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4 de outubro de 2014

Deus se reflete no matrimônio

Os fiéis da Igreja Católica, e não somente dela, estarão com os olhares voltados, de modo especial nas próximas duas semanas, para o Vaticano. Não só porque ali está o Papa e o coração da Igreja, mas porque os padres sinodais, cerca de 250, estarão reunidos para tratar do tema da família. O tema é de tanta atualidade e dimensão que serão dois anos de trabalhos. Sim, porque o encontro que tem início neste domingo com a missa presidida pelo Papa é o Sínodo Extraordinário, convocado pelo próprio Santo Padre; já no próximo ano teremos o Sínodo Ordinário, também dedicado ao mesmo tema. Na conclusão dos trabalhos deste primeiro encontro de duas semanas, a divulgação de uma mensagem, de um documento. No próximo ano na conclusão do Sínodo Ordinário teremos, se assim o Papa desejar, a divulgação da Exortação pós-Sinodal, ou seja, um documento contendo a reflexão final do Santo Padre baseado nas propostas e reflexões feitas durante o trabalho dos dois Sínodos.
























Sabemos muito bem, quanta atenção o Papa Francisco dá à questão da família, e quanto deseja que este tema retorne a ser o centro da atenção da Pastoral da Igreja. Francisco, depois de quase 30 anos, convoca uma Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos para debater a situação da família chamando a atenção para a crise que a atinge, seja cultural, social ou espiritual.

Um trabalho longo que teve início com a distribuição de um questionário às Conferências Episcopais de todo o mundo e consequentemente a todos os bispos, para que interpelassem os fiéis sobre esse tema de grande importância. Nasce então o Instrumento de Trabalho sobre o qual se debruçarão os padres sinodais nos próximos dias.

Os temas são variados; do divórcio à possibilidade dos divorciados recasados acederem à Comunhão; a simplificação dos processos canônicos de verificação de nulidade; os desafios da “contracepção” e da falta de “abertura à vida” em várias famílias; a questão de pessoas que vivem em uniões do mesmo sexo; a violência doméstica, as situações de crise, precariedade ou desemprego; os “desafios pastorais sobre a família”. Estes são só alguns dos temas que os padres sinodais vão refletir.

Certamente não faltam as polêmicas que já nasceram devido à grande expectativa que os dois Sínodos trazem, principalmente no que diz respeito à participação nos sacramentos para os casais de segunda união. Há expectativas de respostas claras e de abertura para este tema. Junto ao desejo expresso por muitos de mudanças, vem o parecer e a consideração daqueles que não vêem motivos para mudanças neste âmbito; outros já afirmaram que seria o caso de estudar caso por caso.
























O que certamente podemos afirmar é que nunca como hoje o tema da família, e tudo aquilo que a envolve, não é somente uma discussão de “Igreja”, como muitos dizem, mas é uma discussão que envolve todos, que vai além do simples fato religioso, diz respeito aos valores sobre os quais as mesmas sociedades foram fundadas. Os meios de comunicação, os pró e os contra usam programas de aprofundamento para tentar, ao seu modo, explicar o que está em jogo. Não é somente discutir se se deve ou não dar a comunhão aos recasados – eles também são filhos de Deus e membros da Igreja – mas é refletir o que significa hoje o “ser família”, ser um casal que tem filhos, que vive em uma comunidade, que tem problemas, que tem desafios a enfrentar. Deve-se refletir sobre as novas realidades que estão presentes hoje na nossa vida cotidiana, como casais de fato, casais do mesmo sexo, e apontar caminhos que possam, acima de tudo, preservar o grande valor desse sacramento, mas também olhar com magnanimidade para o drama que muitas dessas pessoas, que hoje se encontram “fora”, padecem.

Neste Sínodo Ordinário, a primeira etapa, o objetivo principal é precisamente identificar linhas de ação para pastoral da família.

Falando à Rádio Vaticano, Dom Vincenzo Paglia, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, disse ser um fato, que muitas famílias se separaram, estão feridas, e que estão lutando para se recompor. Percebe-se então que mais do que um de debate de salão sobre essas questões teóricas, seria necessário dar início a uma espécie de luta corpo a corpo com as famílias. “Portanto, sair das salas, neste caso, do Pontifício Conselho realizar um caminho ideal para se confrontar com todas as problemáticas das famílias”: também o Sínodo deve exortar todas as realidades eclesiais do mundo a fazerem o mesmo. Mudou a realidade das famílias, mudou a cultura que as circunda e é essencial que a Igreja, seguindo a inspiração do Papa Francisco, realmente saia e entre em todas as casas e em todas as situações para discutir e dar alguma ajuda e resposta às famílias de hoje.

O Papa Francisco tocou o coração de todos os casais quando sintetizou o “caminhar juntos” com as três palavras: “Pedir licença” para não ser invasivo na vida do cônjuge. “Obrigado”, agradecer o que o outro fez por mim, a beleza de dizer “obrigado”. E a outra, “desculpa”, que às vezes é mais difícil, mas é necessário dizê-la. 

É sobre esse caminho, muitas vezes tão difícil, que os padres sinodais irão refletir nos próximos dias, e sobre os quais a atenção de fiéis e não tão fiéis se dirigirá. É a forma com que o Papa pretende fazer um caminho de reflexão na unidade da Igreja, promovendo a participação responsável do episcopado de todas as partes do mundo.

