noite!

Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.

[Recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai]
E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!

E agora quero dar a Bênção, mas antes… antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.
[…]

Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade.

[Bênção]

Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso!”[1]

Francisco coloca-se disponível diante da Missão assumida: “Eis me aqui!”. Nos ensina nestas breves palavras o sim que somos sempre chamados a dar diante daquilo que o Senhor nos pede. Mesmo que o desafio seja grande e os obstáculos pareçam árduos tenhamos sempre a coragem de dizer: “Eis-me aqui!”. Busquemos esta disponibilidade interior e nos confiemos a graça de Deus.

Em seguida Francisco agradece ao acolhimento. O dom da gratidão é a mais bela maneira de orarmos. Reconhecermos a profundidade deste dom, nos retira do abismo do pessimismo e do medo. Ser grato, agradecer sempre.

Interessante notarmos o número de vezes que Francisco refere-se a oração neste seu primeiro discurso. Encontramos a palavra oração, rezemos e rezei inúmeras vezes. Inicia seu pontificado nos lembrando da importância da oração na nova missão que está iniciando. E nós quando nos lembramos da importância da oração em nossa vida. Francisco pede que rezemos por ele. Mas também reza pelo Papa Emérito Bento XVI. A oração é um dom que nasce do dar e do receber. É uma ponte que liga-nos com Deus, mas também com nossos irmãos e irmãs.

Papa Francisco deixa claro o caminho que agora ele inicia: “E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo...” O Sumo Pontífice agora eleito não quer caminhar sozinho, mas caminhar conosco Povo de Deus. Quando caminhos sozinhos corremos um sério risco: de nos isolarmos, de sermos solitários, e assim vivermos num fechamento egoísta, onde nos bastamos a nós mesmos. O caminho que Francisco propõe é o caminho do diálogo, do encontro, do caminhar juntos de mãos dadas, como amigos, companheiros de jornada. Não estamos sós, mas caminhamos com um pai espiritual, que nos orienta, e nos indica o caminho seguro para chegarmos a Cristo.

O caminho que Francisco nos apresenta é belo: “Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós”. Mesmo em meio as inúmeras dificuldades o convite é para que olhemos para novos horizontes onde a fraternidade, o amor e a confiança guiem nossos passos, relações e encontros.

A Igreja de Roma é chamada a presidir todas as Igrejas na caridade, no amor, na doação. O caminho proposto por Francisco é o da caridade. Na caridade manifestamos concretamente o amor. E assim seremos um povo do amor que caminha ao lado do seu pastor.

Rezar sempre. Rezarmos uns pelos outros, fazendo da oração uma rede universal de amor: “Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade”. A força da oração pode modificar o coração que está nas trevas. E quando rezamos uns pelos outros nos colocamos em diálogo espiritual. Já não somos sozinhos, mas pertencemos a uma grande comunidade universal que alimenta sua vida espiritual também da oração. E nesta rede de oração mundial estabelecemos os laços da fraternidade, da amizade e do amor que não conhece fronteiras.

Antes de finalizar o seu primeiro encontro, agora como Papa, com todos os que o aguardavam é nos concedida uma benção. Porém esta benção tem caráter universal, não se destina apenas a nós cristãos católicos, mas a todos, aos homens e mulheres de boa vontade. Francisco demonstra claramente que a Igreja é a casa de todos. Aqui todos encontram amor e acolhida e por isso mesmo a sua benção se dirige a toda a humanidade.

[1] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/elezione/index.html

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Vigário na Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí - MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com

31 de julho de 2014

Sobriedade e Liturgia: caminhos para celebrar de coração

Observamos com certa imprudência altares de Igrejas que mais parecem um amontoado de coisas sem coerência. Esta falta de cuidado e sensibilidade demonstra claramente a falta de conhecimento litúrgico. Todo excesso é sempre prejudicial, pois ofusca o Mistério. Muitos arranjos de flores roubam a cena diante do que é essencial, não ajudam a comunidade a rezar a liturgia, mas ao contrário, prejudicam o recolhimento interior. Como se não bastasse, encontramos ainda tantas imagens de santos, banners, isopor com mensagens escritas em papel luminoso e glitter que de longe deixam transparecer toda sobriedade que o ambiente litúrgico exige. Vale ressaltar que estes fatos não devem conduzir-nos a um julgamento acerca de quem está à frente de nossas comunidades. Na maioria das vezes, as Equipes de Liturgia não receberam uma formação adequada. Portanto, julgar e condenar não são o caminho, mas a instrução e reflexão deve ser o farol que nos guia para uma maior e melhor compreensão da liturgia como espaço celebrativo do Mistério Pascal. Criar discórdias ou ofensas irá prejudicar a caminhada da comunidade e não são atitudes cristãs.



















Diante destas realidades presentes em muitas Igrejas, encontramos no Missal Romano, orientação segura para celebrarmos com sobriedade e espiritualidade a liturgia.

Sobre o altar a Introdução Geral do Missal Romano orienta a colocar sobre o altar onde se celebra ao menos uma toalha de cor branca, que combine com seu formato, tamanho e decoração, com a forma do altar[1]. Isto não significa que a toalha deva esconder o altar. Muitas vezes a beleza do altar é escondida por toalhas extremamente imensas. É preciso sempre usar o bom senso.

