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2 de setembro de 2015

AGENDA DE GÊNERO AVANÇA NO PAÍS

Judith Butler, uma das mais radicais feministas estará no Brasil entre 4 e 9 de setembro, para disseminar mais intensamente a ideologia de gênero, em eventos promovidos por universidades fedeerais e patrocinados pelo poder público. 

A Agenda de Gênero avança no Brasil, em grande proporção. Uma rede de OnGs e demais instituições já atuam há vários anos, inoculando na sociedade o conteúdo de subversão da mais radical e inumana ideologia. O “feminismo de gênero”, termo cunhado por Christina Hoff Sommers, vai sendo disseminado por meio de simpósios, encontros, mesas redondas, trabalhos acadêmicos em profusão, propagandeados pelos meios de comunicação, de todas as formas, em apologia às mais estranhas experiências de anarquismo sexual, visando a subversão da identidade do ser humano como pessoa. O efeito de tal ideologia visa a dissolução de todas as formas de limites ao desejo humano, e a corrosão de todas as instituições: a começar pela família, e tudo mais, daí seu propósito devastador. Judith Butler advoga que as práticas institucionais “não devem tornar-se normas restritivas para uma política radical”. Por isso o corpo humano, destituído de sua identidade natural, passa a ser instrumentalizado por uma ideologia declaradamente subversiva e pervertida, que o utiliza como laboratório do anarquismo que propõe para o corpo social.

Uma amostra de tal conteúdo será apresentada em dois eventos, no Brasil, realizados com a presença de Judith Butler, autora do livro “O problema do gênero: o feminismo e a subversão da identidade”, uma das mais ativistas feministas a difundir, por meio de muitas OnGs, a ideologia de gênero. Sua obra – como explica Oscar Alzamora Revoredo – é utilizada “já há vários anos como livro de texto em diversos programas de estudos femininos de prestigiosas universidades norte-americanas, onde a perspectiva de gênero está conhecendo uma ampla promoção. O Núcleo de Estudos de Gênero Pagu anuncia em seu site o I Seminário Queer, nos dias 9 e 10 de setembro, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, apresentando Butler como filósofa e “uma das principais referências sobre o tema no mundo”. Pouco antes, entre 4 e 7 de setembro, Butler também participará em Salvador (BA), do evento “II Desfazendo Gênero – Ativismos das Dissidências Sexuais e de Gênero“, promovido por várias universidades federais e patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia, Ministério da Educação, OAB Bahia, CNPQ, Secretaria de Política das Mulheres e outros parceiros do setor público. Richard Miskolci explica que a proposta do evento é “tomar nossa cultura como objeto de reflexão, o que – em uma perspectiva queer – não pode ser feito sem a subversão das identidades sexuais. A superação das fronteiras sexuais e de gênero aponta para a criação de uma nova forma de cidadania não-heterocentrada e além do binarismo de gênero atualmente imposto”.

A Agenda de Gênero está mais avançada do que possamos imaginar. Além da incessante propaganda nos meios de comunicação, de todas as formas (em artigos, filmes, novelas, documentários, em programas de auditório, telejornais, etc.), há a ação integrada de OnGs e órgãos do poder público, aparelhados para tais fins, com objetivos de reengenharia social traçados pelas fundações internacionais e agências da ONU, entre outras instâncias de fora. Por isso a imprensa pauta, todos os dias, nas edições dos noticiários, para que as informações e notícias sejam cada vez mais canalizadas para, lentamente, a população ir aceitando a agenda, que é imposta por tais forças de poder e controle social. Não é a toa que a abordagem dada às notícias acabam sempre privilegiando o enfoque ideológico de desconstrução da realidade, da autoridade, da tradição, da moral objetiva, da lei natural, etc. Nesse sentido, temas, por exemplo, que até pouco tempo seriam escandalosos (como a inserção de gays no serviço militar) se tornam corriqueiros na grande mídia e no cotidiano dos espaços de formação de opinião na sociedade. Daí os questionamentos proliferam por toda a parte, como defende Butler, questionando “os valores do militarismo”, “da própria conjugalidade” e tudo mais, como “objetivo final de qualquer movimento de minorias de sexo e gênero – que verdadeiramente pensa analiticamente sobre as estruturas sociais existentes e insiste em produzir novas”.

Parte dessa agenda está não apenas a desconstrução da família e da cultura, mas também da religião, chamando de fundamentalista qualquer um que defenda os princípios e valores da família, da maternidade, da sacralidade do matrimônio, da fidelidade conjugal, da heterossexualidade, etc. Chega inclusive a defender um concepção de religião apenas como fenômeno sociológico, como afirma a “teóloga feminista de gênero” Elizabeth Schussler Fiorenza: “Os textos bíblicos não são revelação de inspiração verbal nem princípios doutrinais, mas formulações histórica”. E “analogamente, a teoria feminista insiste no fato que todos os textos são fruto de uma cultura e de uma história patriarcal androcêntrica”. Descontruindo a família, a educação, a cultura e a religião, as feministas de gênero descontroem a própria realidade humana, no afã de uma utopia irreal e surreal. Jorge Scala lembra ainda que as feministas de gênero “reivindicam uma autonomia absoluta para ‘construir’ qualquer ‘tipo de família’ que ocorra à sua imaginação ou capricho”. Por isso a ideologia de gênero leva ao escapismo da realidade, fazendo do corpo expressão de todas as fantasias e caprichos, vulnerabilizando, portanto, a pessoa humana a graus de violência inimagináveis. Basta ver com que facilidade muitos se deixam seduzir pela falácia de tal fantasia e aceitam expor seus corpos a toda sorte de experiências sexuais, sem moralidade alguma para vivenciar as mais extremas formas de prazer, com as práticas do homossexualismo, amor livre, incesto, pedofilia, zoofilia e tantas outras perversões sexuais. E tudo isso vivido não apenas na privacidade, mas com exposição pública.

A ideologia de gênero, pelos seus efeitos corrosivos, é expressão sombria da “cultura da morte”, denunciada por São João Paulo II, há 20 anos, na Evangelium Vitae. É certo que ela fracassará, como toda ideologia que se volta contra a realidade do ser humano. Mas até soçobrar terá feito suas vítimas, muitas delas já perecem em seus danos, daí que é preciso, enquanto cristãos, estarmos mais vigilantes e atuantes, no combate a esta ideologia, para não sermos vítimas de sua armadilha e perigo. Urge portanto reagirmos e afirmarmos a cultura da vida, em contraposição a esta avalanche de devastação, que Judith Butler vem disseminar, mais intensamente em nosso País.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e Coordenador do Movimento Legislação e Vida.



Queremos levar junto com vocês o Evangelho de Cristo e evangelizar juntos, para que todos o conheçam. É necessário evangelizar pelos meios de comunicação. Clique na imagem e vote no nosso blog:


15 de julho de 2015

Ideologia de gênero deve ser combatida, pois visa destruir a família

A ideologia de gênero tornou-se uma ferramenta política e “um conceito-chave da reengenharia social anti-cristã para subverter o conceito de família”, como afirma o monsenhor Juan Cláudio Sanahuja. E mais, ele explica que “a ONU adota a perspectiva de gênero no começo dos anos 90. Assim nos apresenta e quer impor-nos uma visão anti-natural de sexualidade autoconstruída a serviço do prazer”. E para isso surtir efeito, a médio prazo, faz-se necessário difundir nas escolas a ideologia de gênero, para quebrar as resistências contra a cultura que quer se impor. A educação sexual então está imbuída fortemente desta ideologia contrária à família, com uma visão reducionista da dimensão da pessoa humana. O fato é que existem somente duas identidades sexuais, daí a realidade humana na distinção “homem e mulher”. Institucionalizar uma outra situação fora desta realidade, verdadeiramente humana, é desconhecer com profundidade a essência e a natureza da pessoa humana, e mais ainda: agravar os fatores da violência contra o ser humano, em todos os aspectos. É despessoalizar o ser humano e torná-lo fragilizado e vulnerável a toda e qualquer violência.

A crise da identidade em nosso tempo se explica numa sociedade sempre mais pulverizada na atomização do indivíduo, que se vê perdido na volúpia de uma sociedade consumista, de falsas necessidades, que coloca o prazer como finalidade e aniquila o indivíduo desarraigado e desterritorializado, na lógica do descartável, sem ter ao que se ater, sem contar mais com a família como suporte, porque, com a ideologia de gênero, a família é descaracterizada e diluída, dissolvida enquanto instituição primeira e principal da sociedade. Daí o grande mal-estar de muitos diante dos apelos da anarquia sexual difundida pelos meios de comunicação, na promoção da homossexualidade e de outras perversões e transgressões, que medram mais facilmente na sociedade atomizada, de híper-consumismo. Daí ser necessário por um dique a tudo isso, para salvaguardar a instituição primeira e principal, sem a qual o ser humano não tem como subsistir e se realizar como pessoa.

Todas estas formas de agressão, se não forem contidas, se tornarão grilhões culturais a asfixiar a pessoalidade de cada ser humano. No campo político, a ideologia de gênero põe em movimento a apologia a tais transgressões, utilizando-se de eufemismos e sutilezas de linguagem, com o discurso emocionalista de não discriminação, para avançar ainda mais numa agenda que discrimina a família. E mais: visando destruí-la, com a corrosão dos princípios e valores cristãos, que a defendem, por inteiro.