O Papa Francisco pediu a todos que rezem pelo bom êxito dos trabalhos, e fazemos eco às suas palavras, recordando sempre que o matrimônio está no coração do desígnio de Deus, é a aliança com seu povo, é uma comunhão. Quando um homem e uma mulher se unem em matrimônio, Deus “se reflete neles”.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

26 de setembro de 2014

O CHORO DE UM PAPA

O Papa chorou em terras albanesas, e a emoção de Francisco fez o giro do mundo. Mas por que o Papa chorou? Bergoglio se comoveu e comoveu o mundo, quando ouviu o testemunho de um sacerdote e de uma religiosa antes da celebração das Vésperas no último domingo na Catedral de São Paulo, na capital albanesa. O testemunho do sacerdote e da religiosa fez os presentes mergulharem no passado de um país que padeceu a violência da perseguição religiosa: ambos contaram suas experiências pessoais, durante o antigo regime ditatorial e de perseguições contra a Igreja e o clero no país. Os dois sobreviventes do martírio na Albânia testemunham na Catedral de Tirana a sua fé incondicional a Cristo... e o Papa Francisco, chorou. 

Bergoglio improvisando seu discurso – disse que não pronunciaria o seu discurso preparado - ficou tão emocionado que não deixou passar aquele momento em branco e com voz embargada, disse: “Hoje quando retornarmos a casa pensemos sobre isso, hoje tocamos os mártires”. Francisco confidenciou que tinha se preparado muito para esta visita ao país das águias, lendo a história de perseguição na Albânia, mas para ele – foi outra confidência - foi uma surpresa, pois não sabia que esse povo tinha sofrido tanto. “Uma nação de mártires”, acrescentou.

A Igreja da Albânia depois de décadas de sofrimento, vinte anos atrás conheceu a luz da liberdade, abandonou o longo inverno da perseguição, do silêncio de catacumba, imposto por um regime que se dizia ateu. A liberdade de um país que teve sua fé machucada pela opressão, tem hoje o rosto, o sorriso e a paz expressa pelos dois religiosos que deram seu testemunho diante do Papa e do mundo. Dois religiosos que, até o fim, contra a corrente, jamais abandonaram aquele amor que tudo consola, o amor a Jesus Cristo. São os rostos envelhecidos e os corpos curvados de padre Ernest Simoni, 84 anos e da irmã Marije Kaleta, 85 anos. 

O testemunho e a coragem desses dois filhos da Igreja, junto com o modelo de convivência de um povo composto por várias religiões, são as chaves que nos permitem abrir a porta e compreender o significado da viagem do Papa Francisco a uma terra que foi banhada pelo sangue de fiéis inocentes.  

Este país reerguendo-se das cinzas de um passado a ferro e fogo, constrói hoje um modelo de fraternidade, não só para os Bálcãs, região onde se encontra, mas para toda a Europa, que, mais do que nunca, necessita de sentido de pertença e de voltar aos valores sobre os quais foi construída. Na sua mensagem no livro de Ouro no Palácio Presidencial, Papa Francisco recordava o seu afeto a esse povo: com “respeito e admiração pelo seu testemunho e fraternidade para levar o país em frente”.

Nesta terra, não distante do Vaticano – pouco mais de uma hora de vôo – o Bispo de Roma não usou meios termos para falar ao mundo sobre uma verdade que jamais pode ser discutida: “Ninguém pense que pode usar Deus como escudo enquanto projeta e pratica atos de violência e de vexação!”. Disse ainda que “a religião autêntica é fonte de paz e não de violência” e repetiu: “matar em nome de Deus é um grande sacrilégio!”. Palavras fortes e duras que marcam o sentido profundo de uma viagem a um país que conheceu a tristeza da tentativa de banir Deus da sua vida. 

Foi uma viagem a um país pequeno, de certo modo insignificante no que diz respeito à economia, à política, à ação militar; um país da periferia. Mas depois do último domingo, o mundo passou a conhecer um país, um povo, onde a cooperação étnica e religiosa é exemplo para todos. 

A Albânia conheceu o horror da guerra e das perseguições, mas hoje percorre o caminho da paz, da convivência e da colaboração. O Pontífice deixou o país dos Bálcãs com um recipiente de cristal com terra deste país que deu ao mundo Madre Teresa de Calcutá, um presente entregue pelo primeiro-ministro em nome de todos os albaneses. Quase para recordar que o mundo da solidariedade moderna nasceu neste país, com aquela que se dizia “o lápis nas mãos de Deus”: ela o símbolo daquela abnegação que tanto Francisco prega.

O Papa chorou em terras albanesas, porque pôde ouvir da voz de mártires, que contaram as indizíveis atrocidades que o homem é capaz de fazer contra o homem... e falaram com a serenidade de alguém que encontrou a paz e recebeu o consolado de Deus. Assim o testemunho que chega do povo da Albânia e da sua história é precioso neste tempo em que o nome de Deus é usado para justificar a violência e o desvio do autêntico sentido da religião. 

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

20 de setembro de 2014

Uma lição não aprendida



No Angelus do último domingo, 14 de setembro, o Papa Francisco, recordando a sua visita a Redipuglia – o sacrário militar italiano no nordeste do país que recorda as vítimas da I Guerra Mundial -, voltou a tocar a consciência dos homens para o drama que se realiza na indiferença da chamada civilização moderna; uma civilização sem memória, sem história, e consequentemente, com a projeção de um futuro sombrio. O Papa voltou a falar da “loucura” da guerra, da qual a humanidade ainda “não aprendeu a lição”. 

Certamente vivendo em países, onde a guerra é vista somente em reportagens de telejornais, portanto distante da realidade, e onde tudo pode parecer não cruento e circunscrito, tudo termina no momento em que se desliga a televisão, o holofote para o drama do mundo. Mas também naqueles países que viveram a experiência terrível da “aventura sem retorno”, a lição foi esquecida, pertence a um passado que é melhor não recordar. Sim porque, se a memória fosse viva, a guerra seria um pesadelo constante que a todo custo seria evitada. Mas, infelizmente, não é assim. 

