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30 de novembro de 2013

Você e o pecado

Você e o pecado
"O maior pecado da sociedade atual é ter perdido a noção de pecado". Autor da sentença é o Papa Pio XII, falecido em 1958. Se ela tinha sentido naquela época, o que será hoje, 55 anos depois?! Passei a infância e adolescência sob o pontificado de Pio XII, e lembro muito bem o "clima" que reinava na maior parte dos ambientes "cristãos" (familiares e eclesiásticos) de então, que parecem contradizer a afirmação. O "pecado" dominava soberano, sobretudo no campo da sexualidade. A confissão (pelo menos para as pessoas que buscavam a santidade) devia ser semanal. Poucos se atreviam a comungar sem a ela recorrer. O tema preferido pela maioria dos pregadores eram as terríveis consequências do pecado: os castigos de Deus nesta vida e na eternidade.

Talvez pela força das leis que regem a dialética - tese, antítese e síntese -, hoje a humanidade parece ter passado para "o outro lado": nada mais é pecado. Não poucas das "transgressões" de antigamente passaram a integrar a lista dos direitos humanos. É o caso do divórcio, do aborto e do casamento gay, vistos como conquistas do pluralismo cultural que caracteriza a modernidade. Se alguém ousa divergir, é marginalizado e perseguido, um imbecil ou ingênuo a serviço das forças conservadoras que atravancam o progresso da humanidade. Por sua vez, um número cada vez maior de autoridades civis - em nome do estado laico - apoia e impõe estas e outras mudanças com um autoritarismo que se pensava coisa do passado.

Mas, mesmo que se deva enfrentar a opinião geral, não convém brincar com o futuro e a sobrevivência da humanidade: "Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. Vocês os conhecerão pelos frutos que produzem. Por acaso, colhem-se uvas de espinheiros ou figos de urtigas?" (Mt 7,15-16). Infelizmente, os "frutos" desta guinada em andamento na sociedade estão à vista de todos. Não são os assaltos, os assassinatos, os roubos, a corrupção, o estupro e a pedofilia que ocupam a maior parte dos noticiários e mantêm em sobressalto a população? Só não vê quem não quer. Isso acontece sempre que "cegos guiam outros cegos. Todos caem no mesmo buraco" (Mt 15,14). Não há como negar: "O salário do pecado é a morte" (Rm 6,23).

Na catequese dos meus tempos de criança, aprendi que nascemos e vivemos sob o influxo dos "sete vícios capitais". A doutrina foi retomada pelo Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992: "O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas, que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se. Os vícios podem ser classificados segundo as virtudes que contrariam, ou ligados aos pecados capitais que a experiência cristã distinguiu. São chamados capitais porque geram outros pecados, outros vícios. São o orgulho, a avareza, a inveja, a ira, a impureza, a gula e a preguiça".

Mahatma Gandhi (1869/1948), em quem era evidente o dom da sabedoria e da perspicácia, prefere falar em "sete pecados da humanidade". A seu ver, eles penetram em todos os ambientes, através de pessoas que fazem do egoísmo o seu deus: política sem princípios, riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, economia sem ética, ciência sem humanidade e religião sem sacrifício.

Com ele sintoniza a Igreja. Em março de 2008, a imprensa internacional divulgou que o Vaticano havia "acrescentado" - esquecendo que eram denunciados desde o Concílio Vaticano II - outros seis pecados à lista dos sete tradicionais: a pedofilia, a degradação ambiental, o aborto, o tráfico de drogas, as desigualdades sociais e a manipulação genética. São os "pecados sociais", gerados por uma globalização excludente e materialista, fomentada pelo egoísmo de alguns e pela apatia de muitos.

O pecado continua fazendo as suas vítimas. Não foi por nada que Jesus falou: "O espírito é forte, mas a carne é fraca. Rezem e vigiem para não caírem na tentação" (Mt 26,41). Graças a Deus, porém, "onde o pecado foi grande, maior foi a graça" (Rm 5,20). Por isso, ao invés de chorar ou criticar, o cristão prefere "vencer o mal fazendo o bem" (Rm 12,21), pois sabe que "o amor apaga uma multidão de pecados" (1Pd 4,8).

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando.
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

27 de novembro de 2013

As "derrapadas" do Papa Francisco

As "derrapadas" do Papa Francisco
"Diante das últimas declarações de Papa Francisco, que deixaram alarmados os católicos de sólida formação, não cínicos antipapas de ontem nem fanáticos papistas de hoje, pensamos ser útil dar umas poucas ideias. É muito difícil emitir um juízo sobre as intenções do Papa a respeito. Pelo tamanho das 'derrapadas doutrinais', parece-nos que se trate mais de pouca inteligência misturada com a típica loquacidade 'achista' episcopal latino-americana, potencializada pelo próprio idealismo pauperista e espiritualista tão agradável à opinião pública, e certo surto de populismo ansioso, desejoso de aparecer e ganhar espaço nas manchetes".

O desairoso comentário não foi emitido por ateus anticlericais, mas por dois padres católicos, que não hesitaram em publicar seu artigo e assinar seus nomes num site religioso. É provável que o tenham feito por não concordarem com os propósitos renovadores do Papa Francisco, expressos em inúmeros gestos considerados contestatórios, de acordo, aliás, com sua convicção mais vezes repetida: "Estou decidido a cumprir com o mandato que me foi confiado. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo".

As críticas dos padres demonstram que, para acolher a novidade trazida pelo Evangelho, não apenas os leigos, mas também suas lideranças precisam da sabedoria do coração, que só vinga em pessoas que colocam o bem da Igreja e da humanidade acima de seus interesses e traumas. Foi o que advertiu o próprio Jesus: "É inútil colocar vinho novo em barris velhos: os barris se arrebentam, o vinho se derrama e os vasilhames se perdem. Vinho novo se põe em barris novos, pois ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo. Para ele, o velho é melhor" (Lc 5,37-39). A grande tentação do cristão é tentar conciliar o "novo" do Evangelho com esquemas mentais mundanos. Quando isso acontece, ele prefere ficar com o vinho velho, pois o novo exige um desapego heroico das falsas seguranças construídas ao longo dos anos e uma fé inquebrantável no projeto de Deus.

O que o Papa Francisco entende por reforma da Igreja pode ser avaliado a partir da homilia que proferiu na Casa Santa Marta, no dia 7 de outubro: "O Evangelho nos fala de um homem semimorto, estendido na estrada. Um sacerdote percorre o mesmo caminho - um sacerdote digno, com barrete e tudo! Olha e pensa: 'Não posso parar. Vou chegar tarde à missa'. E foi embora. Não ouviu a voz de Deus. Em seguida, passa um levita, que, talvez, raciocina consigo mesmo: 'Se eu toco neste homem, que pode estar morto, amanhã serei chamado pelo juiz para testemunhar'. E foi embora. Ele também fugiu da voz de Deus. Somente um pecador, um samaritano, alguém distante de Deus, foi capaz de cuidar daquele homem e levá-lo a um albergue. Perdeu a noite toda atrás do ferido. O sacerdote chegou a tempo para a missa, e todos os fiéis ficaram contentes. O levita teve um dia tranquilo, de acordo com o que tinha pensado, sem aquela maçada de se envolver com a justiça".