O ideário de gênero (mais uma expressão de idealismo totalmente irreal) proposto então pelo PNDH3, e que se quer agora incluir na rede pública de ensino, perverte a finalidade social das instituições nascidas para defender a pessoa daquilo que a despessoaliza. Com uma educação sexual assim, a escola se torna um lugar perigoso, um barril de pólvora que certamente irá explodir com danos sociais inimagináveis. Por isso, nos empenhamos no combate em favor da vida e da família, por uma escola que promova verdadeiramente a família como suporte da pessoa humana.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e Coordenador do Movimento Legislação e Vida.

7 de setembro de 2014

Porque apoiamos Prof. Hermes Nery 3155 para Federal em São Paulo?

Nós do Apostolado Blog Evangelizando apoiamos a candidatura para deputado federal do Prof. Hermes Rodrigues Nery 3155 por São Paulo, por seu trabalho no pró vida e militância Católica, na Comissão em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, como um pedido do Santo Padre Francisco em que aqueles que possuem este "dom" para a politica que se engajem em defesa dos valores morais e éticos católicos. O Prof. Hermes, também é um dos nossos colunistas. 

Leia o texto do nobre candidato:

Por Prof. Hermes Rodrigues Nery
(Artigo de Novembro de 2010, mas ainda atual) "Judite põe se a caminho"

No domingo, 31 de outubro de 2010, depois de votar no candidato oponente do PT, recolhi à minha pequena propriedade, nas montanhas de São Bento do Sapucaí, e passei a tarde cuidando das flores do nosso jardim, com as crianças. Plantamos um pessegueiro e algumas flores multicores entre o gramado. Em seguida, subi para meu escritório para ler os Salmos, pois nestas horas só mesmo a palavra do Senhor para nos confortar, consolar e dar novas diretrizes. Eis que deparei-me, ao abrir o Antigo Testamento, com o livro de Judite, que eu não conhecia ainda a história, e fiquei impactado, da primeira à última linha da narrativa, da atualidade deste admirável relato bíblico, da força da mulher na defesa do povo de Deus, quando estava acuado por forças totalitárias. 

Diante dos exércitos de Nabucodonosor, os israelitas ficaram sitiados, pois Holofernes, o general das tropas assírias, haviam tomado os poços de água que abasteciam a cidade e estavam dispostos a passar a espada sobre todos, porque não haviam ido adorar o governante opressor. Ameaçados de morrer de fome e de sede, a população pressionou os sacerdotes a se renderem a Nabucodonosor, aceitando as humilhações impostas pelo tirano, caso contrário Osias, o chefe religioso, seria o responsável pela carnificina iminente. Angustiado com a situação, Osias pediu cinco dias para que ainda fosse possível manifestar a ação de Deus, prometendo ao povo que, se não surgisse uma saída no período, ele se renderia a Holofernes, mesmo sabendo que o povo poderia ser dizimado por exército tão poderoso. Foi quando, neste contexto de grande impasse e tensão, depois de tomar conhecimento, em profundidade, da situação, Judite, uma mulher temente a Deus, viúva de Manassés, apenas com uma serva, saiu de sua casa e pôs-se a caminho até Osias e tomou a iniciativa de empreender uma arriscada ação estratégica, com perigo de perder a sua própria vida, mas disposta a ir ao encontro das forças inimigas, para com, sabedoria política, vencê-los. A hora era grave, gravíssima. Explicou a Osias tudo o que pretendia fazer e recebeu dele a benção e as orações para fosse bem sucedida em sua empreitada. O admirável em Judite foi que, quando viu o povo de Deus sem saída e sem saber o que fazer, tomou a iniciativa com apenas uma única acompanhante, de atravessar as muralhas da cidade sitiada, e descer até onde a multidão de adversários aguardavam a rendição, para depois atacar implacavelmente, reduzindo a pó a cidade que se recusou a aceitar o rei assírio como rei e senhor. “Quem é este Deus para estar a frente de Nabucodonosor?” Indagou Holofernes. Judite tomou a decisão de atuar no campo do inimigo, e agiu com prudência e ousadia, conseguindo ser bem sucedida em sua missão de manter-se fiel a Deus, Senhor da Vida, e retornar ao seu povo trazendo numa cesta a cabeça decepada de Holofernes, numa ação cirúrgica, que fez tombar o chefe de seus perseguidores. Debelou o ovo da serpente, antes que o veneno corroesse a todos. 

Ao findar a leitura do livro de Judite, tocado pelo seu exemplo heróico, William Bonner anunciou à nação brasileira, às 20h07, que Dilma Roussef havia sido eleita presidente da República. O fato estava consumado. A dama de ferro, vestida de vermelho, poderia agora implantar, com maioria no Congresso, o projeto político do PT, que visa sovietizar o Estado brasileiro. Como um trator, está disposta a executar, ítem por ítem, as ações programáticas do PNDH3. Eu havia escrito ainda no período eleitoral, uma carta ao povo católico paulista, em que salientava que estas eleições seriam cruciais para a vida da Igreja no Brasil. Começou agora um tempo de purificação e dura provação para os cristãos brasileiros. Especialmente nós, católicos, fiéis ao Papa, seremos sitiados pelos executores do PNDH3. Teremos que fazer como Judite (com apenas uma serva, isto é, com um número cada vez mais minoríssimo de missionários e discípulos de Jesus Cristo), tomarmos a iniciativa e não esperarmos a foice que está por vir, impiedosamente, sobre todos os verdadeiros valores cristãos deste País. Enquanto os sacerdotes ficaram acuados, Judite pôs-se a caminho. Nós, que amamos a Igreja Católica Apostólica Romana, somos chamados hoje a fazer o mesmo, para mostrar com evidência que o nosso Deus está acima de Nabucodonosor, pois é realmente o Deus da vida.

Site do candidato: Hermes Rodrigues Nery Federal 3155 

19 de junho de 2014

De que lado estamos?


A imagem do joio e do trigo que crescem juntos nos coloca diante de um dos grandes mistérios da pedagogia de Deus em nossa vida. Joio e trigo são parecidos, tem aparência igual, mas serão reconhecidos, mais tarde, pelos frutos produzidos. Frutos espirituais, e não necessariamente resultados de prosperidade material, de aplausos do mundo, de espetáculos visíveis e fogos de artifício. Frutos de humanidade, quando o bom coração se mantém capaz da compaixão e o olhar sempre transfigurado pela perspectiva da vida eterna. Começamos aqui o que seremos na eternidade. Daí que é preciso resistir às tentações, e permanecer fiel ao Senhor da vida, que quer vida em abundância.

No difícil campo político a que fomos chamados a atuar, como leigos cristãos inspirados nos exemplos de São Luís e São Thomas More, vamos percebendo claramente os desafios, as exigências, os perigos incontáveis, as dores e dissabores, e as conseqüências das escolhas feitas, a partir do imperativo “Escolhe, pois, a vida!”

Quem quiser mesmo ser fiel à verdade e ao bem, não será poupado de padecimentos. O problema é que hoje – de modo mais acentuado na sociedade do espetáculo midiático – “no campo da política, não se quer ser impopular. Em vez de ter aborrecimentos e de os criar, prefere-se contemporizar, mesmo com que é errado, com o que não é puro, nem verdadeiro, nem bom. Está-se disposto a comprar bem-estar, sucesso, reconhecimento público e aceitação por parte da opinião dominante, à custa da renúncia à verdade” (1) Muitos, em número cada vez maior, aceitam facilmente  os cantos de sereia, que estão por toda a parte. É o “psiu” da serpente ainda hoje insistindo: “bobagem! Não tem nada a ver, larga a mão!” E isso de modo mais marcante no campo político, por ser instância decisória, de funções diretivas.

E nesse sentido, Leviatã vai se agigantando, com estatura de Golias, e impondo sua lógica desumana. O Estado passa a incorporar uma ideologia totalitária, e extirpando inclusive do coração humano as leis morais universais do direito natural, e a gravíssima conseqüência disso é que – por um processo avançado de revolução cultural – o povo já não tem mais introjetado dentro de si a lei moral. Grave, gravíssimo tudo isso. Não há mais consciência que acuse o que é certo ou errado, diante do não saber ao que se ater, em meio ao nevoeiro moral hodierno.

Em meio ao nevoeiro do relativismo

“A verdade e a realidade são inseparáveis” (2). Cobre-nos o nevoeiro da pós-modernidade, tempo de descontinuidades, de rupturas bruscas, de cortes que ensangüentam e provocam choques e angústias, tempo de desligamentos, de apatias e exaustões, de escapismos e tensões, de fugas e medos numerosos. A pós-modernidade é mesmo uma tempestade, chuva de granizos em noite fria, de causar todas as quedas de energia, de desestabilizar tudo e todos, e causar assombro. É quando então bradamos como os primeiros discípulos: “Salva-nos, Senhor, pois perecemos!” Pois a tempestade da pós-modernidade nos levou ao vale escuro, e não sabíamos nem imaginávamos o quanto são sombrias as veredas do engano, da mentira e das seduções do maligno. E queremos encontrar forças para atravessar este vale tão sombrio, “vale de lágrimas” que nos encontramos, “a vós bradamos os degredados filhos de Eva, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro, mostrai-nos Jesus...” (3). Pois somente Ele, cremos pela fé vivíssima que nos anima, poderá andar pelas águas e nos salvar, pois por nossas próprias forças, nada podemos fazer. “Bem convencida estava eu disso, como o estava da minha fraqueza e imperfeição” (4).

É certo de que “no interior da Igreja se constata um cansaço que já não deixa aparecer o que é belo e o que é necessário, de um ponto de vista humano” (5), por isso a Missa de Beata Virgine, de Palestrina, anima-me a escrever neste instante:



Obrigado Senhor, por me fazer recordar de vós, em meio ao vale escuro, ao vale de lágrimas, certo do amor de vossa mãe intercessora, a quem no terço diário suplico piedade e misericórdia, pois não temos força, e “sabemos do pó que somos” (6). Mas cremos vivíssimamente n’Aquele que é Senhor e Rei e a quem clamamos, como os primeiros discípulos: “Salva-nos, Senhor, pois perecemos!”