Flores! Ajudam a rezar se são usadas com sobriedade e moderação. Prejudicam se usadas em excesso e sem critérios litúrgicos. No Tempo do Advento as flores devem ser usadas com moderação, de modo que não antecipem a plena alegria do Natal do Senhor[2]. Luzes pisca-pisca, árvores natalinas, e demais adereços não combinam com o ambiente litúrgico deste tempo e deixam o altar parecendo mais uma vitrine de loja em Nova York.

No Tempo da Quaresma é proibido ornamentar o altar com flores. Este tempo litúrgico pede-nos recolhimento e sobriedade. Não estão incluídas nesta regra o IV Domingo da Quaresma (Domingo da Alegria), solenidades e festas[3]. Deixemos a alegria que as flores expressam para serem usadas na Vigília Pascal e no Tempo da Páscoa.

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Vigário na Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí - MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com

___________________________________
[1] Introdução Geral do Missal Romano, 304.
[2] Introdução Geral do Missal Romano, 305.
[3] Introdução Geral do Missal Romano, 305. 

9 de fevereiro de 2014

O VENENO DA INVEJA

O VENENO DA INVEJA
"Há poucos homens capazes de prestar homenagem ao sucesso de um amigo, sem qualquer inveja."

(Ésquilo)

Não posso garantir que a frase acima é do autor em questão. Mas uma coisa sei, ela carrega consigo uma verdade. Muitos se alegram com as dores do outro. Contraditório? Não. Quando alguém não consegue uma vitória que havia buscado, há uma solidariedade por vezes camuflada. Nem todos se alegram, mas é verdade também que nem todos se compadecem. É mais fácil ser solidário na dor que alegrar-se com as conquistas dos amigos. Ver a felicidade alheia causa sintomas que roubam a paz que falta no olhar de quem vem o sorriso da vitória.

Um sorriso que não nasce dos nossos próprios lábios sempre é mais difícil de ser digerido. Bom mesmo é sorrir com nossas conquistas e ver o olhar do outro querendo consumir em prestações a nossa felicidade. Triste realidade de quem vive na dependência do consumismo alheio. Mais triste ainda é ver a inveja destruir amizades.

Há diamantes querendo ser topázios, no entanto não compreenderam que o rubi nunca será uma esmeralda. Cada um é um no projeto singular da existência humana. Se Deus nos fez diamantes ele irá ao longo da vida nos lapidar para que sejamos um diamante mais bonito, mas nunca deixaremos de ser um diamante e nos tornaremos um topázio. É preciso aceitar as nossas belezas e deixar que o outro seja tão belo quanto ele foi criado. Este processo leva tempo e requer maturidade e confiança na graça de Deus que nos fez únicos para sermos luz no mundo.

A inveja talvez tenha sua raiz na incapacidade que uma pessoa carrega em si de fazer a diferença a partir de suas próprias capacidades. Quando o jardim do outro parece mais bonito do que o nosso próprio jardim, deixamos o cuidado do nosso tempo ao descuido e passamos a vida a contemplar as flores que não nos pertencem e deixamos as nossas morrerem secas pela inveja que não nos permite cuidar de nossa própria vida.

A inveja deixa sim os olhos grandes: de incapacidades que poderiam ter se transformado em lindos jardins. Não é o elogio que faz o outro feliz, mas sim a capacidade que temos de cuidar de nossas próprias vidas e deixar que o outro seguir seus próprios caminhos. Quem se preocupa demais com a vida alheia é porque já não tem mais tempo de cuidar de suas próprias demandas existências. Transformou sua vida no mito de narciso, mas ao invés de contemplar sua própria face enxerga sempre no lago de seus pensamentos o rosto da felicidade alheia. Perdeu seus olhos em um mundo que nunca será seu. O tempo que se usa vigiando a vida do outro seria muito mais bem aproveitado cuidando de suas próprias fragilidades humanas.

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com


6 de fevereiro de 2014

Estudo espiritual do tempo quaresmal - Parte 1

Estudo espiritual do tempo quaresmal - Parte 1
O tempo litúrgico da Quaresma como o conhecemos hoje sofreu uma evolução ao longo da história da Igreja. Nesta série de artigos, procuraremos trabalhar a riqueza da  teologia e espiritualidade deste tempo.

Nosso estudo tem como fonte a carta circular: Paschalis Sollemnitatis - A Preparação e Celebração das Festas Pascais (Congregação para o Culto Divino - 16 de janeiro de 1988).

O caminho penitencial do tempo quaresmal é um tempo de graça. A Quaresma tem dupla característica: preparar os catecúmenos que serão admitidos aos sacramentos da iniciação cristã; e os fiéis por meio da escuta frequente da Palavra de Deus e de uma oração mais intensa, são preparados coma Penitência para renovar as promessas do Batismo (6).

A vigília pascal é considerada o tempo mais propicio para celebrar os sacramentos da iniciação cristã. As comunidades eclesiais que não possuem catecúmenos são convidadas a orar por aqueles que em outras comunidades receberão os sacramentos da iniciação cristã (7-8).

Os domingos da Quaresma tem sempre a precedência também nas festas do Senhor e em todas as solenidades. As solenidades que coincidem com os domingos da Quaresma, são antecipadas para o sábado (11).