A reforma da Igreja vai muito além da mera atualização de suas estruturas. Ela se concretiza numa fé e numa espiritualidade que demonstram o amor de Deus pela humanidade. Por isso, uma Igreja que atrai, motiva e converte pela compreensão e benevolência de seus pastores, jamais pela imposição e prepotência. É o que lembrou o cardeal João Braz de Aviz, em entrevista a uma revista brasileira, no mês de setembro: "Precisamos de uma Igreja próxima do povo, formada não de classes, mas de irmãos. Os conceitos de autoridade e de obediência devem mudar e se adaptar: não o valor da obediência e da autoridade em si, mas a maneira de entendê-las e exercê-las. Há muito autoritarismo na Igreja, que é pura dominação. Autoridade não é colocar uma pessoa acima da outra. Autoridade é de irmãos que têm missões diferentes: quem manda e quem obedece estão no mesmo nível".

Por fim, para ser duradoura e eficaz, a reforma da Igreja exige que seus filhos saibam viver a espiritualidade na normalidade da vida. "A graça supõe a natureza", diziam os antigos escolásticos. É a conclusão a que chega também dom João: "Não podemos passar um verniz de misticismo e de espiritualidade sobre a imaturidade humana. Se não conseguirmos desenvolver os valores humanos, será muito difícil integrar e vivenciar a fé".

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando.
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.


9 de novembro de 2013

Vai e restaura a minha Igreja!

Vai e restaura a minha Igreja!
No dia 4 de outubro, o Papa Francisco esteve em Assis para uma visita de amizade e gratidão a um santo de quem escolheu não apenas o nome, mas, sobretudo, o ardor em levar adiante uma missão que ambos assumiram, sintetizada nas palavras que São Francisco ouviu na ermida de São Damião: "Vai e restaura a minha Igreja!".

Dentre os vários discursos que o Pontífice fez na cidade, ganhou as manchetes dos jornais o que pronunciou na residência do bispo local, no ambiente denominado "Sala do Despojamento", onde, em 1205, o jovem Francisco, aos 23 anos, devolveu suas roupas ao progenitor, Pedro Bernardo, afirmando que, daquele momento em diante, seu pai era Deus e sua família, a Igreja.

Além do bispo de Assis - a quem o Papa saudou carinhosamente como "meu irmão Domingos" -, estavam na sala várias pessoas assistidas pela Cáritas diocesana. Foi a elas que Francisco dirigiu a palavra, aprofundando o conceito de despojamento, considerando-o essencial para uma autêntica restauração da Igreja e da sociedade. Trago seus tópicos mais incisivos: o conteúdo é dele, a tradução (nem sempre literal) é minha.

A Igreja deve despojar-se constantemente de um perigo extremamente grave, que ameaça a todos os seus membros: a "mundanidade", ou seja, a tentativa de conciliar o cristianismo com o espírito do mundo. Esse despojamento não se refere tanto - ou não somente - aos trajes, aos pertences, às estruturas e aos ambientes eclesiásticos. O passo a ser dado é muito mais amplo e radical, e envolve o estilo de vida e de atuação do cristão. Ele foi sintetizado por São Paulo nas palavras com que apresenta o exemplo de Jesus: "Esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo e se fez semelhante aos homens" (Fl 2,7).

Quando não existe esse despojamento interior - e, na medida do possível, também exterior - o coração humano passa a ser ocupado pelo orgulho, pela vaidade e pela ambição, que transformam a vida, a Igreja e a sociedade num campo minado, onde tudo e todos devem estar ao meu dispor e serviço. Muito diferente do caminho percorrido por Jesus, "que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela salvação de todos" (Mt 20,28). Sem esse despojamento, ninguém terá vontade e forças para ocupar "o último lugar" - o único onde se encontra Deus - e muito menos para procurar "os últimos" da sociedade (cf. Lc 14,10.13).

É preciso despojar-se para ter condições de acolher a multidão de despojados por um mundo selvagem que não oferece condições, não socorre, não se importa se há crianças morrendo de fome, famílias sem ter com que se alimentar e tanta gente sujeita à escravidão. O caminho de quem não se esvazia para se preencher de Deus, termina num beco sem saída e, quem o percorre, tenta o impossível: servir a Deus e ao dinheiro, conciliar a segurança da fé com a do mundo. Um caminho que mata a alma, as pessoas, a Igreja. Não existe cristianismo sem cruz nem cristãos de pastelaria, com tortas e doces fascinantes!

Francisco encerrou suas palavras pedindo a Deus "que dê a todos a coragem de nos despojarmos não de 20 centavos, mas do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da Igreja e da sociedade!". Talvez tenha sido por isso que, poucos dias depois, pediu a dois bispos europeus que deixassem o cargo, já que pareciam não ter forças suficientes para acompanhá-lo nessa tarefa.

Essa sua constante preocupação pela renovação da Igreja lhe foi impressa no coração por seu predecessor, o Papa João XXX, o qual, em 1959, a um diplomata que lhe perguntava quais seriam os objetivos do Concílio, respondeu: "Precisamos retirar a poeira imperial que, desde Constantino, se acumulou sobre a cátedra de São Pedro, prejudicando a verdadeira imagem e missão da Igreja no mundo".

Inclusive nas críticas que recebe por apresentar mais o caminho a percorrer do que os perigos a evitar, Francisco se mantém fiel à orientação do mesmo Pontífice, expressa no dia 11 de outubro de 1962, ao inaugurar o Concílio: "A Igreja sempre se opôs aos erros, e muitas vezes os condenou com a maior severidade. Em nossos dias, porém, ela prefere recorrer mais ao remédio da misericórdia que ao da severidade, e julga satisfazer melhor às necessidades atuais mostrando o valor de sua doutrina do que censurando os desvios".

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.


21 de setembro de 2013

O papa, os padres e os carros

O papa, os padres e os carros
Blog Evangelizando

No dia 6 de julho, pouco antes de iniciar sua viagem ao Brasil, o Papa Francisco se entreteve com um grupo de aproximadamente 6.000 candidatos à vida religiosa e ao sacerdócio, que haviam chegado de toda a Itália. Em dado momento, ele confessou que «não se sente bem quando vê padres e religiosos em carros “último modelo”. Não pode ser! O carro é necessário, mas que seja simples! Pensemos em quantas crianças morrem de fome! Num mundo em que as riquezas causam tanto dano, temos que ser coerentes. O dinheiro não pode ser a primeira preocupação da paróquia».

O “carro dos padres”, porém, é apenas a “ponta do iceberg” da grande reforma que o Papa deseja ver abraçada, primeiramente pelos eclesiásticos e, em seguida, por todos os cristãos que almejam um futuro melhor para a Igreja e a sociedade. Para ele, o apego aos bens materiais impede o encontro íntimo e profundo com Deus, transforma a Igreja numa empresa e corrompe o coração humano, fazendo-o insensível às necessidades e aos sofrimentos dos irmãos. Quando não partilhados, os bens escravizam a quem os detém. Seu lugar deve ser ocupado pela única riqueza que alimenta a esperança da humanidade: a solidariedade.