Há a consciência de que a guerra é sinônimo de morte, destruição, dor, mas é uma consciência que termina no fato que tudo acontece distante de casa, em lugares onde a ignorância, a pobreza, a busca de poder é de casa;... aqui onde vivo isso jamais irá acontecer.

Mas quando iremos aprender a lição de que tudo pode se repetir e de que a história continua a dar exemplos aos homens, mas sem grandes resultados? O Papa Francisco na suas palavras que tocam de modo sensível o coração, convidou a “olhar para Jesus Crucificado a fim de compreender que o ódio e o mal são derrotados com o perdão e com o bem”, e para entender de uma vez para sempre “que a guerra como resposta só faz aumentar o mal e a morte”. 

Mas o que leva um irmão a se levantar contra o outro? A resposta é simples, mas também articulada. Basta olhar ao nosso redor e ver o que impera na nossa sociedade: a ganância, a intolerância, a busca de poder... esses são motivos que impulsionam a cegueira do homem a tomar decisões bélicas, muitas vezes – disse em várias ocasiões Francisco – “justificadas por um ideologia”. “A ideologia é uma justificação, e quando não há uma ideologia há a resposta de Caim: o que me importa do meu irmão?... o que me importa dele... sou talvez o custódio do meu irmão?” Ai vem certeza de que a guerra não faz diferença, atinge todos indistintamente, jovens e crianças, mães, pais, avós... E a pergunta se refaz; o que me importa isso?

Hoje o mundo continua a produzir mortes, vítimas, e vítimas inocentes... e a pergunta é legítima. Como isso pode acontecer nos dias de hoje, numa humanidade tão avançada, que se diz civilizada, cheia de história e experiências trágicas? A resposta vem com a lágrima que cai no coração: porque o homem está se tornando cada vez mais egoísta, e os desejos e ambições são maiores do que a própria dignidade humana. Avidez, dinheiro, poder, dominam! Francisco afirmou que os mercadores de guerra ganham tanto que o seu coração corrompido perdeu a capacidade de chorar. E a humanidade tem necessidade de chorar, e esse “é o momento de chorar”.

O alerta do Papa Francisco deve tocar os corações e encorajar os esforços de toda a humanidade para que o diálogo tome o lugar da violência e que as partes em conflito, sejam no Oriente Médio, na África, na Ásia, ponham de lado os seus interesses e se comprometam, a fim de que cada pessoa, seja qual for a etnia, religião, país a que pertence, seja respeitada na sua dignidade.

“A guerra é loucura” e Francisco pede à humanidade a conversão do coração, porque hoje se está combatendo uma Terceira Guerra, “com crimes, massacres, destruições”. A Guerra é uma loucura, e enquanto Deus leva “adiante a sua criação, e nós homens somos chamados a colaborar na sua obra, a guerra destrói. Destrói também o que Deus criou de mais bonito, ou seja, o ser humano. 

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

14 de setembro de 2014

Sinal de amor

Há necessidade de uma Igreja que jamais esteja parada, que se sinta sempre mais movida: essa a síntese das palavras que o Papa Francisco dirigiu nesta semana, durante uma audiência, aos membros da Ação Católica Italiana. Partindo dessas palavras, nosso pensamento vai a todos os missionários e missionárias dispersos em todas as partes do mundo, que através de uma escolha radical, deixaram tudo, para encontrar todos. Pessoas movidas por uma “santa inquietação”, pessoas jamais “mornas”, mas corajosas e despojadas de tudo.

Imediatamente o pensamento corre ao trágico evento que se verificou no último domingo no Burundi com o assassinato de 3 religiosas italianas. Um episódio dramático que chocou a opinião pública mundial, não só pelo fato de serem religiosas de certa idade, mas porque eram pessoas que se dedicavam totalmente ao bem do próximo e da comunidade onde viviam. Deixaram seu país, no caso a Itália, para poder servir o irmão numa terra que sofre o drama da violência cotidiana. Sim, porque a morte dessas três religiosas se insere num drama cotidiano de um povo que não está sob os holofotes da mídia internacional. Falando à Rádio Vaticano, Pe. Claudio Marano, missionário e Responsável do Centro Juvenil de Kamenge, e que vive há mais de 20 anos no Burundi, afirmou que “pode parecer estranho, mas merecemos o mesmo tratamento que merece o povo. Estamos tão inseridos, com os nossos irmãos do Burundi, que merecemos o mesmo tratamento que é reservado ao povo”. 

Ele afirmou que ali é rotina as pessoas desaparecerem, é rotina encontrar corpos no lago; é rotina pessoas serem colocadas na prisão porque disseram uma palavra a mais. Esse acontecimento coloca os missionários diante de um fato: o fato que eles, estrangeiros que estão ali, que vivem com aquela gente, merecem e “estão merecendo o mesmo tratamento que é reservado à população”. São coisas que fazem pensar muito, fazem pensar no povo do Burundi. Pe. Claudio afirma enfim que “devemos absolutamente fazer a paz, devemos chegar ao ponto que estejamos todos prontos, também, para dar o sangue pela paz.”

Quando o Papa Francisco soube do ocorrido expressou seu profundo pesar pela morte das três missionárias xaverianas: Irmã Olga Raschietti, Irmã Lucia Pulici, e Irmã Bernardetta Boggian. Em dois telegramas, um ao núncio em Burundi – Dom Evariste Ngoyagoye – e outro à superiora geral das Missionárias Xaverianas – Irmã Inês Frizza –, o Santo Padre se disse consternado pela trágica morte das religiosas e fez votos de que “o sangue derramado se torne semente de esperança para construir a autêntica fraternidade entre os povos”. 