O conteúdo das homilias de domingo deve instruir catequeticamente os fiéis sobre o mistério pascal e sobre os sacramentos, com explicação mais cuidadosa dos textos do Lecionário, sobretudo as perícopes do Evangelho, que ilustram os vários aspectos do Batismo e dos outros sacramentos e também a misericórdia de Deus (12).

Os fiéis são convidados a participarem com frequência das missas feriais e, quando não for possível, sejam convidadas a ler pelo menos os textos das leituras correspondentes, em família ou em particular (13).

Os pastores estejam mais disponíveis para o ministério da Reconciliação e, ampliando os horários para a confissão individual, facilitem o acesso a este sacramento (15).

Na Quaresma não se colocam flores no altar e o som dos instrumentos é permitido só para sustentar o canto, no respeito a índole penitencial deste tempo.  Omite-se o Aleluia em todas as celebrações, desde o início da Quaresma até a Vigília pascal, também nas solenidades e festas. Os cantos sejam escolhidos de acordo com o tempo quaresmal e correspondam o mais possível aos textos litúrgicos (16-19).

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://blog-lumenchristi.blogspot.com.br/

* Os números entre parênteses correspondem as citações retiradas da carta circular: Paschalis Sollemnitatis - A Preparação e Celebração das Festas Pascais

29 de janeiro de 2014

Rute e Noemi – Um itinerário espiritual do cuidado com os idosos

Rute e Noemi - Um itinerário espiritual do cuidado com os idosos
Conta-se que em Israel houve uma grande fome, por isso Elimeleque (que residia em Belém, cidade da região de Judá), sua esposa Noemi e seus dois filhos Malon e Quiliom mudaram-se para um país chamado Moabe. Passado algum tempo o esposo de Noemi morreu e ela ficou somente com seus dois filhos. Estes depois de algum tempo se casaram e o nome de suas esposas eram: Orfa e Rute. Após dez anos morando Malon e Quilion também morreram. Noemi ficou só, sem os filhos e sem o marido. Com o tempo Noemi soube que Deus tinha ajudado o seu povo, dando-lhes boas colheitas e decidiu voltar  para Judá. Noemi disse as suas noras que as mesmas deveriam voltar para suas casas e ficarem com suas mães. Orfa e Rute disseram que não. Mas ao final Orfa voltou e Rute decidiu continuar ao lado de Noemi.

Esta história se encontra no pequeno  livro bíblico de Rute. Noemi fica sob os cuidados de Rute que não abandona-a em momento algum. Rute casa-se novamente e Noemi continua junto de sua amada nora Rute.
O livro de Rute ensina-nos o cuidado que falta hoje em dia com muitas pessoas idosas. Vivemos em uma sociedade que busca descartar aqueles que nada mais podem produzir. É a sociedade de consumo que exclui a dignidade e o respeito da vida de muitos irmãos e irmãs nossos. Esta realidade é frequente principalmente em muitos lares, onde pessoas idosas tem de conviver com a falta de respeito, carinho e atenção de seus familiares.

A síndrome da eterna juventude tem se infiltrado em muitos corações. O tempo passa para todos e a juventude só será eterna no coração. As plásticas podem esconder as rugas do tempo impressas no rosto, mas não podem impedir os anos de passarem.

Muitos idosos sofrem em silêncio o descaso de seus familiares. Vivem isolados porque não mais encontram um espaço para partilharem a vida. Falta a paciência e compreensão dos mais novos que no futuro também serão idosos. Como é triste encontrarmos pais e mães que perambulam pela vida com o sentimento de terem sido descartados e estarem atrapalhando a vida dos mais novos. É preciso urgentemente uma mudança de consciência das gerações mais novas. É preciso reavaliarmos o valor daqueles que já contribuíram com a criação dos filhos e netos e hoje merecem nosso cuidado, carinho e atenção.

É inadmissível que os idosos sejam tratados como objetos descartáveis por filhos, netos e demais familiares. O que somos hoje se deve ao trabalho e carinho destes nossos irmãos que hoje desejam apenas cultivarem o sentimento de serem amados por seus familiares e entes queridos. Não há desculpa para quem maltrata uma pessoa idosa. Os vizinhos podem não saber como os idoso de uma determinada família são muitas vezes maltratados, mas a vida é uma escola, e quem não aprende por bem terá que um dia se deparar com as consequências das escolhas que um dia fez na vida.

O sentimento de culpa é pessoal, e quem um dia maltratou seu pai ou sua mãe, seu avô ou sua avô terá que conviver com o peso deste sentimento até o último dia de sua vida.

Queridos irmãos e irmãs que convivem com o desprezo de seus familiares, continuem firmes na fé, não percam a esperança em meio aos sofrimentos. Deus vê suas dores e recolhe suas lágrimas. Eu rezo por vocês.

Rute é modelo para todos nós. Ao cuidar de Noemi e não abandona-la ela nos ensina que o bem que fazemos ao próximo a nós é devolvido cem vezes mais. Que no exemplo de Rute acolhamos as Noemis de nosso tempo.

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com

15 de janeiro de 2014

O BBB nosso de cada dia

O BBB nosso de cada
Mais um ano começa e com ele a 14ª edição do Big Brother Brasil. Este programa televisivo é amado por uns e amaldiçoado por outros. Ao que parece outras edições virão. Parece haver público disponível para acompanhar todas as noites o que acontece na casa mais “vigiada do Brasil”.