Foi o que disse no Rio de Janeiro, na visita que fez, no dia 24 de julho, ao Hospital São Francisco de Assis: «Quis Deus que meus passos, depois do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, se dirigissem para o santuário do sofrimento humano, que é o Hospital São Francisco de Assis. É bem conhecida a conversão do santo patrono de vocês: o jovem Francisco abandona riquezas e comodidades para fazer-se pobre entre os pobres. Entende que não são as coisas, o ter, os ídolos do mundo, a verdadeira riqueza; não são eles que dão a verdadeira alegria, mas, sim, seguir a Cristo e servir os irmãos».

No dia seguinte, no encontro que manteve com a Comunidade da Varginha, o Papa acrescentou que a conversão e a identidade do cristão se realizam plenamente na atividade por uma sociedade justa e fraterna: «Ninguém pode ficar insensível diante das desigualdades que subsistem no mundo! Não é a cultura do egoísmo e do individualismo que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas a cultura da solidariedade, que faz ver no outro não um concorrente ou um número, mas um irmão.».

Por fim, no dia 27, ao discursar para bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas reunidos na catedral metropolitana, Francisco lhes indicou o caminho para a grande obra de renovação eclesial e social por ele almejada: «Em muitos ambientes, ganhou espaço a cultura da exclusão e do descartável. Não há mais lugar para o idoso e para o filho indesejado. Não há mais tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. As relações humanas parecem regidas por dois dogmas: a eficiência e o pragmatismo. Tenhamos coragem de ir contracorrente! Não renunciemos a este dom de Deus, que é sermos a única família dos seus filhos. O que torna a nossa civilização verdadeiramente humana é o encontro, a acolhida, a solidariedade, a fraternidade. Coloquemo-nos a serviço da cultura da comunhão e do encontro!».


A simplicidade dos carros – acompanhada pela simplicidade de vida – impedirá que os ministros da Igreja se acomodem em seus templos ou lares, como meros prestadores de serviços religiosos. A comunhão e o encontro obrigam a sair, disse Francisco: «Não podemos nos enclausurar em nossas comunidades ou instituições, quando há tanta gente esperando o evangelho! Não se trata somente de abrir a porta para acolher, mas de sair para procurar e encontrar. Com coragem, pensemos a pastoral a partir da periferia, a partir de quem está afastado e não frequenta a paróquia. Ele também é convidado à mesa do Senhor!».

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.


14 de setembro de 2013

Amor à vida ou à mentira?

Amor à vida ou à mentira?
Blog Evangelizando

No dia 1º de julho, o corpo do menino Brayan Capcha, de 5 anos, foi levado para a Bolívia, onde havia nascido. Ele tinha sido assassinado com um tiro na cabeça alguns dias antes, em São Paulo, depois de entregar ao criminoso os últimos centavos que carregava consigo. Entre lágrimas, pediu-lhe que não matasse a mãe e o deixasse viver. Mas o assaltante não tolerou o seu choro e lhe desferiu um tiro na cabeça.

No mesmo dia, o Parlamento da Bélgica começou a debater a aplicação da eutanásia para os menores de idade. Para os adultos, ela está em vigor desde o ano de 2002, e lhes permite pôr fim à vida com uma injeção letal em casos de doenças terminais. A partir de então, 1.432 pessoas recorreram à medida. A nova proposta de lei autoriza os médicos a atender ao pedido de crianças e adolescentes que solicitam a eutanásia «por se encontrarem em situações médicas sem saída, em estado de sofrimento físico, psíquico constante e insuportável».

Em julho também vieram à tona as declarações do Ministro da Economia do Japão, Taro Asso, sugerindo que, por motivos econômicos e para o bem da nação, «os idosos se apressem a morrer. Se eu estivesse na situação dessas pessoas de idade avançada que recebem acompanhamento médico, sentir-me-ia mal, sabendo que o tratamento é pago pelo Estado».

Estes e mil outros fatos do mesmo teor que sucedem diariamente no mundo refletem a mentalidade pagã que tomou conta de amplos setores da sociedade atual, a começar de algumas lideranças políticas. Concretiza-se, assim, a “profecia” feita pelo escritor russo Fiodor Dostoievski, há 150 anos: «Tirem Deus da sociedade e salve-se quem puder!». Com ele concorda o Papa Francisco, num pronunciamento que fez no Rio de Janeiro, no dia 27 de julho: «Em muitos ambientes, ganhou espaço a cultura da exclusão e do descartável. Não há mais lugar para o idoso e para o filho indesejado. Não há mais tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. As relações humanas parecem regidas por apenas dois dogmas: a eficiência e o pragmatismo».

Escrevi acima que, em alguns países, essa mentalidade pagã está sendo propugnada por autoridades políticas. Mas, para ser exato, preciso incluir na lista também os meios de comunicação social. Um exemplo concreto foi dado pela Rede Globo no dia 23 de agosto, através da novela “Amor à vida”. Em dado momento, um ator no papel de médico, afirmou que «o aborto ilegal está entre as maiores causas de mortes de mulheres no Brasil, um caso de saúde pública».

Graças a Deus, de uns anos para cá, muitos leigos cristãos passaram a ocupar o seu lugar, não apenas na Igreja, mediante serviços litúrgicos e catequéticos, mas também na sociedade. Foi o que se viu na “nota” que dirigentes do “Movimento Nacional da Cidadania pela Vida (Brasil sem Aborto)” difundiram no dia 23 de agosto, contestando a Globo e pondo os pontos nos is: «Os dados oficiais, disponíveis no Datasus, atestam que, no Brasil, em 2011 (último ano a ter os dados totalmente disponíveis), faleceram 504.415 mulheres. O número máximo de mortes maternas por aborto provocado, incluindo os casos não especificados, corresponde a 69, sendo uma delas o aborto dito legal. Portanto, apenas 0,013% das mortes de mulheres se devem a aborto ilegal. 31,7% das mulheres morreram de doenças do aparelho circulatório e 17,03% de tumores. Estes, sim, constituem problemas de saúde pública.

A Globo fez também clara confusão entre os conceitos de “omissão de socorro” e “objeção de consciência”, com laivos de intolerância à liberdade religiosa. Desconhecemos que alguma religião impeça seus membros de prestar socorro a “pecadores”. Se assim fosse, inúmeros assaltantes e assassinos que chegam baleados aos hospitais, ficariam sem atendimento. Se até um bandido assassino, que foi ferido no embate, tem direito a atendimento médico, como caberia negá-lo em situações de sequelas do aborto? Se a Rede Globo deseja problematizar o debate, que o faça a partir de dados e situações verazes, e não se contente em reproduzir jargões propagandísticos!».


Tudo isso para não voltar aos tempos e aos métodos de Voltaire: «Menti, menti, que alguma coisa ficará!».

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.


8 de setembro de 2013

Casamentos que o Papa não abençoa

Casamentos que o Papa não abençoa
Blog Evangelizando

No sábado, dia 13 de julho, poucos dias antes da chegada do Papa Francisco ao Brasil, casaram-se no Rio de Janeiro, Beatriz Barata, neta do maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro, e Francisco Feitosa Filho, dono de outra grande empresa do ramo, no Ceará.