As três irmãs italianas estavam em Kamenge há cerca de sete anos. Antes trabalhavam no Congo. Quando abriram uma comunidade em Kamenge, decidiram se transferir para essa terra. A Polícia de Burundi prendeu um homem que teria confessado o assassinato das três Irmãs. 

A morte das três missionárias, em  Kamenge provocou e continua a provocar grande dor, consternação, pois mais uma vez constatamos o quanto difícil é hoje ser homens e mulheres de paz, quanto é difícil viver em certas realidades, mesmo se o objetivo maior é o bem do próximo. No mundo de hoje são muitos os missionários e missionárias que, com dedicação total, consomem suas vidas procurando dar alivio aos que sofrem, como é o caso do continente africano. Pessoas impulsionadas por um amor incondicional a terras e povos distantes, mas acima de tudo animadas pelo amor a Jesus Cristo, O qual encontram nos irmãos que sofrem e vivem abandonados.

As três religiosas italianas, como tantos outros missionários e missionárias foram mortas no Burundi, no coração daquela África, daquela terra que tanto amavam e onde dedicaram a vida para ajudar os últimos em nome do Evangelho. E ali foram sepultadas na última quinta-feira, porque as pessoas que amaram e serviram, desejam que elas permaneçam ali. É um sinal de amor até o fim. As três missionárias são sementes de uma nova realidade tão almejada e tão difícil, mas que certamente produzirão muitos frutos.  

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

22 de agosto de 2014

A voz dos desesperados

O coração do Papa Francisco sente a dor e o desespero de milhares de cristãos perseguidos em todo o mundo, principalmente naquelas terras onde querem “cancelar” a existência milenar dos sequazes de Cristo. Durante a sua viagem à Coreia na semana passada, mesmo em meio ao entusiasmo de milhões de fiéis e da acolhida sincera e afetuosa do povo coreano, não se esqueceu, em nenhum momento, do drama que se está consumando em terras banhadas com o sangue de inocentes. O olhar de Francisco pousa sobre o ”tsunami” – palavra usada por sua Beatitude Ignace Youssef III, Patriarca de Antioquia dos Sírios - que está acontecendo com as comunidades cristãs e outras minorias perseguidas na planície de Nínive e em Sinjar: é a “hecatombe do século”.

Na última quarta-feira, já de volta ao Vaticano, durante a audiência geral na Sala Paulo VI, o Papa renovou o seu apelo em favor das minorias perseguidas. Convidou todos para que se unam em oração por todos os cristãos perseguidos no mundo, particularmente no Iraque. “Também pelas minorias religiosas, não-cristãs, que são igualmente perseguidas”. 

De um dia para o outro no Iraque, a vida de milhões de pessoas, de milhares de cristãos mudou. Foram agredidos num dos direitos mais fundamentais do homem, a liberdade de professar a sua fé. Viram-se entre a conversão ao Islamismo ou o pagamento do imposto exigido pelo autoproclamado Estado Islâmico; ou ainda a morte; não tiveram escolha. Deixaram tudo para trás. No meio do desespero não sobrou tempo para nada. Muitos fugiram de mãos vazias e somente com a roupa do corpo. Para traz ficaram suas casas, suas igrejas, seu passado, seu mundo. Fogem da violência dos integralistas e passam fome. As crianças desnutridas aos poucos desvanecem sob olhar impotente de pais e mães. Muitos vivem em abrigos improvisados, outros a céu aberto. 

O apelo é de todas as organizações humanitárias, Caritas em primeiro lugar, por alimentos, remédios, roupas. 

Em um abrir e fechar os olhos, a vida dessas pessoas, a vida que tinham antes, deixou de existir. Para se ter uma idéia, em 2003, só em Mossul, viviam 35 mil cristãos. Pela primeira vez em dois mil anos, não sobrou nenhum. O Patriarca Caldeu do Iraque, Dom Louis Sako, tem-se desdobrado em apelos. A ele, já se juntaram os bispos de todas as partes do mundo e da Europa numa carta enviada esta semana ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Pedem decisões urgentes para "para pôr fim às atrocidades cometidas contra os cristãos e outras minorias religiosas no Iraque".

O Iraque é um lugar onde se vive hoje de modo dramático, ainda que não seja o único. Porém, certamente é um lugar sobre o qual a nossa atenção nestes dias está concentrada: também o Papa jamais se esqueceu deste povo que está sempre no seu pensamento. Basta pensar que Francisco, falando aos jornalistas, durante o seu retorno da Coréia, disse que tinha levado em consideração a possibilidade de passar pessoalmente no Curdistão, o que depois não se verificou, mas isso demonstra a sua atitude de presença, de participação e proximidade, não só na teoria, mas com todo o seu coração.

Francisco continua sendo a voz daqueles que não tem voz, daqueles que têm como único desejo retomar à sua vida, à sua dignidade. Ele é a voz dos mais pobres, sejam  eles cristãos ou não, expulsos de suas terras, violentados na sua dignidade, roubados de suas famílias... 

Mas diante de tudo isso, podemos permanecer indiferentes? Cada um deve fazer segundo a sua capacidade. O Santo Padre o faz com toda a sua capacidade espiritual e moral. 