Anima-nos o Sermão da Montanha, e daqui do meu jardim, em meio a lírios e canários, onde vejo as serras azuis da Mantiqueira, e a passarinhada que canta em meio às árvores frutíferas, na hora do Angelus, ao final da tarde! Que bom, Senhor, me inspiraste a plantar árvores que hoje abrigam tantos passarinhos, e que hoje me consolam com sua presença, a lembrar o que dissestes: “Valeis mais que os pardais do campo!

Recordo com viva emoção das palavras de São João Paulo II, em seu livro “Memória e Identidade”, quando indagou o santo pontífice; “Afinal, de que lado estamos?” Sei que a escolha é sempre escolhi do caminho mais difícil, da via estreita. São Francisco também escolhera, deixara de usufruir os privilégios de ser um Bernardone, para reformar a Casa do Senhor e viver como um quase pária social. Escolheu ser um dos últimos da sociedade, para servir na causa do Reino, e também sabia ser tão frágil e necessitado da força que vem do Senhor. Entendeu São Francisco que o Reino de Deus não é deste mundo, mas começa aqui a ser edificado, “porque a minha alma suspirava por outras maravilhas bem diferentes! (...) e “estava cansada de peregrinações terrestres, e anelava só pelas belezas do Céu” (7).

Quem ganha a vida, perde-a, quem perde-a, ganha-a (8)

 Por isso a provação de Jó, que perdeu tudo, menos a fé. Deus permitiu que Jó fosse humilhado, com a perda de tudo o que qualquer pessoa julgasse relevante para se sentir realizado como ser humano. Mas nada do que lhe foi tirado o fez amar menos a Deus. Manteve-se grato por tudo o que recebera do Senhor, e perseverando na fé, obteve tudo de volta, pois a vida que Jó amava era pautada nos valores das bem-aventuranças. Daí porque, a exemplo de Lázaro, teve restituída a sua vida, a vida verdadeira, porque diante da questão: “de que lado estamos?”, testemunhou a adesão à cruz de Nosso Senhor, certeza da glória da ressurreição. Via difícil e estreita, que lhe garantiu a vida verdadeira.
___

Notas:

1. Joseph Ratzinger, "O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald", p. 56, Ed. Imago, 1997.
2. Ibidem, p. 55, Ed. Imago, 1997.
3. Oração da Salve Rainha.
4. Santa Teresinha do Menino Jesus, "História de uma Alma", p. 153, Livraria Apostolado da Imprensa, 12 edição, Braga, Portugal, 1990.
5. Joseph Ratzinger, "O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald", p. 102, Ed. Imago, 1997.
6. Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma Alma, Livraria Apostolado da Imprensa, 12ª edição, Braga, Portugal, 1990.
7.  Santa Teresinha do Menino Jesus, "História de uma Alma", p. 145, Livraria Apostolado da Imprensa, 12 edição, Braga, Portugal, 1990.
8. Mc 8, 35.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos)
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista. Blog: LIBERTATUM

28 de maio de 2014

A ÍNDOLE TOTALITÁRIA E ANTICRISTÃ DO LAICISMO

Há um afã de eliminar Deus do horizonte cultural da sociedade, para fazer prevalecer apenas a horizontalidade hedonista e pragmática de um terrível materialismo. Vão se apagando e se debilitando os tons daquilo que foi um dia uma vigorosa identidade cristã.


























O I Seminário Internacional “O Estado Laico e a Liberdade Religiosa”, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça e coordenado pelo Ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, reuniu em Brasília, especialistas estrangeiros e brasileiros, teólogos e juristas, para debater a relação entre o Estado e a Igreja, explicitando conceitos-chaves nesta compreensão, como o de laicidade e laicismo, analisando implicações concretas do dia-a-dia, no atual contexto de pluralismo e relativismo cultural. O que ficou evidente na reflexão dos inúmeros expositores, foi a de que a ideologia laicista pode corroer as premissas da laicidade, e tornar-se um laicismo agressivo, de oposição à religião, especialmente a católica, na medida em que deixa de haver a neutralidade do Estado, necessária para garantir o direito à livre expressão e a própria liberdade religiosa. No Brasil, por exemplo, com o Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH3, não há a necessária neutralidade do Estado (como requer a laicidade), e com o laicismo o Estado acaba sendo instrumentalizado por uma ideologia nada laica, mas de índole totalitária e anti-cristã.

O prof. Daniel Sarmiento, que elogiou a decisão do STF na questão homossexual, foi enfático: no debate das grandes questões atuais, o argumento religioso não funciona mais, não convence. Para ele, só vale o argumento das razões públicas. Se o Estado clássico preocupava-se com a formação moral dos cidadãos, o estado pós-moderno e laico está focado apenas na promoção do bem-estar social, buscando ainda a mais absoluta liberdade de todos. Se o indivíduo tem o direito de ter religião, possui também o direito de não tê-la, e cabe ao Estado garantir esse direito, fazendo valer a igualdade e a liberdade. “O Estado tem que estar suficientemente isento”, afirmou o Dr. Hélio Jorge, “com respeito flagrante ao direito das minorias”. No caso do ensino religioso, por exemplo, tendo em vista que ainda a maioria do povo brasileiro é de formação católica, indagou: “aonde vão estar as crianças de religiões diferentes?” E acrescentou: “O poder público não tem direito ao constrangimento, confundindo-se com o pensamento religioso hegemônico”. E em relação à neutralidade do Estado no campo moral, salientou: “o Estado precisa sair da dicotomia bem x mal, com raiz medieval. Desmontemos e desconstruamos esta lógica”.

O prof. Kent também corroborou o pensamento da invalidade do argumento religioso, ressaltando que “o argumento do pecado é fraco para ser mantido”, dizendo ainda que “os juízes não deveriam se basear em razões religiosas”.

O mais enfático foi Daniel Sarmiento, ao falar sobre a judicialização das relações sociais e da própria moral. No contexto do pluralismo religioso, em que contam hoje as matrizes afro-indígenas e outras expressões da religiosidade, os grupos minoritários trouxeram novas demandas e a moral convencional foi questionada. E advertiu: “A tendência não é que o fenômeno páre!”

Sarmiento ainda afirmou que o argumento de que o STF exorbitou suas funções, usurpando-as do poder legislativo, no caso da questão homossexual e do aborto, por exemplo, são argumentos fracos de razão pública. Na defesa do que chamou de democracia deliberativa, disse que não podemos respaldar as decisões da maioria que sejam uma violência à minoria. Nesse sentido, o argumento religioso deve encontrar uma tradução em razão pública, para convencer a todos de suas posições políticas. Sem esta tradução, o discurso religioso não encontrará o respaldo que precisa para convencer os tomadores de decisão a aceitarem as suas convicções, princípios e valores. O fato é que os grupos de interesse a influir nas decisões nacionais atuam no enquadramento das razões públicas. Nem o argumento antropológico vale, para a questão homossexual e a do aborto, especialmente na defesa do direito à vida ao nascituro.   

“Já não há um ambiente geral cristão”

É certa a hostilidade crescente ao cristianismo, de modo especial ao catolicismo apostólico romano, por forças adversas que lançam seus dardos contra o edifício moral católico, buscando minar o pilar doutrinário da Igreja. O laicismo se junta a estas forças, visando despojar a sociedade de toda referência cristã. Não se trata de garantir (como assegura a laicidade) a liberdade de expressão e de religião, mas dificultar o máximo possível, desestimular e se preciso mais posteriormente até perseguir os que manifestarem a convicção religiosa. Há um afã de eliminar Deus do horizonte cultural da sociedade, para fazer prevalecer apenas a horizontalidade hedonista e pragmática de um terrível materialismo. “Durante quase 1.500 anos houve o apoio de um ambiente cristão para a transmissão da fé e para a educação cristã. Hoje esse ambiente já não existe nas escolas, nos meios de comunicação social, nas instituições da sociedade”.1 Vão se apagando e se debilitando os tons daquilo que foi um dia uma vigorosa identidade cristã. “Os valores da Igreja e as concepções do mundo moderno parecem divergir cada vez mais”.2 E ainda num cenário diferente do vivido pelos primeiros cristãos, porque as forças adversas têm hoje os meios possantes da tecnologia para seduzir mais impactantemente um número maior de pessoas desinformadas. É preciso reconhecer, portanto, que “já não há um ambiente geral cristão” (p. 209), e é neste deserto em que nos encontramos, que a Igreja é chamada a atuar, e a “criar, por si, as células em que se possa fazer a experiência do apoio mútuo e da caminhada em comum”.3 Um desafio que nos leva a buscar o discernimento para saber “como a Igreja há de viver nesta sociedade cada vez mais descristianizada”.4O fato é que “o cristianismo é uma religião de salvação, soteriológica”5, e é isso que precisamos convencer a geração atual. Por isso é preciso buscar a tradução necessária, para com os argumentos adequados atualizar o que a Igreja anuncia há séculos como valor de vida.