Entre os mil convidados, fizeram-se presentes nomes renomados da aristocracia social e econômica do país, inclusive um ministro do Supremo Tribunal Federal. Tudo muito bonito! O único inconveniente foi o casamento – cujas despesas teriam girado em torno de três milhões de reais – ter sido realizado no clima de protestos que varria então o país. Centenas de pessoas se aglomeraram diante da igreja Nossa Senhora do Carmo – julgo, por isso, que os noivos fossem católicos – e, em seguida, em frente ao Copacabana Palace, reclamando contra a ostentação e o esbanjamento que julgavam exorbitante num país onde a saúde está um caos e a imensa maioria do povo se mata para sobreviver...

Contudo, os gastos do casamento da Beatriz e do Francisco nada são se comparados com a espada de Dâmocles que ameaça a população brasileira, dividida em castas sociais. Enquanto uns poucos se banqueteiam num verdadeiro paraíso, longe dos problemas do povo, com salários que bradam vingança aos céus, outros morrem à míngua pela falta dos recursos mais indispensáveis. Ante uma realidade tão injusta e absurda, é tolice e hipocrisia queixar-se da violência que cresce em toda a parte. Felizmente, o povo está despertando, exigindo que, de fato e não só na teoria, o Brasil seja um país de todos e para todos.

Enquanto se celebrava o casamento no Rio de Janeiro, o Papa Francisco preparava a sua viagem ao Brasil. Em avião de carreira, como qualquer outro mortal comum. Embarcou carregando, ele próprio, a sua bagagem de mão. Nada de extraordinário para quem não quer que a religião se transforme numa válvula de escape para saciar os apetites visíveis ou subliminares de seus membros...

Por falar em casamentos, o que é que Francisco pensa de sua celebração religiosa? Seu pensamento foi expresso no livro “Sobre o Céu e a Terra”, uma entrevista que concedeu quando arcebispo de Buenos Aires: «Se os atos litúrgicos se convertem em eventos sociais, perdem a sua força. Um exemplo é a celebração do casamento. Há casos em nos perguntamos o que há de religioso nessas cerimônias... O ministro, talvez, faz um sermão sobre os valores, mas as pessoas aí presentes estão em outra sintonia. Certamente, se casam porque querem a bênção de Deus, mas esse desejo parece tão escondido... que quase não se vê! Em algumas igrejas, o que se percebe nos casamentos é uma competição feroz entre as madrinhas e a noiva no vestido (ou no “desvestido”). Para tais mulheres, o ato religioso nada significa: estão aí apenas para se exibir. Isso pesa em minha consciência, pois, como pastor, estou permitindo algo que não sei como remediar».

É por esse e por outros motivos que o casamento religioso deveria ser reservado somente para quem acredita em seu valor e vive a fé que recebeu da Igreja. Quando assumida conscientemente, a celebração litúrgica purifica, fortalece e diviniza um amor que, apesar de maravilhoso, é incapaz, por si só, de durar a vida inteira. Quem não tem a força para cumprir o que promete, não case – ou melhor, antes de dar o passo, busque a sua força em Deus!

Se só casassem no religioso os que praticam a fé, então seria maravilhoso aderir ao que pede o “Catecismo da Igreja Católica”: «A celebração do matrimônio entre dois fiéis católicos ocorra normalmente dentro da santa missa, em vista do vínculo de todos os sacramentos com o mistério pascal de Cristo. É conveniente que os esposos selem seu consentimento de entregar-se um ao outro pela oferta de suas próprias vidas, unindo-o à oferta de Cristo por sua Igreja e recebendo a eucaristia, a fim de que, comungando no mesmo Corpo e no mesmo Sangue de Cristo, eles formem um só corpo nele».

No “sim” a Deus os esposos encontram a força para renovar o “sim” entre si todos os dias “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe” – se é que o consegue, já que «o amor é forte como a morte» (Ct 8,6)!

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

4 de setembro de 2013

Ari Artuzi: assim passam a glória e a justiça...

Ari Artuzi: assim passam a glória e a justiça...
Blog Evangelizando

Nos meus tempos de estudante, ouvi dizer que, na Idade Média, durante a celebração que assinalava a subida de um papa ao Trono de Pedro, alguém queimava um feixe de palha diante do escolhido, pronunciando estas palavras: «Assim passa a glória do mundo!».

Lembrei-me delas ao me deparar com a notícia publicada em vários órgãos da imprensa do Mato Grosso do Sul no sábado, dia 24 de agosto de 2013, poucas horas após a morte de Ari Artuzi, o prefeito de Dourados que fora cassado e preso no dia 1º de setembro de 2010, acusado de malversação da coisa pública: «O juiz da 6ª Vara Cível de Dourados, José Domingues Filho, considerou que as provas coletadas na “Operação Uragano” desencadeada pela Polícia Federal em 2010, não são suficientes para comprovar a culpa dos acusados no que diz respeito à área cível, e julgou improcedente a ação por prática de atos de improbidade administrativa contra os réus. Na ação pública, o Ministério Público Estadual pretendia reaver o dinheiro que os réus teriam retirado dos cofres públicos por supostas ações ilícitas, além da punição de afastamento da vida política por oito anos. O juiz considerou as acusações improcedentes e mandou liberar todos os bens que estavam bloqueados».

A notícia me fez mudar a sentença “Assim passa a glória do mundo” para “Assim passa a justiça do mundo”. Pois, se o Ari é inocente, quem vai carregar a culpa de sua condenação e morte prematura? “A sociedade”, talvez alguém possa responder. Certo, mas a sociedade é formada por pessoas concretas: juízes, promotores, advogados, políticos, policiais, médicos, etc., e inclusive, por pessoas humildes e simples do povo, como podemos ser eu e você, amigo leitor.

Num artigo que escreveu na segunda-feira, dia 26, Wilson Biasotto – candidato a prefeito juntamente com o Ari, em 2008 – fez uma pergunta intrigante: «O câncer do Ari, que o levou à morte, em minha opinião de leigo, foi provocado pelo elevado nível de estresse, pela bagunça generalizada de seus neurônios que não suportaram tanta pressão. Se essa minha concepção estiver correta, resta-nos responder à pergunta: o Ari Artuzi suicidou-se devido à sua ganância, à sua febre pelo poder, ou foi assassinado por aqueles que quiseram se aproveitar de sua popularidade?».

Quem também se manifestou no mesmo dia em artigo muito sensato foi Benê Cantelli: «Quantos casos existem no Brasil, onde, depois de morto, sabe-se que não havia nem pecado nem crime na vida do condenado!  Quantas vezes julgamos as pessoas, mesmo sabendo do juízo que diz: “Não julgueis para não serdes julgados!”.  Quem disse essa frase é Jesus, que, condenado, morreu tão somente para nos salvar. Em nosso caso, o que interessa é o que disse seu tio, Júlio: “O Ari morreu em paz por ter sido absolvido”. Claro, hoje e por algum tempo, ainda aparecerão juízes não togados, que continuarão a condenar, se dele não gostavam, e a inocentar e fazer dele um santo, os que assim o viam».