O drama vivido no Iraque, sem esquecer Síria, Gaza, Sudão, é um drama que nos projeta num futuro sombrio: um drama que deve ser solucionado o quanto antes. A questão no Iraque não é somente uma tragédia para o povo iraquiano, para os cristãos ou para os yazidis, mas é algo que diz respeito a toda a humanidade. Existe o desejo latente de cancelar o diferente. São pequenas ou grandes minorias, são fés diferentes e religiões diferentes, sem espaço num futuro sem paz. São povos, pessoas diferentes que padecem a mesma tragédia, mas ligados pela mesma dignidade humana, que deve ser salvaguardada e defendida.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

21 de agosto de 2014

Em tempos de muita informação, redobrada atenção: “Recolhendo as penas” de uma apuração jornalística mal feita


O Jornal O Globo divulga seguinte manchete: “Papa Francisco espera viver mais dois ou três anos e não descarta aposentadoria”. No Twitter eles publicaram assim: “Papa Francisco diz que viverá mais ‘dois ou três anos”.

Não foi isso que o Papa disse. O Santo Padre respondeu à pergunta, feita no voo papal (Coréia-Roma) do jornalista francês Anaïs Feuga, da Rádio Francesa sobre sua “imensa popularidade” (Traduzo a pergunta: “No Rio, quando a multidão gritava ‘Francisco, Francisco!’, o senhor respondia ‘Cristo, Cristo’. Hoje, como o senhor administra esta imensa popularidade?”). Na resposta, Francisco destacou a efemeridade da popularidade e destacou que esta“durará pouco tempo”. Reforço: o Papa não está dizendo que sua vida durará pouco tempo, mas sim, sua popularidade.

Eis a íntegra de sua resposta à pergunta de Anaïs Feuga:
“Mas, não sei como dizer… Eu a vivo [a popularidade] agradecendo ao Senhor por seu povo estar feliz: isso faço mesmo, não? E desejando ao povo de Deus o melhor. A vivo [a popularidade] como generosidade do povo, isso é verdade. Interiormente, procuro pensar em meus pecados e nos meus erros para não acreditar nisso. É porque sei que isso [a popularidade!] durará pouco tempo: dois ou três anos, e depois… à Casa do Pai. E depois, não é sadio dizer isso – mas a vivo [a popularidade] como presença do Senhor no seu povo que usa os bispos e pastores do povo, para manifestar tantas coisas. A vivo [a popularidade] naturalmente como antes. Antes me assustava um pouco, mas faço estas coisas , não é mesmo? Me vem em mente: não se engane, não dê vazão a esse povo e a essas coisas. Um pouco assim.”

Não podemos confiar em tudo o que lemos. É sempre importante ir à raiz das notícias, mesmo que estas tenham sido divulgadas por meios de comunicação “fortes”. Infelizmente.

Espero, sinceramente, que tenha sido pura falta de apuração (o que já é grave e triste para o Jornalismo sério). Pior, no entanto, quando ocorre a pretensiosa distorção dos fatos e das informações.

Danusa Rego
Missionária e Jornalista
Canção Nova – Roma



20 de agosto de 2014

HABEMUS PAPAM

Foi no dia 13 de março de 2013 que o mundo recebeu a notícia: Temos um Papa. Diante da expectativa todos nós cristãos católicos, e também não católicos aguardávamos a Boa Notícia. Em nosso coração a certeza de que o Arcanjo Gabriel nos seria portador de uma Boa Notícia. E ela chegou: Francisco.

Aparentemente tímido e assustado ele surgiu. O mundo estava com olhos fitos nele. Suas primeiras palavras foram tão doces e ternas que poderíamos dizer que o víamos como um velho amigo. De fala fácil e sorriso sincero, pouco ou nada sabíamos de Francisco. Aos poucos fomos sendo informados sobre quem era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio,SJ. Nasceu em Buenos Aires, capital da Argentina, em 17 de dezembro de 1936.  Tornou-se arcebispo metropolitano de Buenos Aires no dia 28 de fevereiro de 1998. Jesuíta. Outras fontes sobre sua vida encontramos com abundancia na internet e em diversos livros já publicados e outros que ainda serão. Não nos prenderemos a estes detalhes, que não deixam de ser importantes, mas que aqui não serão tratados.

Em sua primeira aparição e fala encontramos um caminho espiritual que vamos agora conhecendo e nos apropriando. Seu primeiro discurso como Papa para a multidão que o aclamava na Praça São Pedro foi repleto de espiritualidade. Talvez em meio ao momento e emoção que todos vivenciávamos não conseguimos abarcar toda a profundidade de suas palavras iniciais. Leiamos novamente o que Francisco nos disse:

“Irmãos e irmãs, boa-noite!

Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.

[Recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai]
E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!

E agora quero dar a Bênção, mas antes… antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.
[…]

Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade.

[Bênção]

Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso!”[1]

Francisco coloca-se disponível diante da Missão assumida: “Eis me aqui!”. Nos ensina nestas breves palavras o sim que somos sempre chamados a dar diante daquilo que o Senhor nos pede. Mesmo que o desafio seja grande e os obstáculos pareçam árduos tenhamos sempre a coragem de dizer: “Eis-me aqui!”. Busquemos esta disponibilidade interior e nos confiemos a graça de Deus.

Em seguida Francisco agradece ao acolhimento. O dom da gratidão é a mais bela maneira de orarmos. Reconhecermos a profundidade deste dom, nos retira do abismo do pessimismo e do medo. Ser grato, agradecer sempre.

Interessante notarmos o número de vezes que Francisco refere-se a oração neste seu primeiro discurso. Encontramos a palavra oração, rezemos e rezei inúmeras vezes. Inicia seu pontificado nos lembrando da importância da oração na nova missão que está iniciando. E nós quando nos lembramos da importância da oração em nossa vida. Francisco pede que rezemos por ele. Mas também reza pelo Papa Emérito Bento XVI. A oração é um dom que nasce do dar e do receber. É uma ponte que liga-nos com Deus, mas também com nossos irmãos e irmãs.