“Apenas convencemos se argumentamos. E a Igreja tem argumentos”,   afirma Martim Rhoheimer. E explica que “os documentos do Magistério hoje em dia são fantásticos, por que são fundamentados. Por exemplo, o documento sobre as uniões homossexuais alega razoes seculares, politicamente aceitáveis, sem nenhuma afirmação deduzida da Bíblia, tudo faz parte de um senso comum. Expõe que o matrimonio tem um estatuto particular porque é responsável pelas novas gerações, do seu nascimento, educação, cultura e até a transmissão da riqueza e do saber. As uniões homossexuais não produzem nada disso. Podem ser uniões afetivas, de amizade. A questão não é que a Igreja prefira o amor entre homem e mulher como tal.”6
Se as razões públicas apresentadas pela Igreja Católica são consideradas fracas, pelos laicistas, não devemos esmorecer. “Encontramo-nos sempre na obscuridade da provação e só podemos chamar por Deus: salva-nos outra vez!”7E então a presença na “sarça ardente” nos leva a assumir a missão de voltarmos a estar diante do faraó, para erguer o báculo sagrado e novamente fazer Deus operar aquelas maravilhas que movem a história para a superação de todas as ideologias opressoras do ser humano, como agora se faz necessário superar também os equívocos do laicismo.

Notas:

1.   Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Catolica no Limiar do Terceiro Milênio – um diálogo com Peter Seewald; p. 208, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1997.

2.   Ibidem.

3.   Ib. p. 209.

4.   Ib. p. 208.

5.   João Paulo II, Cruzando o limiar da esperança, p. 82, 1ª ed., Livraria Francisco Alves Editora, 1994

6.   http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=comnoticias&Itemid=18&task=detalhe&id=10863

7.   Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: Primeira parte – Do batismo no Jordão à Transfiguração. São Paulo, Planeta do Brasil, 2007, p. 224

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos)
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista. Blog: LIBERTATUM

23 de maio de 2014

Dilma Roussef sancionou a Lei 12.485, abrindo assim brechas para a prática do aborto no sistema SUS, com recurso público.
























GOVERNO DO PT COMPROVA SEU COMPROMETIMENTO COM AGENDA ABORTISTA. Dilma Roussef sancionou a Lei 12.485, abrindo assim brechas para a prática do aborto no sistema SUS, com recurso público. Agora, com a publicação da Portaria nº 415, de 21 de maio de 2014, o aborto passa a ser financiado pelo estado brasileiro na rede pública de saúde.

Os organismos que estão trabalhando internacionalmente pela aprovação do aborto são as Fundações (que planejam e financiam as ações) e as organizações não governamentais (que as executam) e que promovem tudo isso com enormes somas de dinheiro, como as Fundações Ford, Rockefeller, MacArthur, a Buffet (entre as fundações), e a International Planned Parenthood Federation (IPPF, que tem filiais em quase 150 países), a Rede Feminista de Direitos Sexuais e Reprodutivos, as Católicas pelo Direito de Decidir (que não são católicas, mas usam o nome para confundir principalmente os católicos), a Sociedade de Bem-Estar Familiar no Brasil (Benfam) e a International Pregnancy Advisory Services (IPAS), entre as ONGs. A filial norte-americana da IPPF, por exemplo, detém uma rede que abarca 20% de todas as clínicas abortistas dos Estados Unidos. Segundo a fundadora das falsas “Católicas pelo Direito de Decidir”, Frances Kissling, a IPPF só trabalhou na propaganda pela legalização da prática do aborto nos EUA, mas não queria entrar diretamente no negócio das clínicas “para não ser estigmatizadas” pelo público. Mas, numa longa entrevista tornada pública, ela mesma conta que as Fundações que financiam as atividades da IPPF obrigaram-na a entrar diretamente na estruturação e gerência da própria prática do aborto, tornando-se hoje a maior promotora de abortos na América e no mundo.

O argumento, portanto, dos direitos reprodutivos não passa de retórica, que seduz os desinformados (entre eles, os políticos), em prejuízo de muitos, especialmente as mulheres pobres, que são as mais vitimadas por essa lógica inumana.

No Brasil a Fundação MacArthur, por exemplo, desde 1988, decidiu investir em programas de controle populacional, em nosso no País, alimentando várias OnGs para esta finalidade. No ano seguinte, em São Paulo, a então prefeita do PT, Luiza Erundina (hoje deputada nesta Casa) estabeleceu o primeiro serviço brasileiro de abortos em casos de estupro, no Hospital Jabaquara, dando início assim a uma rede que vem até hoje se ampliando e trabalhando com o objetivo de legalizar o aborto no Brasil, utilizando a estratégia de oferecer serviços de abortos nos casos não punitivos pela lei, que eles chamam de “aborto legal”, quando não é legal, pois ele continua sendo crime no Código Penal.

E agora querem também de alguma forma flexibilizar a legislação, nesse sentido, com a reforma do Código Penal. Os médicos brasileiros passaram a fazerem parte de “capacitações” para aceitarem gradativamente a lógica do “aborto legal” iniciado no Hospital Jabaquara, depois também no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, no CAISM (Centro de Atendimento Integral à Saúde da Mulher), sob a direção do Dr. Aníbal Faúndes, e membro do Conselho Populacional de Nova York. A mesma Fundação MacArthur de Chicago investiu nos Foruns para o Atendimento aos Abortos Previstos por Lei, em congressos anuais, com profissionais da Saúde e organizações feministas.

Vê-se que nesse processo e contexto, o PT é o partido político mais comprometido com esta agenda, até hoje. Mas foi em 1996, após os acordos de Glen Cove entre o FNUAP, OnGs e Comitês de Direitos Humanos, que foi possível expandir os serviços de “aborto legal” no Brasil, criando assim o ambiente cada vez mais favorável principalmente entre os médicos para a banalização da prática do aborto, até chegar a plena legalização. Muitos acreditam estar trabalhando realmente em defesa dos interesses das mulheres, mas não tem o conhecimento mais a fundo da questão, e com isso favorecem os interesses das Fundações internacionais.

Em 1998, na gestão do Ministro José Serra (PSDB), tais grupos influíram para que o Ministério da Saúde adotasse a primeira Norma Técnica que permitisse, com uma medida do Executivo, ampliar tais serviços nos hospitais brasileiros. Para se ter uma ideia, pela Norma Técnica a mulher estaria dispensada de apresentar exame de corpo de delito para comprovar o estupro e solicitar um aborto, exigindo apenas a apresentação de um Boletim de Ocorrência, que pode ser obtido em qualquer delegacia de polícia sem necessidade da apresentação de provas.

Mais uma brecha, mais um ardil, fazendo avançar a agenda abortista, com o apoio do governo! Hoje há em nosso País uma rede de hospitais equipados para tais serviços, favorecidos não apenas por aquela Norma Técnica, como outras que vieram posteriormente. A 2ª Norma Técnica, eliminou a exigência do Boletim de Ocorrência e limitou a objeção de consciência. O médico, por exemplo, que está sozinho no serviço de emergência, tem que fazer o aborto. Se não fizer pode ser processado, por omissão de socorro. É isso: Primeiro tem que matar, depois curar os outros. E assim, de todas as formas, o governo brasileiro buscou driblar as restrições legais, obcecado que está em cumprir seus compromissos com as agências da ONU e grupos internacionais, Desde 2005, de modo mais acentuado (como comprova farta documentação), muito foi feito nesse sentido pelo Governo Lula, cujo partido do Presidente Lula e de Dilma Roussef chegou a punir dois deputados federais do próprio PT, de marcada atuação em defesa da vida. Em 2007, foi criado o GEA (Grupo de Estudos sobre o Aborto) que diz em seu próprio site, que é “uma entidade multidisciplinar que reúne médicos, juristas, antropólogos, movimentos de mulheres, psicólogas, biólogos e outras atividades. Não é uma OnG e não tem verbas próprias. Conta com inestimável apoio do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Seu foco é capilarizar a discussão do tema ABORTO sob o prisma da Saúde Pública e retirá-lo da esfera do crime.”.

Ainda em 2010, o coordenador do Grupo de Estudos para legalizar o aborto no Brasil, constituído pelo governo brasileiro, pago com recurso público, disse que a intenção não é apenas despenalizar o aborto, mas “a ideia é ir mais longe e não fazer mais do aborto um crime”. Grupo este formado por militantes e OnGs que promovem o aborto no Brasil, inclusive faz parte o Dr. Adson França, representante do Ministério da Saúde. É preciso que o aborto não seja mais tido como crime para, anestesiada a consciência moral, utilizar então o Estado com recurso público a perpetrar este abominável atentado contra a vida, sem que haja resistência e restrição legal. O Estado que é constituído para defender a vida e a família, acaba portanto se voltando contra a vida e a família, como um Leviatã que oprime até a morte, por pressão das forças globalistas. E com os eufemismos, a retórica e a demagogia, invertem todos os conceitos. Descriminalizado, sem restrição legal, a defesa do aborto passa a ser a defesa de saúde pública. O SUS então passa a fornecer abortivos químicos (a exemplo da pílula do dia seguinte), como explica o Dr. Ives Gandra da Silva Martins, "à custa de perigosa intoxicação da mulher, por vezes com conseqüencias desastrosas para a sua saúde”. Mata a criança no ventre materno e provoca danos á saúde da mulher, ao corpo e a alma da mulher. Pois os efeitos pós-abortos são causas, muitas vezes, da depressão, da angústia, de graves problemas psíquicos e até mesmo o suicídio.

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Por isso, reafirmamos, que mente descaradamente o governo brasileiro quando diz que não está comprometido com esta agenda. Como fez a então candidata Dilma Roussef, em 2010, sobre esta matéria. Ainda no segundo turno, ela assinou uma carta compromisso de que era contra o aborto, dizendo ipsis literis: ““Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião no país.” Mentira! Mente descaradamente a sra. Presidente da República nesta matéria. As iniciativas que visam legalizar o aborto no Brasil têm vindo do Executivo, com a complacência e a conivência do Judiciário. Como há pouco me lembrou o Dr. Paulo Fernando Mello Costa, aqui presente, sugiro que assistam ao vídeo que ele fez, “Dilma Mãe do Brasil”, disponível no youtube.