Por sua vez, a vereadora Virgínia Magrini expressou a opinião de não poucas pessoas: «Se ele tivesse roubado, não ia ficar dependendo de doação de cesta básica e remédios, além de se tratar pelo Sistema Único de Saúde. A realidade não condiz com a de um homem acusado de receber R$ 500 mil por mês em fraudes. Doente, ele se alimentava por sonda, mas nem sempre tinha o alimento líquido. Se tivesse roubado, usaria o dinheiro para manter a vida. Se fez algo que não devia, foi por ingenuidade».

Nos últimos dias de vida, diante do câncer que avançava, o Ari sentiu saudades da Igreja Católica, onde fora batizado e recebera a fé. Às escondidas – porque seu terceiro casamento fora realizado numa Igreja Evangélica – pediu a presença de um padre, que o ajudou a se reconciliar com Deus e lhe ofereceu o Pão que o sustentou na última viagem.


Por experiência própria, sei que somos inclinados a nos julgar «sem pecado e a jogar a primeira pedra» (Jo 8,7). Talvez seja por isso que Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, foi levado a declarar: «As pessoas quebram um banco, falsificam a contabilidade, enganam o governo, dão prejuízo ao povo e depois disso tudo se julgam donas de uma série de direitos, como se fossem injustiçadas. É um país curioso esse nosso Brasil!».

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

24 de agosto de 2013

Você ainda se confessa?

Você ainda se confessa?
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No dia 30 de junho, um site de Campo Grande publicou um artigo sobre a confissão, um assunto que parece fora de moda, quase um tabu. Nele, o autor escrevia: «Drogas, questões sexuais e brigas familiares mantêm o sacramento da confissão em alta mesmo em tempos de “é proibido proibir”. Com novos conceitos, como a troca da nomenclatura “pecado” por “dilema”, fim das penitências folclóricas e até a abolição do confessionário, o ato de reconciliação com Deus ganha ares de terapia em Campo Grande. A procura é tão grande que, no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, às quartas-feiras, dez padres atendem até 700 pessoas entre 6 e 22 horas».


Ao longo do texto, o articulista deu a palavra a dois sacerdotes que atuam em Campo Grande: o Pe. Wilson Cardoso de Sá, diretor do Instituto de Teologia João Paulo II, e o Pe. Dírson Gonçalves, reitor do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Em seu sentido mais profundo, explica o Pe. Wilson, o pecado é adultério e idolatria: quebra ou, pelo menos, enfraquece a comunhão que liga o homem a Deus, ao próximo e à criação. Mesmo quando oculto, ele não prejudica apenas a quem o comete, mas a toda a humanidade.

Seu conceito sofreu uma grande transformação na sociedade. Enquanto alguns cristãos pensam que nada mais seja pecado, outros o resumem ao campo da sexualidade. Esquecem que também a fofoca, a corrupção, a droga, a violência e as infrações no trânsito integram a lista das faltas a serem confessadas e corrigidas.

E o que dizer da “penitência” que o padre impõe a quem busca o confessionário? Responde o Pe. Wilson: «Se você fez aborto, nada vai trazer a pessoa de volta; mas você pode dar sua ajuda a uma criança, a uma família. Se roubou, deve devolver o dinheiro. Se caluniou, você precisa pedir perdão não só a quem ofendeu, mas também às pessoas que foram contaminadas...».

Por sua vez, o Pe. Dírson orienta os fiéis a se confessarem pelo menos duas vezes ao ano, nas solenidades do Natal e da Páscoa. Mas é bom fazê-lo também ao longo do ano: «Muita gente vem em busca de orientação e de conselhos. Há pessoas que sofrem relacionamentos complicados no namoro, no casamento, na família. Crescem a cada dia os problemas derivados do consumo da droga, da bebida, da falta ou do excesso de bens materiais».

Como os demais sacramentos da Igreja, a confissão é um grande presente de Deus. Reconhecer o pecado já é meio caminho andado, uma atitude que leva à felicidade e à santidade. É o que reconhecem todas as pessoas que experimentam a misericórdia de Deus: «Feliz o homem que foi perdoado, a quem o Senhor não olha mais como culpado! Enquanto eu escondia o meu pecado, os meus ossos definhavam, as minhas forças fugiam e eu passava o dia chorando e gemendo. Mas quando confessei o meu pecado, tu logo perdoaste a minha culpa» (Sl 32,1-5).

Para a Igreja Católica, a confissão é vista como o sacramento da penitência e da reconciliação, instituído por Jesus no domingo da Páscoa: «Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; mas, se não os perdoarem, eles ficarão retidos» (Jo 20, 23). Tal doutrina é assim apresentada pelo Concílio Vaticano II: «Os fiéis que se aproximam do sacramento da penitência obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus e, ao mesmo tempo, são reconciliados com a Igreja que feriram pecando, mas que agora colabora para a sua conversão com caridade, exemplo e orações».


Contudo, a confissão não foi dada “apenas” para perdoar pecados. Deus não precisa dela para demonstrar sua misericórdia a quem se arrepende. O grande milagre operado por ela é permitir que Deus penetre em nossa vida através das fraquezas que lhe entregamos. Ao recebermos a absolvição, o pecado perde a sua força e se transforma em graça. Foi esta a descoberta que levou São Paulo a ter uma nova visão da perfeição cristã: «Se a força de Deus se realiza na fraqueza, prefiro gloriar-me dela, pois, quando sou fraco, então é que sou forte» (2Cor 12, 9-10). Descobrir a arte de aproveitar das próprias faltas para dar a Deus a alegria de ser amor e misericórdia: eis o paraíso já aqui na terra!

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

22 de agosto de 2013

Por que o Papa não dá a comunhão?

Por que o Papa não dá a comunhão?
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Não sei se todos sabem que, na Igreja Católica, existe uma norma para a distribuição da Eucaristia durante a missa: quando o bispo, os padres e os diáconos estão presentes, quem dá a comunhão ao povo são eles, não os ministros extraordinários. Só ficam isentos quando idosos, doentes e fatigados.

Contudo, desde quando era arcebispo de Buenos Ayres, o Papa Francisco age diferente: deixa essa tarefa para outros ministros. Não são poucas as pessoas que lhe perguntam os motivos... A resposta está em seu livro “Sobre o Céu e a Terra”.

«Davi foi adultero e autor intelectual de um assassinato. Apesar disso, nós o veneramos como santo porque teve coragem de reconhecer o seu pecado. Humilhou-se perante Deus. As pessoas podem fazer grandes bobagens, mas, também, podem se arrepender, mudar de vida e reparar o que fizeram.

Entre os fiéis, há alguns que matam não só intelectualmente ou fisicamente, mas também indiretamente, pelo mau uso do dinheiro, pagando salários injustos. Talvez façam parte de sociedades beneficentes, mas não pagam a seus funcionários o que lhes é devido, ou os contratam “por fora”.