Longe das telas, mas inserido na vida cotidiana, nossas redes sociais não deixam de ser um BBB. Partilhamos as fotografias do “churrascão” no final de semana. Postamos as fotos da última viagem. Dividimos com um grande público o nosso passeio pelo shopping. Não gostamos do Big Brother Brasil, mas por vezes estamos vivendo em uma casa onde todos tem acesso a nossa intimidade.

Repelimos a exposição midiática de quem entra em uma casa sendo monitorada por câmeras 24h por dia. No entanto nossas redes sociais também estão a disposição daqueles que dela tem acesso 24h por dia.
Este artigo não é uma defesa ao BBB, mesmo porque não assisto. É apenas uma tentativa de refletirmos sobre o nosso telhado de vidro, ou ainda sobre como estamos sendo acompanhados 24h por dia por muita gente.

Fato é que não ganharemos um milhão de reais, mas uma “curtidinha” em nossas fotos nos deixa por vezes mais felizes do que o vencedor do BBB.

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com



14 de janeiro de 2014

Porta dos Fundos: quando o humor se torna ofensivo

Porta dos Fundos: quando o humor se torna ofensivo
O vídeo produzido pelo grupo Porta dos Fundos, intitulado Especial de Natal, possui mais de 4 milhões de visualizações no youtube. O vídeo em questão tem gerado inúmeras polêmicas no meio cristão. O Cardeal Dom Odilo Scherer fez um pronunciamento na rede social Twitter dirigindo-se aos integrantes do grupo Porta dos Fundos: “@vanderluciosz @portadosfundos @FabioPorchat - será que isso é humor? Ou é intolerância religiosa travestida de humor? Péssimo mau gosto!” (@DomOdiloScherer. 5 de janeiro de 2013). A cervejaria que patrocina as produções do programa também se manifestou: ““Nossa Constituição Federal fixa a liberdade de expressão, impondo limites ao se atingir liberdades e direitos alheios, respondendo cada um por seus atos. O Grupo Petrópolis respeita esses direitos, assim como respeita os princípios de fé de manifestação religiosa de todos. Dessa forma, o Grupo Petrópolis não endossa e não apoia qualquer manifestação que venha a atingir esses valores religiosos que se tem como sagrados. Portanto, na recente veiculação do programa “Especial de Natal”, do humorístico “Porta dos Fundos”, o Grupo Petrópolis, além de não ter previamente mantido qualquer tipo de contato com seu conteúdo, ainda, não admite que suas marcas sejam relacionadas com tais manifestações, pois não representa o pensamento de seus Diretores. O Grupo Petrópolis aproveita a oportunidade para manifestar o seu mais profundo respeito por todas as manifestações religiosas”.

Há dois tipos de humor: o saudável e o ofensivo. O saudável nos faz rir sem agredir as convicções que temos e respeita o ser humano e suas crenças. O ofensivo gera mal estar, agride o ser humano e suas crenças. Na vida há limites que devem ser respeitados. Quando ultrapassa-se o limite do respeito ao ser humano ou as suas convicções religiosas, entramos no campo da agressão seja ela moral ou religiosa.

Ninguém é obrigado a crer em Jesus ou nos ensinamentos bíblicos. No entanto, faz-se necessário respeitar aqueles que acreditam. Crer é uma questão de fé. Em participação no programa Na Moral, na rede Globo de televisão, um dos membros do Porta dos Fundos afirma não ter religião. Ninguém é obrigado a ter religião, mas é sim obrigado a respeitar quem tem e acredita em Deus.

O Porta dos Fundos demonstra claramente o desrespeito e intolerância por quem acredita em Jesus Cristo e nos princípios bíblicos. Em vídeos publicados integrantes do grupo falam abertamente sobre tal assunto. Uma liberdade sem limites é prejudicial, pois agride o outro, no caso do Porta dos Fundos agride a crença religiosa dos cristãos.

É preciso discutirmos de modo adulto e coerente os limites da liberdade dentro do meio humorístico. Não será promovendo cruzadas santas e troca de elogios grosseiros que chegaremos a uma reflexão séria sobre o assunto em questão. Se nos igualarmos ao nível daqueles que não nos respeitam nos tornamos iguais ou piores que eles.

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do blog Evangelizando.(+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com



11 de junho de 2013

Corações Restaurados

Corações Restaurados
Blog Evangelizando!

Há momentos em nossa vida que os sonhos e ideais se despedaçam; tudo parece sem sentido e, no labirinto de nossos problemas, não conseguimos achar solução. Com certeza já tivemos, em algum momento, este sentimento: “Não vou conseguir me reerguer. Tudo está perdido!”. Em meio à desilusão, nossas manhãs são sempre sombrias. O sol de um novo dia se esconde atrás de nossas frustrações e decepções. Nossas noites não são mais estreladas e o inverno que chega parece não mais querer partir.

Somos tão frágeis como um vaso de barro; quebramos com facilidade. Um olhar de indiferença, uma ajuda negada ou uma expectativa não realizada pode partir nossa alma em mil caquinhos. Mas nossa fragilidade humana nos põe diante d’Aquele que nos renova e restaura.

O que é restaurar? É consertar, recuperar, deixar em bom estado. Com o tempo, muitos objetos vão perdendo suas cores naturais; o processo de restauração de algum objeto ou imagem é algo de extrema delicadeza. Conheço uma imagem de um santo que sofreu inúmeras pinturas por pessoas que desconheciam o valor histórico dessa imagem. Com certeza, a pintura original desta era bem diferente das tintas que foram usadas nela ao longo dos anos. Cada pessoa deve ter pintado a imagem a seu gosto.