Temos acompanhado, há alguns anos, o trabalho desta Casa de Leis e visto os esforços de parlamentares para aplacar a sede do sangue inocente. Mas as pressões não cessam, cada vez mais intensas, promovidas, estimuladas, de modo sutil e sofisticado, e também muito bem planejado e financiado pelas fundações internacionais e por vários setores do governo federal, inclusive do Ministério da Saúde, que recentemente encaminhou a esta Casa de Leis o então PLC 03, hoje lei 12.485, que foi vergonhosa e sorrateiramente tramitada e votada sem deliberação, sem sequer que os deputados percebessem a armadilha e deixassem escapar o ardil do governo, mostrou o seu desprezo a população (a maioria ´contra o aborto e pela vida), a Presidente sancionou a Lei 12.485, abrindo assim brechas para a prática do aborto no sistema SUS, com recurso público. Agora, com a publicação da Portaria nº 415, de 21 de maio de 2014, o aborto passa a ser fato, financiado pelo estado brasileiro na rede pública de saúde.

Com a Lei 12.485, o Ministério da Saúde, utilizando-se das Normas Técnicas já aprovadas, e agora com o endosso da Presidência da República, todos os hospitais do Brasil, independentemente de se tratarem de hospitais religiosos ou contrários ao aborto, serão obrigados a encaminhar as vítimas de violência à prática do aborto. O projeto não contempla a possibilidade da objeção de consciência. Na sua versão original, o artigo terceiro do projeto afirmava que o atendimento deveria ser imediato.

A partir da sanção presidencial e agora com a publicação da Portaria nº 415/2014, bastará apenas a palavra da mulher pedindo um aborto, e os médicos terão obrigação de aceitá-la, a menos que possam provar o contrário, o que dificilmente acontece. Mas pelo menos a mulher deveria afirmar que havia sido estuprada. Agora não será mais necessário afirmar um estupro para obter um aborto. Bastará afirmar que o ato sexual não havia sido consentido, o que nunca será possível provar que tenha sido inverídico. A técnica de ampliar o significado das exceções para os casos de aborto até torná-las tão amplas que na prática possam abranger todos os casos é recomendada pelos principais manuais das fundações internacionais que orientam as ONGs por elas financiadas. Com isto elas pretendem chegar, gradualmente, através de sucessivas regulamentações legais, até a completa legalização do aborto.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos)
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista. Blog: LIBERTATUM

12 de maio de 2014

OS DESAFIOS DA FAMÍLIA NO CONTEXTO PREPARATÓRIO DO SÍNODO DOS BISPOS

Família: suporte da pessoa humana

O Papa Francisco convocou para outubro próximo a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, para debater o tema "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização". Um questionário foi encaminhado a todas as dioceses, para reunir subsídios de reflexão que possam contribuir ao discernimento dos bispos, que apresentarão uma síntese ao papa, que poderá tomar decisões para enfrentar "as novas urgências pastorais que dizem respeito à família", conforme expressou em sua carta às famílias. Conclui a carta, rogando a oração pelo Sínodo dos Bispos, "um tesouro precioso que enriquecerá a Igreja". Carta do Papa Francisco, clica aqui.

Sim, devemos rezar, e muito. Seguindo o lema de São Bento: "Ora et Labora". E mais, conforme pediu o próprio Jesus: "Orai e vigiai!" Os tempos atuais, na vida da Igreja, requer oração e vigilância. Lembro-me da primeira votação que acompanhei do Projeto de Lei que visava legalizar o aborto no Brasil, em 7 de dezembro de 2005, na Comissão de Seguridade Social e Família, na Câmara dos Deputados, ocasião em que compareceu no plenário 7, o amigo Dom Geraldo Majella Agnelo, então presidente da CNBB. Em meio a votação, que por um voto apenas, rechaçou o PL 1135/91, um dos membros da Pastoral Familiar chegou-me a dizer que não conseguia entender o que estava acontecendo, de como a Igreja parecia ter sido enredada numa areia-movediça cultural, e que cada vez mais se via dando braçadas contra a corrente dominante, de uma cultura anti-cristã, mas que agia contra a Igreja, de modo sutil e sofisticado. Já naquele instante, ele me dissera perceber que a pressão era muito forte, que os meios de comunicação disseminavam, em novelas, filmes, programas de auditório, seriados etc., toda uma mentalidade corrosiva, agindo contra a moral católica, a moral familiar, a lei natural, e que ia acuando cada vez mais os religiosos e leigos atuantes na Igreja, mesmo na Pastoral Familiar das paróquias e dioceses, dando a impressão de que era preciso ceder, de que o mundo mudou mesmo, de que a realidade era outra e de que a maioria já não aceitava mais as restrições morais no campo familiar. 

Naquela votação de 2005, em meio ao movimento de gente entrando e saindo do plenário 7, ele me dissera: "estamos cada vez mais sem saber o que fazer". E ainda: "há muito que a Igreja perdera seu protagonismo no campo legislativo, desde a aprovação do divórcio. Hoje é o aborto, amanhã o homossexualismo, depois a eutanásia.Já não sabemos como enfrentar tudo isso". E então, posteriormente, relendo com mais atenção a Evangelium Vitae, e os demais documentos pontifícios sobre a questão da família, e ainda Jacques Leclerc, Michel Schooyans e outros autores, fui percebendo de que se tratava mesmo de um combate: o combate pela vida e pela família. E mais: não estávamos preparados para tal combate; pois os inimigos assumiram postos, se infiltraram, foram tomando posições diretivas, até mesmo dentro da Igreja. Muitos preferiram então abraçar o relativismo. Como fazer para dar conta dos inúmeros problemas, de várias situações de impasse, dos incômodos que se agudizaram decorrentes da mais grave crise sofrida pela instituição familiar, desde as primeiras civilizações da Antiguidade, há dez mil anos, quando ela se consolidou como a primeira e principal das instituições humanas? A tentação do relativismo falou mais forte. Para muitos, era preciso flexibilizar a moral, fazer justamente aquilo que os adversários da Igreja queriam, desde o início do combate: extenuá-la até forçá-la a aceitar a capitulação. "Não sabemos o que fazer, mas a crise é grave, gravíssima", reconheceu o membro da pastoral familiar. E concluiu dizendo: "Temo que se aceitem as falsas soluções, as medidas mais fáceis, que em vez de proteger a família dos ataques intensos, irão fragilizá-la ainda mais, senão derruí-la de vez."

Passei o ano inteiro de 2006 lendo e estudando a problemática do aborto, procurando saber de onde estariam vindo os ataques contra a família. Não foi muito difícil ter acesso a vasta documentação existente, de estudiosos sérios e pensadores bem informados, quase todos conscientes de que se trata de um movimento de desestabilização social e revolução cultural, que mirou seus dardos contra a família e contra a Igreja Católica (a que mais defendeu a família ao longo da História). O fato é que tal movimento não emergiu espontaneamente, mas foi gestado e impulsionado por poderosas forças econômicas e políticas, que passaram a financiar a cultura anti-família e anti-vida. Já no começo do século XX e, principalmente, depois da Segunda Guerra Mundial, tais grupos de poder (de modo especial as Fundações internacionais, como a Rockefeller e a Ford) passaram a atuar e a protagonizar o ataque contra a família e a moral católica, de modo sistemático e gradual, com tática gramsciana, agindo por dentro da instituições, dos governos, e da própria Igreja, financiando inclusive a dissenção dentro da Igreja, lançando no seio da Igreja e em outras instituições sociais, os venenos de efeitos subterrâneos, com fins de se atingir as raízes que por durante milênios fizeram da família a mais sólida de todas as instituições. 

Charles R. Morris, em seu livro "Os Magnatas" (LP&M Editores, 2006), falando de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, Jay Gould e J. P. Morgan, descreve o modo amoral como esses homens acumularam fortuna financeira. "Nenhum deles era modelo de conduta". Rockefeller, por exemplo, "era frio e cerebral", todos com "manobras estratégicas", experts na especulação, no marketing e no embuste. Ficaram notórios pelas "fraudes extravagantes" e reputações arrasadas. Mas o que importa, se havia a obsessão pela prosperidade, e ficaram bilionários? Forjadores de crises para sair delas mais ricos ainda, deixando tudo e todos atônitos a sua volta. Não havia adversário que não fosse reduzido a pó, por eles. E desde o início, quando já eram "donos do mundo" e passaram a impor suas preferências e moldar a cultura dos demais povos, a Igreja Católica foi vista como a adversária das adversárias, e tudo foi feito para miná-la, em todos os aspectos, e mesmo quando acharam que já haviam dado o golpe fatal, julgando que tinham liquidado com ela, de vez, houve quem ainda reclamasse tratar-se de um cadáver difícil de enterrar. A pedra de Sísifo voltava a rolar. O organismo reagia e tudo começava de novo.   