Papa Francisco deixa claro o caminho que agora ele inicia: “E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo...” O Sumo Pontífice agora eleito não quer caminhar sozinho, mas caminhar conosco Povo de Deus. Quando caminhos sozinhos corremos um sério risco: de nos isolarmos, de sermos solitários, e assim vivermos num fechamento egoísta, onde nos bastamos a nós mesmos. O caminho que Francisco propõe é o caminho do diálogo, do encontro, do caminhar juntos de mãos dadas, como amigos, companheiros de jornada. Não estamos sós, mas caminhamos com um pai espiritual, que nos orienta, e nos indica o caminho seguro para chegarmos a Cristo.

O caminho que Francisco nos apresenta é belo: “Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós”. Mesmo em meio as inúmeras dificuldades o convite é para que olhemos para novos horizontes onde a fraternidade, o amor e a confiança guiem nossos passos, relações e encontros.

A Igreja de Roma é chamada a presidir todas as Igrejas na caridade, no amor, na doação. O caminho proposto por Francisco é o da caridade. Na caridade manifestamos concretamente o amor. E assim seremos um povo do amor que caminha ao lado do seu pastor.

Rezar sempre. Rezarmos uns pelos outros, fazendo da oração uma rede universal de amor: “Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade”. A força da oração pode modificar o coração que está nas trevas. E quando rezamos uns pelos outros nos colocamos em diálogo espiritual. Já não somos sozinhos, mas pertencemos a uma grande comunidade universal que alimenta sua vida espiritual também da oração. E nesta rede de oração mundial estabelecemos os laços da fraternidade, da amizade e do amor que não conhece fronteiras.

Antes de finalizar o seu primeiro encontro, agora como Papa, com todos os que o aguardavam é nos concedida uma benção. Porém esta benção tem caráter universal, não se destina apenas a nós cristãos católicos, mas a todos, aos homens e mulheres de boa vontade. Francisco demonstra claramente que a Igreja é a casa de todos. Aqui todos encontram amor e acolhida e por isso mesmo a sua benção se dirige a toda a humanidade.

[1] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/elezione/index.html

Padre Flávio Sobreiro
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). Vigário na Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí - MG). Estudou filosofia na PUC Campinas e teologia na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Site: http://www.padreflaviosobreiro.com

16 de agosto de 2014

Papa na Coréia: Confirmação e esperança

“Queridos amigos! Para mim é uma grande alegria vir à Coreia, a ‘terra do calmo amanhecer’, e experimentar não só a beleza natural do país, mas também e, sobretudo, a beleza do seu povo e da sua riqueza histórica e cultural”: com essas palavras o Papa Francisco iniciou a sua visita à Coréia do Sul na manhã de quinta-feira, falando às autoridades governamentais e aos representantes do Corpo Diplomático, no Palácio Presidencial de Seul. A tão esperada viagem, aguardada por 25 anos, depois da última visita de João Paulo II, hoje São João Paulo, foi precedida como já se tornou habitual para Francisco, com a visita à Basílica de Nossa Senhora Maior, na manhã de quarta-feira onde depositou flores no altar diante do ícone de Maria Salus Popoli Romani. O Papa rezou ali de forma estritamente privada, sozinho e em silêncio, por cerca 20 minutos. Podemos intuir que o Papa mais uma vez colocou nas mãos da Mãe de Deus os frutos dessa sua peregrinação que o leva a confirmar na fé, um povo que tanto sofreu por causa de sua pertença a Cristo, mas também os anseios e desejos de um povo dividido por causa de uma guerra. Certamente o pensamento também se dirigiu a todo o continente asiático e àqueles povos que padecem hoje o horror da guerra.

Francisco é o segundo Pontífice a visitar a Coreia do Sul, mas esta é a terceira viagem de um papa ao país, já que João Paulo II visitou a Coreia em duas ocasiões. A primeira vez foi em 1984 e a segunda em 1989. O primeiro Papa da era moderna a visitar o continente asiático, por sua vez, foi Paulo VI, quando, em 1970, fez uma visita ao Irã, Paquistão e Filipinas, além de Samoa Ocidental.

A importância da viagem Apostólica Internacional de Francisco – a terceira do seu Pontificado -, está presente nos motivos que levam o Sucessor de Pedro a esta parte do mundo: um deles é o fato de que o Papa Francisco, pela primeira vez, visita o Extremo Oriente, uma região do mundo que adquire uma relevância cada vez mais acentuada na política e na economia mundial. O Pontífice está ali para se dirigir a todo o continente, não só à Coreia. Certamente, a viagem é à Coréia, mas tem como destinatários todos os países do continente, precisamente graças à celebração da Jornada da juventude asiática, que se realiza em Daejon e da qual participam representantes dos jovens de 23 países. Também se evidencia o olhar para o futuro: sim, porque a juventude representa o porvir, e Francisco se dirigiu no encontro com os jovens ao futuro deste continente, ao futuro da Ásia.

A viagem do Papa Francisco, com os muitos eventos programados – são 11 discursos –, a beatificação de Paul Yun Ji-Chung e dos seus 123 companheiros mártires e a mensagem de reconciliação traz grandes perspectivas: “A Igreja na Ásia é uma promessa” disse Francisco, bem consciente de que no país se está assistindo, durante os últimos anos, a um crescimento do cristianismo e da participação na vida da Igreja como não se via há muito tempo em outros continentes e países. Desde que a religião cristã foi levada a este país por um grupo de intelectuais leigos e se foi enraizando, durante séculos, sem um clero, sobrevivendo a graves perseguições, o catolicismo coreano ainda tem as marcas de um desenvolvimento original e, sem sombra de dúvidas, vivo. 