Com o ser humano acontece o mesmo processo. Ao longo do tempo, vamos pintando nossa alma de inúmeras cores, desejos e sonhos. Chega um determinado momento na vida do ser humano que ele já não se reconhece mais, não sabe mais qual era sua identidade original, pois assumiu identidades que não eram suas. Coloriu sonhos com cores que não dariam uma tonalidade de esperança.

Muitas vezes, acostumamo-nos com os cacos de uma existência sem sentido, procuramos restauradores desqualificados e entregamos nosso coração a projetos de restauração enganosos.

Jesus é o grande restaurador de corações. Ele devolveu a dignidade humana aos excluídos de seu tempo. Prostitutas, ladrões e leprosos tiveram suas vidas restauradas pelo Senhor. Os cacos de uma vida sem dignidade foram juntados, e uma vida nova nasceu. O que antes era apenas uma vida de lágrimas e dores, passou a ser uma linda manhã de novas esperanças.

Os cacos de nossa vida podem se tornar a mais bela obra de arte da história. O mestre da restauração nos espera com um sorriso de alegria e paz. O olhar de Deus é sempre de esperança e de acolhida. O nosso projeto original é de vida em plenitude. As pinturas do engano e os cacos de um passado sem sentido esperam a restauração de um novo tempo.

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do blog Evangelizando
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.
Site: http://www.padreflaviosobreiro.com/

10 de junho de 2013

Os Limites da Paixão

Os Limites da Paixão
Blog Evangelizando!

“O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”
(Mario Quintana)

O namoro é o momento do encontro de duas histórias. E todo encontro é sempre delicado. Não se começa a namorar sem uma história familiar, humana, afetiva, social, intelectual, espiritual... Quando homem e mulher se encontram, encontram-se também todo um histórico construído ao longo de muitas estações da vida. Por isso que o tempo de namoro precisa de tempo para que o conhecimento da história de cada um seja verdadeiro e profundo.

Namorar não é queimar etapas de um processo. No tempo de namoro é preciso ter a coragem de não esconder a história um do outro. Quem esconde sua origem esconde-se de si mesmo. É preciso coragem para deixar-se conhecer e ser conhecido. Onde o medo domina o amor se esconde.

Nestas duas histórias que se encontram há todo um passado que precisa ser partilhado e compreendido. O casal que não compreender o passado um do outro irá mais tarde usá-lo como argumentos para ataques diante das primeiras dificuldades. Amar é também a arte da compreensão. Não há necessidade de concordar com possíveis erros acontecidos no passado na história de quem agora se está conhecendo, mas é necessária a misericórdia que abraça as fragilidades do outro e lhe dá a oportunidade de recomeçar.

Muitos começam o namoro apaixonados pela perfeição que enxergam naquele que dizem amar. Com o tempo a perfeição vai dando lugar a realidade. Amor não é paixão, mas sim um estágio muito superior que é construído entre dores e alegrias. Não existem pessoas perfeitas. Existem sim, seres humanos que desejam juntos construir uma história de felicidade apesar de suas limitações, pecados e fragilidades. Somente o casal que se descobre imperfeito poderá buscar a santificação no amor partilhado.

Não há como exigir que o outro ame 100%. Será no processo de conhecimento que ambos irá descobrir quanto cada um aprendeu a amar. Alguns aprenderam a amar 30%, porque a sua história de vida lhe proporcionou somente está porcentagem. Outros irão amar 50%. Outros ainda apenas 10%. Como encarar e enfrentar esta realidade? Nem sempre será fácil. Exigirá paciência, compreensão, oração e muito amor para ser partilhado. Há disponibilidade interior para aceitar o que o outro pode lhe oferecer de amor no momento? Há misericórdia suficiente para acolher os 30% de amor que o outro pode oferecer? Há paciência para esperar que o amor cresça naquele coração que ainda está em fase de construção?

Há muitos casais de namorados perdidos em seus próprios relacionamentos pois quando estavam apaixonados enxergavam que o outro o amava 100%, mas com o passar do tempo descobriram que só eram amados 20%.  Amor é construção diária. É um superar as dificuldades tendo como objetivo a felicidade que abraça com misericórdia duas histórias que decidiram construir uma nova história em comum.
A paixão começa a mostrar os seus limites quando o amor começa a ser mais forte do que a perfeição antes vislumbrada. E somente com o amor será possível construir uma vida a dois.

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do blog Evangelizando
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.
Site: http://www.padreflaviosobreiro.com/

6 de junho de 2013

Os Ensinamentos de Francisco

Os Ensinamentos de Francisco
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“Procuro manter o mesmo jeito de ser e de agir que tinha em Buenos Aires porque, se eu mudar na minha idade, com certeza vou fazer um papel ridículo.

Não quis ir morar no Palácio Apostólico, vou lá só para trabalhar e para as audiências. Fiquei morando na Casa Santa Marta, que é uma casa de hóspedes (onde ficamos hospedados durante o Conclave) para bispos, padres e leigos. Estou perto das pessoas e levo uma vida normal: Missa pública de manhã, como no refeitório com todos, etc. Isto me faz bem e evita que fique isolado.”