Os alvos contra a Igreja prosseguiram. A moral católica era o grande obstáculo a ser vencido para as Fundações avançarem em seu projeto totalitário de poder global. "Os inimigos que enfrentamos são muito poderosos (...) O projeto de domínio global precisa ser feito com as mentes e consciências daqueles que pretende subjugar", ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, membro da Pontifícia Academia para a Vida. Quando os inimigos da Igreja viram que não era possível destruí-la por inteiro, então descobriram que era possível desfigurá-la, descaracterizá-la, destituí-la, por dentro, despojá-la de sua identidade. Que fique a casca, a aparência, mas o conteúdo precisaria ser sugado e eliminado. E esse trabalho de desmonte por dentro, começou de modo mais acentuado, quando John Rockefeller III esgotou seus esforços em fazer convencer o papa Paulo VI em flexibilizar a moral familiar católica na encíclica Humanae Vitae, publicada em 1968. Rockefeller III esteve pessoalmente em audiência com Paulo VI e arguiu que o mundo mudou, não dá mais, a realidade hoje é outra; querendo que Paulo VI flexibilizasse a moral sexual católica, para para justificar assim o controle populacional, recorrendo ao aborto, se preciso, como método mais eficaz, como desejava Margaret Sanger. Rockefeller III saiu da audiência com Paulo VI convencido de que ele havia entendido de que era preciso mudar, flexibilizar. Mas, para estupor de todos, Paulo VI não flexibilizou e manteve a moral familiar de acordo com a lei natural, defendida pela Igreja, há dois milênios. Rockefeller percebeu então que tinha de mudar de estratégia: passou a financiar a revolução cultural. Teria paciência para isso, trinta, quarenta anos, não importa. Mas atacaria a família e a moral católica de outros modos, até a Igreja, acuada e extenuada, ter que flexibilizar, a pedido dos próprios fiéis católicos. Numa entrevista, Francis Kislling, a fundadora das "Católicas pelos Direito de Decidir" (financiada por tais grupos) assim afirmou: "O direito ao aborto somente será definitiva e irreversivelmente estabelecido entre as mulheres quando, no dizer das Católicas, mais do que a legislação, puder ser derrubada a própria moralidade do aborto, e nisto a Igreja Católica não passa apenas de um alvo instrumental. A moral católica é a mais desenvolvida. Se você puder derrubá-la, derrubará por conseqüência todas as outras". Essa foi a estratégia adotada: as Fundações desestabilizariam a sociedade a tal ponto, até que a maioria dos fiéis exigissem do papa a flexibilização. "Não foi, tudo isso, um movimento espontâneo - como me dissera o membro da Pastoral Familiar - mas forças econômicas e políticas poderosas agiram para isso".  

Da audiência de Rockefeller III com Paulo VI, os ataques contra a família e a Igreja se tornaram cada vez mais intensos e sistêmicos. Rockefeller III foi convencido por Adrienne Germain de que era preciso mudar de estratégia. Então, em 1974 (no mesmo ano do Relatório Kissinger), Rockefeller III decidiu investir na revolução cultural, financiando o movimento homossexual e o feminismo radical. Em 1978, Rockefeller III morreu num acidente de carro, mas havia começado a acionar o processo da revolução cultural, hoje bem avançado. Vieram logo em seguida outros investimentos nesse sentido, como "a subversão silenciosa para concretizar o projeto de poder global" - como conta Sanahuja - "impondo alguns novos paradigmas éticos". Com isso, "erigiu o sentimento da maioria das pessoas como base de toda decisão moral e legal". A lei natural - onde se alicerça a família - passou a ser substituída pelo "utilitarismo sentimental da maioria", explica Sanahuja. E acrescenta descrevendo "o novo paradigma de família", denunciando a ideologia de gênero, imposta por tais grupos de poder, como "um conceito-chave da reengenharia social anti-cristã para subverter o conceito de família", impondo-nos "uma visão anti-natural da sexualidade auto-construída, a serviço do prazer". Tudo isso visando (afirma Dale O'Leary): "1) menos pessoas, 2) mais prazer sexual; 3) eliminação das diferenças entre homens e mulheres; 4) que não existam mães em tempo integral", e que, com essa lógica da cultura da morte, a "receita para a salvação do mundo é: 1)anticoncepcionais grátis e aborto legal; 2) promoção da homossexualidade (sexo sem bebês); 3) curso de educação sexual para promover a experiência sexual entre as crianças e ensiná-las como obter contraceptivos e abortos, que a homossexualidade é normal e que homens e mulheres são a mesma coisa; 4) eliminação dos direitos dos pais, de forma de que estes não possam impedir as crianças de fazer sexo, educação sexual, anticoncepcionais e abortos; 5) cotas iguais para homens e mulheres; 6) todas as mulheres na força de trabalho; 7) desacreditar todas as religiões que se oponham a esta agenda". Trata-se, como destaca o amigo Jorge Scala, "de uma nova antropologia, que deveria iniciar uma nova cultura. No entanto, essa doutrina, por sua falta de correspondência coma  realidade, somente pode ser imposta ideologicamente, isto é, restringindo a liberdade das pessoas mediante uma articulada manipulação semântica, através dos meios formais e informais da educação".

Com tudo isso, sabemos que, quarenta anos depois de Paulo VI ter decepcionado Rockefeller III, o desafio dos bispos no Sínodo de outubro, que terá como tema central a questão da família. Que respostas darão agora? Fidelidade ao Magistério da Igreja, ou cederão às pressões por flexibilização? Por isso, podemos dizer que depois de tantos ataques sem trégua, e com todo o aparato tecnológico dos mass media, requer que intensifiquemos a oração e a vigilância, no aguardo das respostas que o Sínodo deverão oferecer ao papa. Sabemos que mais uma vez urge a coragem dos sucessores dos apóstolos em serem fiéis à sã doutrina, pois a família, primeira e principal de todas as instituições humanas, está hoje sob o fio da navalha.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos)
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista. Blog: LIBERTATUM


9 de maio de 2014

BRASIL DIZ NÃO RETUMBANTE À IDEOLOGIA DE GÊNERO

BRASIL DIZ NÃO RETUMBANTE À IDEOLOGIA DE GÊNERO
























Foi mais uma batalha bem sucedida em defesa da família no Congresso Nacional, em que diversos grupos atuaram no sentido de evitar a inclusão da ideologia de gênero no Plano Nacional de Educação. Mesmo que muitos aspectos desta terrível ideologia antifamília já esteja disseminada nas escolas, o PT queria era constá-la no PNE, justamente para dar legalidade ao que já vendo sendo feito, de acordo com as diretrizes do Plano Nacional de Direitos Humanos, versão 3. 

Mesmo assim, as feministas ficaram surpreendidas com a mobilização conservadora, e apesar da pressão que fizeram sobre os deputados da base governista, perderam nesta matéria. 

Foi a primeira vez que a ideologia de gênero é barrada, em nível nacional, num país do mundo. O Brasil, mais uma vez, mostra aos ideólogos da cultura da morte, que aqui não está tão fácil como eles imaginaram, enfiar goela abaixo o pacote anárquico do feminismo radical, antivida, antifamília e anticristão. 

O fato é que houve conscientização e mobilização: tanto no Senado, quanto na Câmara, os deputados e senadores receberam informações e entenderam o que estava por trás dos eufemismos e retóricas, pois em nome da não-discriminação, o que se quer é garantir a ênfase no igualitarismo, para aí sim, discriminar os cristãos e todos aqueles que divergem do anarco-feminismo. Uma minoria que deseja impor à maioria, estilos de vida que atentam contra a dignidade da pessoa humana. Dignidade esta garantida pela Constituição Federal, e que por isso mesmo, de modo democrático, os grupos pró-família, procuraram assegurar. 

Aceitar a ideologia de gênero seria discriminar também as mulheres, no direito humano delas serem mães, pois tal ideologia - como afirma Francisco Javier Errázuris Ossa - "aprofunda tal discriminação, restringindo a missão da mulher na família e na sociedade e discriminando os filhos, os casais e a família do qual fazem parte". 

Com a ideologia de gênero, a família é subestimada, diminuída, desvalorizada e desprotegida. E com isso, fica desamparada a pessoa humana, vulnerável à angústia, a violência e a solidão; pois estas são as conseqüências quando não se vive a família em sua estrutura natural, quando se distorce o sentido da família, buscando querer o mesmo significado (dando direitos iguais) a outras formas de família, que na verdade não são formas de família, mas contrárias à família, travestidas de simulacro, de falsa aparência, de escapismo e, portanto, de ilusão. 

Por isso, nos países desenvolvidos, em que o Estado se voltou contra a estrutura natural da família (fazendo apologia da ideologia de gênero), são mais perceptíveis as conseqüência dos danos sociais e as patologias decorrentes. O que se vê agora neste países é que cresce o número daqueles que querem revogar tais legislações, que deram legalidade a "estranhos morais" e abominações que aviltam o ser humano, em muitos aspectos. 

O Brasil, ao recusar a ideologia de gênero em seu Plano Nacional de Educação, deu mais um passo decisivo na afirmação da cultura da vida, para ser um país realmente desenvolvido, como nação pujante que é, mas como quem - gigante por natureza - quer se afirmar na vanguarda da cultura da vida. Por isso, a vitória pró-família no Congresso Nacional, inédita no mundo, foi altamente relevante.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos)
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista.

30 de abril de 2014

O combate à ideologia de gênero no plano nacional de educação

O combate à ideologia de gênero no plano nacional de educação
A votação de 6 de maio deliberará a meta 3.13 do PNE

A votação do Plano Nacional de Educação deve ser concluída no próximo dia 6 de maio, na Câmara dos Deputados. Na sessão do dia 22 de abril, a maioria dos deputados da Comissão Especial de Educação (15 x 11) rechaçaram a ideologia de gênero, que o relator, Dep. Angelo Vanhoni (PT) queria ver incluída no inciso III, do art. 2 do PNE.