A viagem do Papa reforça então as consciências e ilumina os corações e as mentes dos coreanos, nesta terra onde a questão dos leigos afunda as raízes nas suas origens. De fato, os leigos foram os verdadeiros protagonistas da história desta Igreja, mas, como afirma a Igreja local, é necessário que este seu ser protagonistas continue e se perpetue com o tempo.

A viagem de Francisco é uma viagem a 360 graus: de confirmação da fé e de esperança pelo futuro; constatação, mais do que óbvia de que a península, ainda atingida por muitas tensões, precisa de paz e de reconciliação. Francisco está ali para recordar a todos qual é a estrada para o futuro, uma estrada que passa pelo diálogo e pelos valores de um cristianismo, mais do que nunca enraizado na história deste povo.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

7 de agosto de 2014

Peregrino nas estradas do Oriente

Terceira viagem Apostólica internacional do Papa Francisco; depois do Rio de Janeiro e da Terra Santa, agora o “homem que veio do fim do mundo” vai para um mundo distante do nosso, vai ao extremo Oriente, seu destino é a Coreia do Sul.


O Pontífice está ultimando os seus preparativos para, com sua maleta de mão, embarcar no avião que o levará à Coreia onde permanecerá de 14 a 18 próximos. Um país que teve a alegria de receber São João Paulo II duas vezes: a primeira em maio de 1984 e a segunda, em outubro de 1989, quando da realização do Congresso Eucarístico Internacional. 

Desde os primeiros momentos do anúncio oficial da visita o povo dessa nação, - católicos e não-católicos -, expressou a sua alegria e satisfação pela chegada do Papa, um personagem muito estimado naquele país.

As primeiras reações dos próprios meios de comunicação locais e asiáticos falam de uma visita que representa, além da confirmação da fé para os fiéis católicos, de uma espécie de “vitória” da diplomacia sul-coreana que durante anos esperava uma visita do Papa; uma nação onde a Igreja Católica viu seu nascimento através do sangue de milhares de mártires. 

De fato, um dos motivos pelos quais Francisco irá à Coreia é precisamente a beatificação de 124 mártires coreanos que deram a sua vida por Cristo e pela fé cristã durante a perseguição no final do século 18: em 1984 o Papa João Paulo II canonizou 103 mártires, entre eles Santo André Kim Dae-gon (o primeiro sacerdote, o primeiro mártir e o primeiro santo sul-coreano), patrono da Igreja coreana.

E dos mártires passamos ao outro motivo que leva o Santo Padre ao extremo Oriente: a VI Jornada Asiática da Juventude, que se realizará na Diocese de Taejon com o lema: “Jovens da Ásia, despertem! A glória dos mártires resplandece sobre vocês”. Certamente, um momento que irá fazer com que Francisco retorne com seu pensamento e coração à JMJ do Rio, onde ele se encontrou com mais de 3 milhões de jovens provenientes de todas as partes do mundo e indicou—lhes o caminho a seguir: ide, sem medo, para servir.

Sem fazer uma comparação entre os dois eventos a Jornada dos jovens asiáticos tem um volume de presença muito inferior, mas não menos intenso. Serão cerca de 2 mil jovens provenientes de cerca 29 países.

O Papa quer rezar com os jovens da Ásia, porque sabe que eles podem se transformar em apóstolos da paz; quer rezar com as famílias, fundamento da sociedade e da Igreja; quer encontrar os bispos e sacerdotes e confirmá-los na sua missão de evangelizadores. 

A Igreja sul-coreana é a primeira da Ásia a acolher Francisco, que através da Jornada da juventude se comunicará com os jovens deste grande continente, definido por João Paulo II, a primavera da Igreja Católica no Terceiro Milênio; será uma espécie de porta para a evangelização da Ásia. 

Um sinal negativo nesta viagem, a não participação de fiéis da Correia do Norte, aos quais não foi permitido pelo governo de Jim Il-sung participar na missa que o Papa celebrará dia 18 de agosto na Catedral Myeongdong. 

Sim porque o Pontífice vai à Coreia para rezar também pela reconciliação da península, um tema sobre o qual a Igreja coreana tem repetidamente mostrado particular interesse e dedicação. Francisco vai entregar uma mensagem de paz e reconciliação às duas partes. O Papa - esperam em muitos -, poderá contribuir para a paz nesta terra que já sofreu tanto, e continua sofrendo pela divisão entre norte e sul. A Coreia, com a visita do Papa estará novamente no centro do interesse do mundo, pois cada visita papal é sempre considerada um evento de importância mundial. 

A escolha de Francisco de como primeiro país da Ásia visitar a Coreia, um país dividido, é a expressão evidente do seu desejo de paz. O Papa vai também a essa terra para rezar pela paz e reconciliação, uma ferida aberta no coração do povo coreano.

A visita chama também a atenção de líderes de outras religiões que dão as boas-vindas ao Sucessor de Pedro. Durante a Conferência dos Religiosos para a Paz, que se realizou em 2 de Abril passado, líderes protestantes, anglicanos, budistas, confucionistas tornaram pública uma declaração em que se afirmam “felizes pela visita do papa, que certamente promoverá o diálogo inter-religioso”.

A Igreja coreana que receberá Francisco é uma igreja que continua a crescer. Segundo os dados da Conferência Episcopal, os católicos no país somam cerca de 5 milhões e 400 mil, o que corresponde a 10,4% da população, de 48,6 milhões de pessoas. As dioceses são quinze.