No trecho da carta acima, o Papa Francisco explica para um padre de Buenos Aires porque decidiu morar na Casa Santa Marta. A simplicidade de suas palavras e a delicadeza de seus gestos revelam ao mundo um rosto solidário e humano.

Quando eleito pouco sabíamos sobre quem era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio. De nosso conhecimento era apenas o nome escolhido para acompanhá-lo como Papa: Francisco. Tudo o que antecedeu a sua escolha foram sinais do Espírito Santo anunciando que continuaríamos guiados pelo amor de Deus presente em quem fosse eleito. Até hoje lembramos daquele franciscano em plena praça de são Pedro que sob o frio e a chuva intercedia a Deus pela escolha do novo Pontífice.

Francisco chegou simples. Com olhar sereno e sorriso cativante conquistou logo no primeiro encontro a simpatia dos católicos e não católicos por todo o mundo. O nome escolhido desarmou os críticos que esperavam armados nas tricheiras de suas opiniões.

Hoje encontramos ampla literatura sobre aquele que foi escolhido pelo Espírito Santo para conduzir nossa Igreja. A escrita de Francisco é simples. Fala com uma humildade que confunde os sábios e entendidos. Não busca na palavra reflexões complexas, mas afirma o amor no concreto das experiências da vida. Muitas vezes usas exemplos de sua própria vida para ilustrar reflexões e assim nos aproxima do humano que também somos.

Recentemente em uma audiência ele disse: "Também o Papa tem muitos pecados, mas quando nos damos conta desse pecado, encontramos a misericórdia de Deus. Deus sempre perdoa. Não nos esqueçamos disso”. No gesto humilde de se reconhecer pecador nos ensina que não estamos condenados a ficar presos em nossas misérias, mas aponta o caminho para uma vida nova: a misericórdia de Deus.

Segundo o blog La Nación, após o papa sair de seu quarto logo de manhã encontrou um soldado guardando seu apartamento. Curioso perguntou ao mesmo se ele havia passado a noite toda ali em pé. Ouvindo uma resposta afirmativa o Papa Francisco pediu que o mesmo se sentasse, pois deveria estar muito cansado. Retoranando ao seu apartamento trouxe uma cadeira para que o guarda pudesse sentar-se e descansar.  Negando o pedido do Papa, pois cumpria as ordens de seu chefe ouviu de Francisco a seguinte frase:

- Tudo bem, mas eu sou o Papa e lhe peço que se assente...

Retornando novamente ao seu apartamento trouxe um pão e presunto o qual ofereceu ao guarda dizendo:

- Bom proveito, meu irmão...

Francisco tem muito que nos ensinar. Com ele estamos aprendendo o caminho do amor que passa necessariamente pela humildade e caridade. A fé que ele transmite através do olhar sereno, do sorriso sincero e da simplicidade de suas palavras são sinais da continuação daqueles dias de esperança que antecederam a sua escolha.

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do blog Evangelizando
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.
Site: http://www.padreflaviosobreiro.com/

15 de maio de 2013

METODOLOGIA TERAPÊUTICA DE AJUDA EMOCIONAL

METODOLOGIA TERAPÊUTICA DE AJUDA EMOCIONAL
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Sempre há alguém precisando de ajuda emocional: uma palavra amiga, uma orientação, ou simplesmente alguém que escute os sofrimentos da alma. Contudo, nem sempre sabemos como agir diante de determinadas situações, pois somos extremamente complexos e frágeis. Sempre existe o medo de que nossas palavras sejam mal interpretadas. Como ajudar eficazmente quem precisa de nossa ajuda?

Ajudar é um processo que exige em primeiro lugar uma maturidade emocional e espiritual. Uma pessoa imatura dificilmente poderá contribuir com alguém que enfrenta crises pessoais complexas e que exigem um cuidado especial no acolhimento do que será partilhado. Por isso mesmo, é preciso nos questionar se temos condições humanas e espirituais de ajudar alguém, ou se no momento seria mais prudente e oportuno indicar outra pessoa com um nível de maturidade maior para poder auxiliar em determinados contextos enfrentados por que nos procurou.

Quem nos procura não quer ser tratado como um objeto. Não é uma mercadoria. Não deseja ser analisado, mas necessita de compreensão e empatia. Uma atitude que vê o outro como um problema sem solução não contribui para uma ajuda eficaz. É necessária a disponibilidade interior para compreender os sentimentos do outro sem nos perdermos dos nossos.

O que é revelado sempre deverá conter o caráter confidencial. Talvez, o que ouviremos nunca tenha sido partilhado com outra pessoa. Diante de nós será depositado tudo aquilo que a pessoa vive e sente, e neste caso o respeito à dor e sofrimento do outro se torna fundamental. No processo de acolhimento é necessário ser quem se é não tendo necessidade de fingimentos. Faz-se necessário abrir mãos das máscaras que supostamente poderão desejar ocupar um lugar que não lhes pertence.

Diante de determinados relatos corremos o risco de nos irritarmos com aquilo que nos é apresentado. Talvez o relato seja longo demais, ou não concordemos com determinadas atitudes.  Quando a pessoa percebe a irritação expressa na fala ou no semblante do interlocutor cria-se um bloqueio emocional que rouba a confiança que estava sendo depositada até então.