Votaram a favor da ideologia de gênero os seguintes deputados: Angelo Vanhoni, Fátima Bezerra, Margarida Salomão, Artur Bruno, Iara Bernardi, Pedro Uczai, Ivan Valente, Stepan Nercessian, Chico Lopes e Paulo Rubem Santiago. Os deputados que votaram contra a ideologia de gênero foram Lelo Coimbra, Nelson Marchezan Junior, Alex Canziani, Dr. Ubiali, Eduardo Barbosa, Efraim Filho, Jair Bolsonaro, Pastor Eurico, Paulo Freire, professor Sétimo, Professora Dorinha Seabra rezende, Stefano Aguiar, Alfredo Kaefer, Antonio Bulhões, Gastão Vieira, Marcos Rogério, Pedro Chaves, Ronaldo Fonseca e Leopoldo Meyer.

Falta ainda a deliberação de um outro ponto no Plano Nacional de Educação, que precisa excluir a ideologia de gênero. Trata-se da meta 3.13 do PNE. A batalha pró-família, das sessões dos dias 22 e 23 de abril havia sido vencida, em parte. Resta ainda a deliberação da meta 3.13, para que a ideologia de gênero fosse erradicada do Plano Nacional de Educação. Decisão esta que ficou marcada para a sessão da próxima terça-feira, dia 6 de maio. 

Apesar da forte pressão do governo brasileiro (de modo especial o Ministério da Educação), com a militância da UNE nas sessões, foi possível barrar a ideologia de gênero com a aprovação da primeira emenda (incíso III, art. 2). Falta agora o destaque da meta 3.13. Os deputados estarão decidindo sobre o texto do Senado (que já havia feito a exclusão da ideologia de gênero no PNE) e o da Câmara (que retomou o projeto original do relator Vanhoni).

Mesmo depois de votada a meta 3.13, e conseguindo rejeitar a ideologia de gênero, o Plano Nacional de Educação ainda será apreciado no Plenário da Câmara, e o governo poderá ainda tentar incluir mesmo assim a ideologia de gênero no PNE.

Há também, além do Plano Nacional de Educação, mais dois projetos de lei tramitando no Congresso, que visam incluir a ideologia de gênero na educação do País. Tratam-se dos projetos de lei 6010/2013 e 7627/2010. Tais projetos, camuflados em combate à violência contra a mulher e à discriminação contra homossexuais, tem como objetivo viabilizar a chamada "desconstrução da heteronormatividade", e a utilização da ideologia de gênero como ferramenta política para minar a família. Por isso, precisamos estar vigilantes e atuantes, para evitar tais aprovações e deter o projeto do governo brasileiro de corroer a instituição familiar, instrumentalizando os educadores para fins tão perversos.

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Colunista do Blog Evangelizando (+ artigos
Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista.

O sentido e o valor da maternidade - Prof. Hermes Rodrigues Nery

O sentido e o valor da maternidade - Prof. Hermes Rodrigues NeryPor Prof. Hermes Rodrigues Nery*
(Transcrição de uma das exposições do curso "Família, escola de vida")

Caríssimos amigos,

Damos hoje continuidade ao curso “Família, Escola de Vida”, iniciado em 25 de março, em que começamos refletindo sobre os fundamentos da família, núcleo fundante de onde deve florescer e frutificar a comunidade humana, no melhor dos relacionamentos. Daí que o primeiro cuidado deve ser no sentido de que hajam relações de afeto, com discernimento, mútuo-respeito, de efetiva solidariedade. Pois se não for assim, a família desaba na discórdia, até mesmo na violência, soçobrando em meio às piores perversões. Por isso, a palavra-chave nesse processo é “cuidado”, em todos os sentidos, pois se não cuidarmos e a cultivarmos, a família perde sua significação, deixa de ser suporte e compromete assim a realização da pessoa humana, de cada pessoa chamada a ser e a agir na verdade e no bem.

É certo de que se a família não vai bem, nada mais vai bem na sociedade, principalmente no itinerário que se faz necessário percorrer para cada um de nós – pessoa criada para a felicidade – alcançar a vida eterna em plenitude. Começamos aqui a edificar o que seremos na eternidade. As decisões de hoje, a partir da família em que estamos constituídos, determinarão a nossa condição definitiva, na vida futura, pois “no infinito, o homem assume todos os planos que fez para esta vida” ¹

Dissemos na aula passada sobre a necessidade da preparação para o matrimônio, atenção esta que não tem tido hoje o devido cuidado, pois requer, sim, preparar-se para aquilo que se quer viver para sempre. Nesse sentido, a pós-modernidade nos leva à direção contrária da continuidade, que exige ascese, paciência, cultivação (investimento, utilizando um termo atual), mas continuidade enquanto perseverança no bem. “Na sociedade atual parece haver sofrido transformação a proposta básica de ascese tradicional. Já não se inculcam a mortificação, a conquista da humildade, o exercício da renúncia, o amor ao sacrifício”

Aí reside o x da questão para entender a mudança de mentalidade imposta às novas gerações, por forças econômicas e políticas interessadas numa fragilização maior da vida humana, para melhor manipular as pessoas, tornando-as mais vulneráveis e presas fáceis de muitos escapismos. O fato é que perdemos a noção e a motivação para o sacrifício e a renúncia, sem os quais não é possível amar por inteiro, pois “não existe ninguém que não possa sempre se tornar melhor” 3 E só nos tornamos excelentes como pessoa humana, amando – o imperativo do mandamento maior, “a opção fundamental da vida humana”. 4

“Amar é estar pronto para sofrer”, quando necessário, e é justamente isso que temos tido dificuldade de entender: sofrer por amor, pois as exigências do amor requerem de nós a firme e boa vontade em perseverar no bem, especialmente quando, para isso, temos que renunciar ao prazer e a qualquer outra vantagem temporal. Ou ainda – o que é mais importante – quando para isso temos que renunciar ao poder e à tentação de dominar e subjugar o outro, o próximo de nós, no afã de ter nas mãos a vida do próximo, quando a nossa vida deve estar somente nas mãos de Deus, que é – como rezamos no Credo – Pai e Todo-Poderoso.

O poder de Deus não é de dominação e subjugação, ou até de aniquilamento, como infelizmente o poder humano muitas vezes é exercido, em sentido totalmente contrário ao poder de Deus, que justamente nos deu o livre-arbítrio, para que possamos fazer escolhas como “alguém” e não “algo” ou objeto manipulável, mas como sujeito capaz de aderir àquilo que realmente acredita como o sumo bem. Daí que falham todas as tentativas de dominação e subjugação, todos os sistemas políticos totalitários, toda relação autoritária, enfim, a tentação de controlar pessoas, tê-las nas mãos, quando somente Deus governa o mundo.

O poder de dominação de um sobre o outro é o que corrói, muitas vezes, o relacionamento humano, seja o de irmãos, até mesmo de pais e filhos, de marido e esposa, de parentes, e depois nos ambientes de escola, de trabalho, de lazer, até mesmo dentro da Igreja, ou em qualquer outra organização social. Quando, na verdade, devemos ser um suporte do outro, ajudando-nos mutuamente, para que cada um, com seus talentos e especificidades próprias, possa contribuir para o bem de todos. Todo sofrimento humano vem da falta deste entendimento básico, para que haja efetiva solidariedade. E a família deve ser a primeira instância desse desafio, pois se em família não for possível o mútuo-respeito e a mútua-ajuda, não será também em sociedade, pois é na família “o seio da qual o homem recebe as primeiras e determinantes noções acerca da verdade e do bem, aprende o que significa amar e ser amado e, consequentemente, o que quer dizer, em concreto, ser uma pessoa.”5

“A fé é um caminho, e é preciso reconhecer as etapas”.6 Não é fácil, porém, acertar o passo no caminho para o bem. Há as etapas, os degraus da escada em que é preciso ascender, a superação de obstáculos, o enfrentamento das adversidades, os posicionamentos que se fazem necessários, as decisões que contrariam os interesses pérfidos, a paciência e a mansidão para o tempo da colheita, quando procuramos semear a cada dia, o bem perdurável. “No processo mediante o qual tendemos para a bem-aventurança, que é o fim de todos os nossos desejos, aparecem muitas dificuldades a ser enfrentadas, pois a virtude, pela qual se vai à bem-aventurança, tem por objeto coisas difíceis (II Ética 2, 1105a; Cmt 3, 278). Por isso, para que o homem mais facilmente em menos tempo tendesse para a bem-aventurança, foi necessário acrescentar-se a esperança de consegui-la”.7 Por isso, “regenerou-nos na esperança viva, para uma herança interminável que está conservada nos céus (1 Pd 1, 3-4), daí que “fomos salvos pela esperança” (Rm 8. 24).

Enquanto cristão, tenho a firme convicção de que “não são os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem, mas é um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo; as leis da matéria e da evolução não são a última instância, mas razão, vontade, amor: uma Pessoa.” 8 E ainda, que “o céu não está vazio. A vida não é um simples produto das leis e da casualidade da matéria, mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há uma vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus Se revelou como Amor” 9, daí que mais do que segurança material neste mundo, devemos buscar – almejar mesmo – a salvação integral da pessoa. Como “embaixador de Cristo” (2Cor 5, 18-20), trago comigo, inscrito em meu coração, a boa notícia de que Aquele que nos governa e nos ama tão profundamente e por inteiro, tem o poder de nos salvar de todos os perigos e ilusões, e nos levar à verdade do que somos, destinados todos à bem-aventurança. Daí que a Sua lei é caminho de verdade para a vida plena.

É por conta desta viva esperança que estamos hoje aqui, a defender a família e a dignidade da pessoa humana, e buscando neste curso aprofundar a reflexão sobre o sentido e o valor da família, “santuário da vida humana”. Esperança de que – na perspectiva cristã possamos atualizar a vocação e a missão da família, como “fermento na massa”, para a boa colheita. Por isso que a nossa base é a perspectiva cristã, que ainda tem muito a dizer e a fazer história.