Conhecemos o currículo de alguns deles; passam por católicos, mas têm atitudes imorais, das quais não se arrependem. É por isso que, em certas situações, eu não dou a comunhão. Fico sentado, e os assistentes a distribuem. Não quero que essas pessoas se aproximem de mim para fazer fotografias.

De per si, seria possível negar a comunhão a um pecador público que não se arrepende, mas é muito difícil comprovar essas coisas. Receber a comunhão significa receber o corpo do Senhor, com a consciência de que formamos uma comunidade. Mas, se alguém, ao invés de unir o povo de Deus, ceifa a vida dos irmãos, não pode comungar: seria uma contradição total.

Tais casos de hipocrisia espiritual acontecem com muitas pessoas que se abrigam na Igreja e não vivem segundo a justiça que Deus quer. Não demonstram nenhum arrependimento. Vulgarmente dizemos que levam uma vida dupla». Quem ajudou o Cardeal Jorge Bergoglio e agora Papa Francisco a tomar e a manter essa atitude foi a foto que, em 1987, circulou pelo mundo, revelando que o Papa João Paulo II, em sua visita ao Chile, dera a comunhão ao ditador Augusto Pinochet...

Mas, como ele próprio se pergunta, pode-se recusar a hóstia a uma pessoa que se aproxima para comungar? E caso se possa, convém fazê-lo? Em tempos não muito remotos, havia padres que, com muita facilidade, a negavam não apenas a bêbados, maltrapilhos e doidos, mas também a “pecadores públicos” e a mulheres com trajes inadequados.

Na prática, quem é que poderia ou deveria receber a comunhão? De per si, a resposta é simples: quem adere à fé da Igreja Católica; quem assume a sua doutrina; quem se esforça por viver o Evangelho, inclusive nas páginas que lhe parecem difíceis. Assim sendo, se o amasiado não pode comungar, poderá fazê-lo o adúltero, o ladrão, o corrupto? Poderá, se ele se arrepender de seus pecados e perseverar num processo de conversão. Caso contrário, receber a hóstia nada significa. Pior ainda: faz mais mal do que bem.

Para São Paulo, só entra em comunhão com o corpo e sangue de Cristo quem assume o compromisso de construir a comunhão com os irmãos: «Pelas divisões que há entre vós, vossas celebrações trazem mais prejuízos do que benefícios. De fato, quando vos reunis, não participais da Ceia do Senhor, porque a vossa preocupação é consumir a própria ceia. E, enquanto um passa fome, o outro se embriaga. Cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice. Quem come e bebe sem discernir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação. Eis por que entre vós há tantos fracos, tantos doentes e tantos mortos!» (1Cor 11, 17-18.20-21.28-30).

“Fracos, doentes e mortos”, apesar de comungarem seguidamente. É o pecado de alguns cristãos de Corinto e de hoje: muitas “comunhões” e pouca comunhão! Não é suficiente receber a hóstia para estar com Jesus: é preciso acolhê-lo também no irmão. A fé é unitária: não pode ser assumida em parcelas ou prestações...

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

3 de agosto de 2013

Quando se busca Deus no lugar errado...

Quando se busca Deus no lugar errado...
Na noite do dia 2 de julho, cerca de duzentas pessoas, escolhidas entre os pobres e mendigos de Roma, jantaram nos jardins do Vaticano, em frente à gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Foram acolhidas pelo Cardeal Giuseppe Bertello, que lhes deu as boas-vindas em nome do Papa Francisco: «Como vocês sabem, esta é a casa de vocês, e nós os recebemos com alegria. Diante de nós está a imagem de Nossa Senhora, que nos olha com serenidade. É o mesmo olhar que eu desejo a todos vocês e àqueles que os acompanham com muito amor».

O jantar foi organizado pelo “Círculo de São Pedro”, uma antiga associação romana de leigos cristãos, que procuram demonstrar em fatos concretos o amor de Deus e da Igreja pelas pessoas em necessidade. Foi o que explicou, naquela noite, um de seus membros: «Todos os dias, nos três refeitórios de que dispomos, alimentamos a quem nos procura, sem olhar para a nacionalidade ou religião a que pertencem. Os comensais aqui presentes foram escolhidos dentre esses nossos frequentadores habituais. Fomos buscá-los em quatro pontos da cidade».

Na manhã seguinte, festa de São Tomé, como de costume, o Papa Francisco celebrou a missa na capela da Casa Santa Marta, onde reside. Referindo-se ao Apóstolo que, tocando nas chagas de Jesus, descobriu a sua ressurreição e divindade, o Pontífice indicou o caminho mais rápido para chegar a Deus: sanar as feridas de Jesus que machucam uma multidão de irmãos sofredores.

Trago alguns tópicos de sua homilia. A tradução não é literal, mas o pensamento é autêntico.

Quando Tomé vê Jesus em seu corpo limpo, perfeito e luminoso, é convidado a colocar o dedo na ferida dos pregos e em seu lado transpassado. Com este gesto, ele reconhece a ressurreição e a divindade de Jesus, revelando, assim, que não há outro caminho para o encontro com Jesus-Deus senão as suas feridas.

Na história da Igreja, sempre houve e há enganos no percurso que leva a Deus. Muitos pensam que o Deus vivo possa ser encontrado na especulação, e se esforçam para aprofundar suas reflexões. Não são poucos os que se perdem nessa busca, pois, mesmo que possam chegar ao conhecimento da existência de Deus, nunca chegam à experiência de Jesus Cristo, Filho de Deus. É o caminho dos gnósticos, gente muito esforçada, que trabalha, mas que não descobre o rumo certo. Percorrem um caminho complicado, que não leva a lugar nenhum.

Outros pensam que, para chegar a Deus, precisam mortificar-se, ser austeros, e optam pelo caminho da penitência e do jejum. Infelizmente, nem eles chegam ao Deus vivo e verdadeiro, ao Deus de Jesus Cristo. São os pelagianos. Acreditam que só podem alcançar a Deus a partir de si mesmos, com seus esforços e méritos. Eles também não conhecem o caminho indicado por Jesus para encontrá-lo: as suas chagas.

A questão é descobrir onde estão hoje as chagas de Jesus. A resposta é simples: nós tocamos nas feridas de Jesus quando praticamos as obras de misericórdia corporais e espirituais em favor do próximo. Hoje quero destacar as corporais, aquelas que me levam a socorrer os irmãos e as irmãs que sofrem, que passam fome, que têm sede, que estão nus, que são humilhados, que são escravizados, que estão presos, que jazem nos hospitais...

Estas são hoje as chagas de Jesus. Sem dúvida, é coisa boa, útil e até mesmo necessária fundar centros para socorrer os necessitados. Mas, se pararmos nisso, não passamos de filantropos. Devemos tocar nas feridas de Jesus, acariciar as feridas de Jesus, cuidar das feridas de Jesus, beijar as feridas de Jesus. Como São Francisco que, depois de abraçar o leproso, viu a sua vida mudar.

Como se percebe, não precisamos de cursos de reciclagem para chegar a Deus, mas simplesmente sair às ruas e buscar e tocar nas chagas de Cristo em quem é pobre, frágil e marginalizado. Sem dúvida, não será simples nem espontâneo. Mas, é para isso que existem a oração e a penitência: para obtermos a coragem de penetrar nas feridas de Jesus em quem sofre ao nosso lado. E, assim, ter a certeza de encontrar o Deus vivo e verdadeiro...