Somente poderá compreender os sentimentos do outro quem antes estiver consciente dos seus e aceitá-los. Não há como compreender o outro se antes não houver compreensão consigo próprio. Atitudes de atenção, afeição, ternura, interesse, respeito nem sempre é fácil de serem transmitidas, mas são essências para quem deseja ser um canal de ajuda.

Na relação de ajuda corremos o risco de ficarmos deprimidos com a depressão do outro, ou angustiado com a angustia que nos é apresentada. É preciso ter em si mesmo uma maturidade humana e espiritual para entrar no mundo do outro, procurando ver como ele vê a vida, sem perder-se de si mesmo.
Nem sempre é fácil aceitar o outro como ele é. Diante de nós estão colocadas todas as fragilidades e pecados guardados em um coração sofrido e machucado. Como reagir a tudo isso? Condenar e decretar uma sentença? Não! Será preciso agir com extrema delicadeza para que nosso comportamento não seja interpretado como uma ameaça criando assim um bloqueio na relação de ajuda.

Enfim, é preciso, contudo ver o outro como um ser humano em processo de transformação: uma pessoa amada por Deus e que muitas vezes precisa resgatar a sua dignidade diante de si mesmo e da sociedade.  Quando quem nos procura é acolhido como uma criança imatura, alguém ignorante, ou ainda como um problema sem solução, limitamos a relação de ajuda e não permitimos que a pessoa desenvolva suas possibilidades de crescimento interior, tanto em nível humano quanto espiritual.

A compreensão é um processo de misericórdia e compaixão que se estabelece quando a confiança e o respeito são preservados como algo sagrado na relação interpessoal. Não há ajuda eficaz quando quem nos procura não encontra uma oportunidade de recomeçar a escrever sua história de vida.

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do Blog Evangelizando.
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.
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3 de maio de 2013

Em Busca de Deus

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O desafio de atravessar os desertos espirituais na vida de oração

Há momentos na vida em que tudo está perfeitamente bom. Outros momentos apresentam-se nebulosos. Quando menos esperamos as tempestades chegam. O forte parece arrancar-nos da segurança que antes havíamos experimentado. Mas basta uma linda manhã com céu azul para percebermos que a tempestade se foi, e deixou atrás de si um grande trabalho de reconstrução.

Nossa vida espiritual passa por este mesmo processo. Há momentos em que conseguimos fazer uma linda experiência do amor de Deus. Oramos e sentimos a presença de Deus ao nosso lado em muitos momentos de nossa caminhada espiritual. Contudo, há momentos em nossa vida de oração que Deus parece estar longe de nossa presença.

No campo da espiritualidade chamamos estes momentos de “Deserto Espiritual”. Caminhamos sob o sol escaldante da incerteza e buscamos um Oásis que nos sacie com a Água da Vida, e assim nos devolva a certeza que antes havíamos perdido.

Nossa vida espiritual e de oração não são momentos estáveis. Ao contrário, são instáveis. Poderíamos compará-las a um gráfico com altos e baixos. Há momentos em que tudo está perfeito e sentimos Deus com todo o nosso ser. Em outras ocasiões não conseguimos perceber Deus ao nosso lado.
Quando muitas pessoas entram no processo de enfrentarem na vida de fé um Deserto Espiritual, se desesperam. Não conseguem compreender que a vida de oração é um caminhar constante. Somos eternos peregrinos em busca de Deus.

Olhando sob outra perspectiva, os Desertos Espirituais são importantes para nossa vida de oração. Se os nossos momentos de oração fossem estáveis, correríamos o risco de nos acostumarmos e entrarmos no comodismo espiritual; e então a monotonia tomaria conta do nosso ser. Mas quando surge na vida um Deserto Espiritual tomamos consciência de que as dificuldades na vida de oração são necessárias para o nosso crescimento humano e espiritual. E assim somos obrigados a nos desinstalarmos e sairmos em peregrinação em busca d’Aquele que pode saciar todas as nossas mais profundas sedes.

Quem enfrenta na vida um Deserto Espiritual terá que caminhar em busca do oásis onde se encontra o próprio Deus. E encontrando Deus redescobriremos a alegria do encontro. No entanto, há muitas pessoas que desanimam na travessia dos desertos espirituais da vida e estacionam no meio da caminhada. Uma vez estacionadas perdem o ânimo e não conseguem chegar a Fonte da Vida. Perdem-se em si mesmas e em seus próprios medos.

Na vida de oração não fazemos a experiência de Deus somente nos momentos bons, mas Deus se mostra presente mesmo quando não sentimos sua presença conosco. Na travessia do deserto na vida de oração é o próprio Deus que caminha ao nosso lado, segurando em nossa mão e dizendo ao nosso coração: “Não tenha medo, pois eu estou com você. Não precisa olhar com desconfiança, pois eu sou o seu Deus. Eu fortaleço você, eu o ajudo e o sustento com minha direita vitoriosa” (Is 41,10).

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do Blog Evangelizando.
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.


25 de abril de 2013

Nascer do Alto

Nascer do Alto
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O nascimento é um momento marcante. No mundo vamos descobrindo-nos como pessoas plenas de possibilidades. Algumas surgem naturalmente no decorrer da vida, outras após serem trabalhadas se associam ao que somos. Contudo, em nosso processo de crescimento interior carregamos conosco uma natureza frágil e pecadora.  Com o passar do tempo fazemos a descoberta de nossas limitações humanas e espirituais. Estas limitações quando não trabalhadas podem dar lugar a uma vida extremamente complexa onde o pecado nos arranca de nós mesmos e dos braços de Deus.

