9 de novembro de 2013

Vai e restaura a minha Igreja!

Vai e restaura a minha Igreja!
No dia 4 de outubro, o Papa Francisco esteve em Assis para uma visita de amizade e gratidão a um santo de quem escolheu não apenas o nome, mas, sobretudo, o ardor em levar adiante uma missão que ambos assumiram, sintetizada nas palavras que São Francisco ouviu na ermida de São Damião: "Vai e restaura a minha Igreja!".

Dentre os vários discursos que o Pontífice fez na cidade, ganhou as manchetes dos jornais o que pronunciou na residência do bispo local, no ambiente denominado "Sala do Despojamento", onde, em 1205, o jovem Francisco, aos 23 anos, devolveu suas roupas ao progenitor, Pedro Bernardo, afirmando que, daquele momento em diante, seu pai era Deus e sua família, a Igreja.

Além do bispo de Assis - a quem o Papa saudou carinhosamente como "meu irmão Domingos" -, estavam na sala várias pessoas assistidas pela Cáritas diocesana. Foi a elas que Francisco dirigiu a palavra, aprofundando o conceito de despojamento, considerando-o essencial para uma autêntica restauração da Igreja e da sociedade. Trago seus tópicos mais incisivos: o conteúdo é dele, a tradução (nem sempre literal) é minha.

A Igreja deve despojar-se constantemente de um perigo extremamente grave, que ameaça a todos os seus membros: a "mundanidade", ou seja, a tentativa de conciliar o cristianismo com o espírito do mundo. Esse despojamento não se refere tanto - ou não somente - aos trajes, aos pertences, às estruturas e aos ambientes eclesiásticos. O passo a ser dado é muito mais amplo e radical, e envolve o estilo de vida e de atuação do cristão. Ele foi sintetizado por São Paulo nas palavras com que apresenta o exemplo de Jesus: "Esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo e se fez semelhante aos homens" (Fl 2,7).

Quando não existe esse despojamento interior - e, na medida do possível, também exterior - o coração humano passa a ser ocupado pelo orgulho, pela vaidade e pela ambição, que transformam a vida, a Igreja e a sociedade num campo minado, onde tudo e todos devem estar ao meu dispor e serviço. Muito diferente do caminho percorrido por Jesus, "que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela salvação de todos" (Mt 20,28). Sem esse despojamento, ninguém terá vontade e forças para ocupar "o último lugar" - o único onde se encontra Deus - e muito menos para procurar "os últimos" da sociedade (cf. Lc 14,10.13).

É preciso despojar-se para ter condições de acolher a multidão de despojados por um mundo selvagem que não oferece condições, não socorre, não se importa se há crianças morrendo de fome, famílias sem ter com que se alimentar e tanta gente sujeita à escravidão. O caminho de quem não se esvazia para se preencher de Deus, termina num beco sem saída e, quem o percorre, tenta o impossível: servir a Deus e ao dinheiro, conciliar a segurança da fé com a do mundo. Um caminho que mata a alma, as pessoas, a Igreja. Não existe cristianismo sem cruz nem cristãos de pastelaria, com tortas e doces fascinantes!

Francisco encerrou suas palavras pedindo a Deus "que dê a todos a coragem de nos despojarmos não de 20 centavos, mas do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da Igreja e da sociedade!". Talvez tenha sido por isso que, poucos dias depois, pediu a dois bispos europeus que deixassem o cargo, já que pareciam não ter forças suficientes para acompanhá-lo nessa tarefa.

Essa sua constante preocupação pela renovação da Igreja lhe foi impressa no coração por seu predecessor, o Papa João XXX, o qual, em 1959, a um diplomata que lhe perguntava quais seriam os objetivos do Concílio, respondeu: "Precisamos retirar a poeira imperial que, desde Constantino, se acumulou sobre a cátedra de São Pedro, prejudicando a verdadeira imagem e missão da Igreja no mundo".

Inclusive nas críticas que recebe por apresentar mais o caminho a percorrer do que os perigos a evitar, Francisco se mantém fiel à orientação do mesmo Pontífice, expressa no dia 11 de outubro de 1962, ao inaugurar o Concílio: "A Igreja sempre se opôs aos erros, e muitas vezes os condenou com a maior severidade. Em nossos dias, porém, ela prefere recorrer mais ao remédio da misericórdia que ao da severidade, e julga satisfazer melhor às necessidades atuais mostrando o valor de sua doutrina do que censurando os desvios".

Dom Redovino Rizzardo
Colunista do Blog Evangelizando
Bispo de Dourados (MS). Realizou seus estudos no Seminário São Carlos, Guaporé (RS), da Congregação dos Missionários de São Carlos, e os completou na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Pontifícia Universidade Católica.


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