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

17 de julho de 2013

Quando (não) vale a pena ter fé...

Quando (não) vale a pena ter fé...
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«Você crê que existe Deus? Muito bem! Só que também os demônios creem e tremem de medo! Você não sabe que a fé sem obras não tem valor?» (Tg 2,19-20). É com estas palavras que São Tiago exorta os cristãos de seu tempo a entenderem que, se não for praticada, a fé definha e morre inexoravelmente. O que sobra é um cadáver ambulante: «Do mesmo modo que o corpo sem espírito está morto, assim a fé sem obras se extingue» (Tg 2,26).

É o que explica também o teólogo Roger Lenaers, em sua obra “Outro cristianismo é possível”. Algumas de suas páginas são contestatórias, talvez beirando à heresia. Outras, porém, têm lampejos que abrem horizontes e iluminam caminhos: «Quando alguém pergunta a outro se crê em Deus, quase sempre quer saber se o interlocutor pensa ou está convencido da existência de algo que se possa chamar de Deus, não importa a representação que faça da essência desse Deus. Em contrapartida, acreditar – dar crédito – evoca uma atitude de comunicação com um ser pessoal em quem se confia, e cuja proximidade ou presença dá sentido à vida».

Para explicitar o seu pensamento, ele se refere à fé dos demônios (cuja existência, porém, nega): «A fé que salva e liberta é a fé dinâmica, que irradia e muda a vida. Ela é que redime. Se existisse o demônio, não lhe custaria nada crer na existência de Deus. Ele seria muito mais crente que os agnósticos e os ateus... Porém, o mero fato de afirmá-lo, de nada lhe serviria, pois continuaria sendo o que é, apenas um demônio. Seu ato de fé não o transformaria num anjo. Na verdade, ser-lhe-ia impossível acreditar em Deus, pois, nesse caso, deixaria de ser demônio».

Existem, portanto, dois modelos de fé: a das pessoas que dizem crer, mas vivem à margem ou em oposição ao que lhes é ensinado pela religião que pensam professar: «Afirmam conhecer a Deus, mas o negam por suas ações» (Tt 1,16), explica São Paulo; e a fé de quem consegue transformá-la em vida, liberdade e amor, como esclarecia o mesmo Apóstolo: «A fé se realiza na caridade» (Gl 5,6).

«Estes são os frutos daquele que vive a fé: vence o mal, toca o coração das pessoas, fica imune da contaminação do mundo e cura os doentes que estão em seu caminho» (Cf. Mc 16,16-18). Mas, nada disso acontece se o cristão não se mantém num “estado permanente de conversão”, assumindo a vida como serviço e missão. Foi o que lembrou o Papa Francisco em sua alocução ao povo no domingo, dia 23 de junho, ao se deter sobre a sentença de Jesus: «Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem a perder por causa de mim, a salvará» (Lc 9, 24).

«Pode-se perder a vida por Jesus de duas maneiras: explicitamente, confessando a fé e, implicitamente, defendendo a verdade. Os mártires são o melhor exemplo do que é perder a vida por Cristo. Em dois mil anos, há uma série imensa de homens e mulheres que sacrificaram a vida para permanecerem fiéis a Jesus e ao Evangelho. E hoje, em muitas partes do mundo, há uma multidão de mártires – mais do que nos primeiros séculos – que são levados à morte por não renegarem a Cristo.

Mas há também o martírio cotidiano, que não comporta a morte: é cumprir o próprio dever com amor, seguindo a lógica da doação e do sacrifício de Jesus. Quantos pais colocam em prática a fé gastando a vida em prol da família! Quantos sacerdotes, religiosos e religiosas atuam generosamente no serviço do Reino de Deus! Quantos jovens renunciam a seus interesses para se dedicar às crianças, aos idosos, aos portadores de deficiência… Eles também são mártires: mártires do dia-a-dia!

E há ainda inúmeras outras pessoas, cristãs e não cristãs, que perdem a vida pela verdade. Se Cristo disse: “Eu sou a verdade”, quem serve à verdade, serve a Jesus. Quantos homens corretos preferem ir contracorrente para não renegarem à voz da consciência!


Entre vocês, vejo muitos jovens. A eles, digo: não tenham medo de ir contracorrente quando lhes querem roubar a esperança, quando lhes propõem valores deteriorados! Eles são comida estragada que, quando consumida, nos faz mal. Jovens, sejam os primeiros a ir contracorrente! Tenham orgulho de ser contracorrente! Sejam corajosos! E assim como não queremos nos alimentar com comida estragada, não carreguemos conosco valores deteriorados, que prejudicam a vida e tiram a esperança!»

Dom Redovino Rizzardo
Colaborador do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

28 de junho de 2013

Os crimes contra a Igreja Católica

Os crimes contra a Igreja Católica
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Dentre os primeiros santos canonizados pelo Papa Francisco no dia 12 de maio de 2013, estavam 800 italianos, assassinados por ódio à fé no dia 13 de agosto de 1480, na cidade de Otranto, por otomanos turcos, que invadiram a região e os obrigaram a escolher entre morrer ou abraçar a religião muçulmana.

“Matar em nome de Deus” é o absurdo a que podem chegar as religiões. Alicerçadas na “certeza” de possuírem a verdade, julgam-se no direito e no dever de eliminar a quem ousa divergir. Antigamente, talvez fosse possível que o fizessem de reta intenção, se o próprio Jesus chegou a dizer: «Chegará o dia em que, quem vos matar, julgará estar prestando culto a Deus. Mas, quem assim age, o faz porque não conhece o Pai nem a mim» (Jo 16,2-3).  “Antigamente”, porque continuar a fazê-lo hoje é um atestado de ignorância que se dá à humanidade. Infelizmente, é o que acontece em vários países, dominados por religiões arcaicas ou por ideologias radicais.

Durante vários séculos, a própria Igreja Católica pagou tributo a esse pecado. A Inquisição, as Cruzadas, a Noite de São Bartolomeu (1572), a Guerra dos 30 Anos (1618/1648) e inúmeros outros fatos alertam para as nefastas consequências trazidas pelo conchavo entre a religião e o poder político e econômico. Contudo, ao mesmo tempo, é preciso precaver-se contra as meias verdades propaladas por pessoas cujo intento é denegrir a Igreja. Foi o que reconheceram, em relação à Inquisição, os próprios autores da “Enciclopédia” (1751/1772), a obra filosófica que preparou a Revolução Francesa: «Sem dúvida, imputaram-se a um tribunal, tão justamente detestado, excessos de horrores que nem sempre ele cometeu. Não é correto erguer-se contra a Inquisição por fatos duvidosos e, pior ainda, buscar na mentira meios para torná-la odiosa».

Escrevi acima que antigamente, talvez, tudo isso fosse perdoável, porque os tempos eram outros. Graças a Deus, a partir sobretudo do Concílio Vaticano II (1962/1965), a Igreja Católica mudou sua relação com o mundo. Mas parece que o seu lugar e o seu jeito de agir foram ocupados por seus críticos. É o que provam as perseguições que ela vem sofrendo nestes últimos cem anos.