A família é base para uma realidade projetiva, está para além deste mundo, “consiste em antecipação do futuro, do que vai fazer, de quem pretende ser, e é amorosa, definida pela afeição por algumas pessoas e o dever de que se estenda às demais”.10 Por isso, é a partir dela e com ela, que é possível a realização como pessoa humana.

Meus amigos! Estamos nos primeiros dias de maio, o mês mariano, em que celebramos o valor e o sentido da maternidade, a partir do exemplo de Maria, a Virgem de Nazaré, que concebeu pelo poder do Espírito Santo. A única mulher do mundo a reunir em si o mistério da virgindade e da maternidade, condição pela qual foi (e ainda é) possível a salvação do gênero humano.

O sentido e o valor da maternidade - Prof. Hermes Rodrigues NeryA festa mariana em maio foi associada ao calendário cristão por Afonso X, o Sábio, rei de Castela e Léon (século XIII). “Uma de suas Cantigas [Literatura 1, 5, c], dedicada a celebrar as festas estacionais de maio, vê na devoção a Maria o modo de coroá-las dignamente e de santificá-las na alegria. Trata-se de alusões: cantando a abundância dos bens que maio traz, convida a invocar a Virgem para que ele seja abundante de bençãos materiais e espirituais”.11 Gostaria de, neste momento, partilhar com vocês, a apreciação que tenho da festa mariana nesta comunidade, especialmente da coroação da imagem de Nossa Senhora, nas missas dominicais, em meio aos cânticos marianos, entre eles, a emocionante “Com minha mãe, no céu estarei”. Sempre me tocou tão profundamente aquele cântico religioso, com vozes de crianças, a ressoar no interior da magnífica igreja Matriz desta cidade. Ver as crianças desta comunidade coroarem Nossa Senhora, é, para mim, motivo de tão grande emoção e alegria. Mais tocante ainda foi ser procurado por tantas mães desejando que eu fotografasse as crianças para que elas pudessem fazer retratos que pudessem ser expostos em suas casas, como um gesto de fé autêntica, a testemunhar a devoção delas, como mães, àquela que é a Mãe de Deus.

Quis então, neste segundo encontro nosso do curso “Família, Escola de Vida”, homenagear as mães desta cidade, refletindo com vocês o valor e o sentido da maternidade, segundo a perspectiva cristã.

Maria, “bendita entre todas as mulheres”, “como lugar de encontro entre o divino e o humano, não é o centro, porém é central no cristianismo”.12 Maria é a figura feminina de maior impacto na história ocidental dos últimos dois mil anos, cuja influência repercutiu no melhor da literatura, da pintura, da escultura, da música, enfim, das artes em geral.

O mais notável da influência é que ela vem aumentando nos últimos tempos (visões, aparições, mensagens, exortações a oração e a penitência, decretações papais de dois dogmas), principalmente como fenômeno de devoção popular; ao ponto de especialistas considerarem os séculos XIX e XX como uma era de Marialis cultus.

Como uma simples camponesa judia de Nazaré, “cujo relato é desesperadoramente breve no Novo Testamento”, pôde assumir um papel tão importante na cultura dos povos? Fonte constante de inspiração, o arquétipo de Maria tem superado os relativismos culturais contemporâneos e conseguido se impor como um referencial supremo e perene de virtude.

É interessante observar que Maria emerge com mais força simbólica nas culturas justamente quando o modelo de feminilidade que ela representa está seriamente ameaçado pela concepção moderna e pós-moderna do que seja verdadeiramente uma mulher.

Duas características intrigantes do nosso tempo reforçam os motivos pelos quais Maria continua uma realidade viva na mentalidade dos povos: o fato dela ser Virgem e Mãe. Paradoxo central da fé católica, que incorpora o mistério profundo da forma como Deus se fez homem, e quis tornar-se presença concreta entre nós. O conceito de feminilidade simbolizado pela Mãe de Deus (irradiado pelo cristianismo) está profundamente identificado com dois valores duramente atacados pela modernidade: o da castidade e o da maternidade.

Hoje, prevalece um profundo mal-estar entre a maioria das mulheres, que se vêem vítimas de uma sexualidade reducionista, que dissocia o prazer de um compromisso afetivo mais integral e as tornam vulneráveis a relações descartáveis, com conseqüências práticas danosas a sua própria realização como pessoa. As mulheres também, forçadas pelo utilitarismo e pela lógica de um sistema social altamente consumista e competitivo, não têm conseguido as condições adequadas para vivenciar a experiência frutuosa da maternidade, ocasionando com isso lacunas afetivas que lhes trazem frustrações psíquicas, e deixam os filhos mais suscetíveis aos apelos do imediatismo, do consumo alienante e da violência. A mulher pós-moderna, enfim, distante do modelo proposto por Maria, se vê diante de uma vida mais complexa e muito mais infeliz. A liberdade defendida pelas promessas feministas, não lhe deu maior segurança, não a conduziu à verdade e não lhe trouxe paz e a felicidade.

A força de Maria está justamente na recusa do povo em aceitar um modelo estranho do que é ser mulher, que sacrifica dois importantes valores da cristandade. A virgindade antes do casamento quer levar os jovens nubentes a valorizar a fidelidade (e a mantê-la na dimensão sacramental do matrimônio). O casamento também na ótica cristã pressupõe filhos, como sinal concreto de compromisso e doação. Esse modelo entrou em crise na modernidade, afetando crenças, costumes, e, inclusive, a própria dignidade da relação familiar. A virgindade deixou de ser valorizada, o casamento perdeu o sentido sacramental, os filhos deixaram de ser prioridade afetiva, a fidelidade não é mais mantida. Tudo isso causa perplexidade, e as pessoas não sabem como fazer em meio a esse caos de relativismo cultural, cujas conseqüências práticas estão bem evidentes: solidão e abandono, desestrutura familiar, desentendimento, separação, angústia, imoralidade, permissividade, violência, e, acima de tudo, infelicidade.

Maria vem contrapor-se a esse contexto, indicando um modelo de relação humana onde a fidelidade e o senso do compromisso passam a ser vistos como meios indispensáveis para a verdadeira realização pessoal e comunitária. Talvez, por isso que, inconscientemente, pessoas dos mais diversos níveis culturais e sociais, vêem em Maria um autêntico sentido de vida. Por isso recorremos a ela, com devoção profunda: Mater misericordia, ora pro nobis!

Recebo aqui, várias mães, que hoje iremos homenagear, sinalizando o quanto estamos empenhados em afirmar a cultura da vida, na defesa da família e da dignidade da pessoa humana, a partir dos valores da cristandade. Acolho a cada uma das mães que aqui estão, com uma palavra de ânimo e de esperança, com a convicção de que o heroísmo cotidiano da maternidade – expressão autêntica da gratuidade – haverá de ser recompensado por quem nos vê em segredo, e sabe dos esforços feitos para cultivar a vida, a humanidade, o afeto e a solidariedade, em nossas relações mais próximas. “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu!” (Mt 6, 1).

Caríssimas mães, tenham a certeza de que os tantos sacrifícios cotidianos, no melhor exercício do bem feito em silêncio, que a rica experiência da maternidade proporciona, trará um bem espiritual inenarrável, especialmente àquelas que assumem a maternidade como missão especialíssima de fazer o bem, preparando os filhos para viver a vida conforme os tesouros do céu e não as efemeridades do mundo; àquelas mães que cultivam em seus filhos as excelsas virtudes cristãs, a partir da oração e do trabalho, para que eles sejam capazes de decidirem pelo bem da vida, em todos os aspectos e circunstâncias.

A família é um grande patrimônio, daí que ela é preservada e valorizada pelo matrimônio. A maternidade, com suas exigências e desafios, faz parte desse mistério de tornar o homem e a mulher, participantes de uma obra que se constrói na complementaridade, onde um é chamado a ser para o outro, expressão do amor desinteressado, que une, integra, eleva, promove, pereniza, glorifica e santifica.

A todas as mães aqui presentes, recebam o meu mais afetuoso cumprimento.

Bibliografia: 

1. Antonio Mesquita Galvão, O Grão de Trigo – Reflexões Cristãs sobre a vida depois da morte, Ed. Ave Maria, 2000, p. 103). 
2. Tullo Goffi, Dicionário de Espiritualidade, Ascese, Paulus, 2ª edição, 1993, p. 61. 
3. Leão Magno, Sermões, Ed. Paulus, 1996, p. 90. 
4. Papa Bento XVI, Encíclica Deus Caritas Est, 1, 2005;
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html
5. Papa João Paulo II, Encíclica Centesimus annus, 39, 1991; http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_01051991_centesimus-annus_po.html). 
6. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald , Ed. Imago, 1997, Pág. 78. 
7. São Tomás de Aquino, Suma Contra os Gentios, Volume II, Livros IIIº e IVº, EDIPUCRS em co-edição com Edições EST, Porto Alegre, 1996, p. 667. 
8. Papa Bento XVI, Encíclica Spe Salvi, 5, 2007; (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html) 
9. Papa Bento XVI, Encíclica Spe Salvi, 5, 2006; (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html 
10. Júlian Marías, A Perspectiva Cristã, Ed. Martins Fontes, 2000, p. 112. 
11. S. Rosso, Mês Mariano, Dicionário de Mariologia, Ed. Paulus, 1995, p. 887. 
12. A. Serra, Mãe de Deus, Dicionário de Mariologia, Ed. Paulus, 1995, p. 780.

* O autor:
Prof. Hermes Rodrigues Nery é Especialista em Bioética (pela PUC-RJ), Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté, membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da CNBB, diretor da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família e da Associação Guadalupe. É casado, tem dois filhos e é catequista.

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