O tempo litúrgico da Páscoa é propício para vivermos na vida um tempo novo, onde os erros deem lugar as possibilidades adormecidas na alma. Recomeçar nem sempre é fácil. Exige muita força de vontade e uma capacidade interna de superação. Para nós cristãos, a mudança interior não acontece somente a partir de nossas próprias forças interiores, mas conta com o auxilio do Espírito Santo. Ele guia nossa alma através dos bons caminhos e faz de cada dia um tempo novo de ressurreição:

“Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,7b-8).

Um novo nascimento nos faz pessoas renovadas no amor em Cristo. É uma vivência nova a partir da experiência da fé na ressurreição que invade nosso coração e nos capacita a sermos testemunhas do Ressuscitado.

Nasce do Alto quem olha para o passado e nele faz um firme propósito de construir o presente a partir dos aprendizados de outrora. Nasce do Alto quem deixa o amor e a esperança ocuparem o lugar antes concedido ao egoísmo e falta de fé.

A fé na ressurreição marca definitivamente a história de toda pessoa que se deixa inundar pelo Espírito Santo. Não há como nascer se não houver fecundação. E a experiência pascal de nossa caminhada cristã é fecundada pela ressurreição de Cristo que nos faz seres humanos novos para um tempo novo.

Nasce do Alto e do Espírito quem faz no amor de Cristo a experiência de se deixar amar verdadeiramente por um Deus que a cada dia nos dá a alegre notícia: A vida vence a morte em cada gesto de amor!

Colaborador do Blog
Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do Blog Evangelizando.
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18 de abril de 2013

Padre Flávio Sobreiro: Ser Cristo no mundo

Padre Flávio Sobreiro: Ser Cristo no mundo
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Nossa vida é marcada por presenças. Presenças visíveis e próximas como a de uma mãe que brinca com seu filho, como a partilha dos sentimentos com o melhor amigo. Presenças invisíveis como a de duas pessoas que se amam e se encontram apesar das longas distâncias. Há ainda presenças que nos proporcionam paz, segurança, serenidade, esperança… Porém, há também presenças tempestuosas que nos causam medo, insegurança, ameaça…

No plano da vivência humana profunda, o ser humano faz a experiência singular de uma presença misteriosa, mas real, que atinge o centro de seu ser. Uma presença que não cessa de chamar o homem à felicidade plena.

A presença de Deus em nosso meio assumiu a forma visível. Fez-se homem: imagem visível do Deus invisível. A Eucaristia é memória-presente de Cristo em nós.

Na Igreja Católica, a Eucaristia é um dos sete sacramentos. Para nós, cristãos católicos, a Eucaristia não é apenas um “símbolo”, mas sim, a presença “real” de Cristo no pão e no vinho consagrados.

Comungar o Corpo e Sangue de Cristo é comprometer-se com a construção de um mundo melhor. É nos tornarmos outro Cristo no mundo. É sermos sinal de esperança, de paz, de gratuidade, de amor, de fé, em um mundo tão carente destes valores preciosos e essências para a humanidade.

Eucaristia também é sinal de unidade. Unimos-nos a Cristo espiritualmente para sermos sinais de unidade na vida. Como estarmos unidos a Cristo e não sermos sinais de unidade com quem convive conosco? Como estarmos unidos a Cristo e sermos sinais de desunião na família, no trabalho, na comunidade cristã, em nosso grupo de oração? Como?

É necessário olharmos além do que se pode ver com os olhos humanos. A Eucaristia abre nosso olhar para enxergarmos a vida e nossos relacionamentos com os olhos da fé.

A Lumem Gentiun dirá que a comunhão do corpo e do sangue de Cristo faz com que nos transformemos naquilo que recebemos. Comungar o Cristo para ser outro Cristo no mundo. Ser sinal daquele que nos sustenta nas adversidades da vida. São Tomás de Aquino escreveu: “O efeito característico da Eucaristia é a transformação do homem em Deus”. Sermos divinos em nossa humanidade. Levarmos o Sagrado que em nós habita onde formos. Irradiar a Luz que habita em nosso coração. Sermos a sinal de esperança que nasce da nossa Esperança maior.

Eucaristia é partilha. Todas as vezes que comungamos o Cristo estamos nos comprometendo com um mundo mais cristão. A partilha começa na mesa. E em nosso caso, a partilha começa de um modo particular na Mesa da Eucaristia. Se Eucaristia é partilha somos chamados a fazermos o diferencial no mundo. O nome Cristão na sua essência é aquele que segue a Cristo. Uma vez que recebemos Cristo na Eucaristia, nos tornamos portadores de seus ensinamentos.  E a melhor maneira de demonstrarmos os frutos da Eucaristia em nossa vida é com o nosso testemunho de vida.

Uma vida doada, que busca a unidade na diversidade dos dons e carismas, que se aproxima dos excluídos e lhes devolve a dignidade de filhos de Deus são passos importantes para quem deseja semear horizontes de uma vida transformada por Cristo.

Ser Cristo no mundo hoje é deixar-se transformar por aquele que habita nosso ser em cada Eucaristia.

Padre Flávio Sobreiro
Colaborador do Blog Evangelizando.
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.

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