Na Rússia, em 1914, os católicos eram 5.000.000, assistidos por 27 bispos e 2194 sacerdotes. Em 1917, logo após a tomada do poder pelos comunistas, eles diminuíram para 2.500.000, os bispos para 14 e os padres para 1350. Em 1941, das 600 igrejas que funcionavam em 1917, apenas duas continuavam abertas. Havia somente um bispo (porque estrangeiro) e 20 padres. Em apenas dois anos (de 1937 a 1939), foram fuzilados 150 sacerdotes.

O México, apesar de contar com uma população predominantemente católica, foi palco de uma violenta ação antirreligiosa desencadeada pelo governo hostil à Igreja. Os conflitos iniciaram com a promulgação da Constituição de 1917 e alcançaram seu ápice na “Guerra Cristera” (1926/1929). As hostilidades custaram a vida de quase 90.000 pessoas, de ambos os lados. Uma multidão de católicos – dentre eles, mais de 50 padres – foram assassinados por seu apego à fé.

Em sua obra “Para entender a Inquisição”, Felipe Aquino cita a Espanha como outro país em que a Igreja pagou caro por sua fidelidade ao Evangelho: «Na Guerra Civil Espanhola (1936/1939), as grandes vítimas foram os católicos. O ódio à Igreja e aos fiéis cresceu tanto, que morreram assassinados 12 bispos, 4000 sacerdotes e 2300 religiosos, além de milhares de leigos. Só na cidade de Madri foram mortos 334 padres diocesanos; muitos foram queimados ou enterrados vivos».


Há 1700 anos – em fevereiro de 313 –, através do “Edito de Milão”, o imperador Constantino concedeu aos cristãos a liberdade de culto. Contudo, a perseguição sempre os acompanhou. Em dois mil anos de história, milhões deles foram – e continuam sendo – marginalizados e massacrados. 75% das vítimas atuais do ódio antirreligioso no mundo são católicos, evangélicos e ortodoxos. O “É proibido ser cristão” dos romanos vigora ainda hoje não apenas em alguns países comunistas e muçulmanos, mas, sobretudo, em ambientes sociais que passam por evoluídos, onde a fidelidade ao Evangelho se paga com a perda da reputação, do emprego e, não poucas vezes, da vida. Não foi por nada que Jesus advertiu: «O Reino dos céus sofre violência, e só os corajosos o conquistam!» (Mt 11,12).

Blog: http://domredovino.blogspot.com/

Dom Redovino Rizzardo
Colaborador do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

24 de junho de 2013

Os crimes da Igreja Católica

Os Crimes da Igreja Católica
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“Para entender a Inquisição” é uma das obras de envergadura com que o professor Felipe Aquino nos presenteia sempre que lhe “sobra tempo” para colocar por escrito as aulas que transmite pela TV. Vale a pena conferir, inclusive porque – como afirmava o escritor e bispo norte-americano Fulton Sheen (1895/1979), por ele citado – «talvez não haja nos Estados Unidos uma centena de pessoas que odeiem a Igreja Católica, mas há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõem que seja a Igreja Católica».

Felipe Aquino não pretende esconder o sol com uma peneira. Pelo contrário, por mais vezes cita o pensamento e as atitudes do Papa João Paulo II que o levaram a pedir perdão pelos pecados cometidos pelos cristãos ao longo da história: «Como calar diante das muitas formas de violência perpetradas em nome da fé? Guerras de religião, tribunais da Inquisição e outras formas de violação dos direitos humanos? É preciso que a Igreja, à luz de quanto ensinou o Concílio Vaticano II, reveja, por sua própria iniciativa, os aspectos obscuros da história, avaliando-os à luz do Evangelho. É justo que ela assuma, com uma consciência mais viva, o pecado de seus filhos, recordando todas as circunstâncias em que eles, ao longo da história, se afastaram do espírito de Cristo e de seu Evangelho».

Contudo, não se pode avaliar o passado com a mentalidade atual. O mundo caminha e, com ele, também a cultura. É o que afirmam dois historiadores nada benévolos com a Igreja, Richard Leigh e Michael Baigent: «Não podemos ter a presunção de emitir julgamentos sobre o passado segundo critérios do que é politicamente correto em nosso tempo. Se tentarmos fazer isso, descobriremos que todo o passado é culpado. Então ficaremos apenas com o presente como base para nossas hierarquias de valor; e quaisquer que sejam os valores que abracemos, poucos de nós serão tolos o bastante para louvar o presente como algum tipo de ideal último. Muitos dos piores excessos do passado foram causados por indivíduos que agiam com o que, segundo a moral da época, julgavam as melhores e mais dignas das intenções».

Não se pode negar: a Inquisição, as Cruzadas, as fogueiras, as torturas, a caça às bruxas, etc., tudo isso manchou a história da Igreja Católica. Inúmeros foram os abusos cometidos. Em grande parte, eles se devem ao conluio existente, ao longo da Idade Média e Moderna, entre o poder político e eclesiástico. Exemplo é a própria Inquisição. Foi ela que condenou, em 1314, a Ordem dos Templários, por imposição do rei Filipe IV. Foi ainda ela que mandou queimar Joana d’Arc, em 1431, por determinação das autoridades inglesas. É nessa perspectiva que deve ser visto o fim do poder temporal da Igreja em 1870: o que, naquela época, parecia um cataclismo, se demonstrou, pelo contrário, como mais um ato de amor de Deus por sua Igreja.

Os historiadores são facilmente levados a usar dois pesos e duas medidas em seus juízos sobre a história. É o que verificou Felipe Aquino na avaliação de eventos que marcaram a sociedade: «Em um só ano, de meados de 1793 a meados de 1794, a Revolução Francesa executou mais gente do que a Inquisição da Idade Média havia feito em seis séculos. No entanto, ela é comemorada como um dos acontecimentos mais beneméritos da humanidade».

Ele confirma suas palavras com o testemunho de Michael Baigent e de Richard Leigh, que, como já dissemos, não deixam de criticar severamente a Igreja: «No fim do século XVIII, a Revolução Francesa exterminara cerca de 17.000 padres e duas vezes esse número de freiras, destruíra ou confiscara prédios e terras da Igreja». Outro historiador é Mons. Cauly, para quem «a Revolução Francesa, segundo estatísticas sérias, em Paris e nas grandes cidades, em seis anos, executou acima de 30.000 pessoas, muito mais do que fez a Inquisição na Espanha em seis séculos».


Por tudo isso, conclui o professor Aquino: «Os erros cometidos pelos filhos da Igreja não anulam a beleza da sua história, da qual todo católico deve se orgulhar. A Igreja é santa, embora formada de santos e pecadores, e sempre pura na sua doutrina e na sua moral. Sempre encaminhou os seus filhos para a prática das belas e heroicas virtudes, mesmo com a fraqueza humana deles. Cada ser humano é filho do seu tempo e marcado pela sua cultura e mentalidade».

Dom Redovino Rizzardo
Colaborador do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.

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