No próximo dia 14 quando tocará a terra coreana, Francisco levará em sua bagagem todo o amor do Sucessor de Pedro a uma terra onde a fé cristã nasceu do sangue dos mártires, e onde as esperanças de reunificação, de vida em comum com a realidade do Norte, ainda são latentes e fortes. O Papa vai para confirmar nossos irmãos na fé e para fazê-los se sentirem partícipes de uma fé vivida e partilhada por milhões de pessoas em todas as partes do mundo. Como peregrino Francisco vai tocar os corações e ser tocado pelo amor dos fiéis do extremo Oriente, artífices de uma verdadeira Nova Evangelização. Uma viagem para que a Coréia e toda a Ásia conheçam a paz do Senhor e uma oportunidade para que os pobres, os marginalizados, voltem a ter esperança.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

8 de julho de 2014

Brasil sedia o primeiro Congresso para Católicos totalmente online - CONACAT


O evento gratuito é uma resposta ao pedido de Papa Francisco a católicos do mundo inteiro: uma adesão consciente à Cultura do Encontro.

Com 42 palestrantes e sete dias de duração, o Congresso Nacional Católicos Online (Conacat) – Todos pela Cultura do Encontro, http://www.catolicoemrede.com.br, que acontece entre os dias 11 a 17 de agosto, dois dias após o Dia dos Pais,  inteiramente gratuito, será o primeiro evento dessa natureza organizado completamente online, no Brasil. Com curadoria do jornalista Wagner Moura e conta com o apoio pessoal do vice-presidente da CNBB, dom José Belisário da Silva, o evento irá ajudar a Casa de Amparo Frei Galvão, em Nilópolis (RJ) e Associação Guadalupe, Campo Limpo (SP), instituições que acolhem mulheres grávidas em situação de risco social. Após a transmissão gratuita, as palestras serão vendidas para quem desejar contribuir com as iniciativas sociais que receberão 50% do valor da venda.

Wagner Moura participou como membro convidado do Vatican Blog Meeting, encontro mundial de blogueiros, promovido pela Igreja Católica, em 2011, no Vaticano, Roma - primeiro evento do gênero promovido pelo Vaticano. Após amadurecer a idéia de um evento capaz de reunir jovens brasileiros por meio da internet, Wagner idealizou o Conacat inspirado ainda no que aprendeu durante o Vatican Blog Meeting e fomentar uma maior participação católica na internet, com formação adequada.

CONFIRA ALGUNS DOS PREGADORES DO EVENTO:


“O principal objetivo é servir de auxílio para o protagonismo leigo, com foco na formação dos que desejam evangelizar na prática nesse novo continente digital. Por isso, convidei  sacerdotes e leigos de reconhecida atuação na Igreja, em diversas regiões do Brasil e do mundo. Se um católico tem o desejo de evangelizar, mas não  têm como viajar para participar de encontros como esse, levamos esses palestrantes ao encontro de quem deseja formação”, explica Wagner Moura, idealizador e organizador do Conacat, que pretende com o evento ajudar a promover a Cultura do Encontro estimulada pelo Papa Francisco.

Todos os convidados tiveram como critério de escolha o reconhecimento no protagonismo evangelista em suas comunidades, regiões ou atuação nacional nas áreas da comunicação, política, artes, design e evangelização de jovens. “Esse será um congresso muito importante, com temas de interesse para todos que trabalham com a evangelização. Eu aconselho os que puderem a participar!”, recomenda o arcebispo de São Luís (MA) e vice-presidente da CNBB, dom José Belisário da Silva, em vídeo-convite para o Conacat divulgado nas redes sociais do evento.


Entre os palestrantes estão o teólogo e professor, Felipe Aquino, e Padre Joãozinho, scj  sacerdote dehoniano autor de 10 discos e 47 livros, conhecido no Brasil inteiro pela atuação na música e na direção pastoral. Além deles, integra o time de palestrantes o padre John Wauck, professor da Escola de Comunicação e Igreja, da Universidade de Santa Cruz (Pontificia Università della Santa Croce), Roma (PUSC-Roma) e presidente do Comitê Organizador do Seminário “The Church Up Close: Convering Catholicsm in the Age of Francis” (A Igreja em foco: Cobrindo o catolicismo na era Francisco”), seminário que acontecerá em setembro desse ano, em Roma, voltado para jornalistas que cobrem a Igreja Católica.

SERVIÇO:

1° Congresso Nacional Católicos Online (Conacat) – Todos pela Cultura do Encontro

Período - 11 a 17 de agosto de 2014
Investimento: inscrição e participação inteiramente gratuita. Após o evento, serão vendidas palestras para quem desejar adquirir e 50% da renda será destinada a benfeitorias da Casa de Amparo Frei Galvão, em Ninópolis (RJ) e Associação Guadalupe, Campo Limpo (SP), instituições que acolhem mulheres grávidas em risco social. As presidentes dessas iniciativas são Doris Hipólito e Mariângela Cônsoli.


29 de junho de 2014

Viva Pedro, viva o Papa!

Jesus instituiu a Igreja sobre São Pedro e os Apóstolos: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja; Eu te darei as chaves do Reino dos céus; tudo o que ligares sobre a terra será ligado no céu; e as portas do inferno nunca prevalecerão sobre ela" (Mt 16,16-19). É com base nessa promessa divina que a Igreja sabe que jamais será destruída ou vencida neste mundo. Não há e nem haverá força humana capaz de vencê-la. Jesus prometeu estar com ela todos os dias "até o fim do mundo" (Mt 28,20). Além disso, Jesus prometeu aos Apóstolos na Santa Ceia, que o Espírito Santo estaria com a Igreja sempre - "permanecerá convosco e estará em vós" e "ensinar-vos-á todas as coisas" (João 14,15.25;16,13).





















Nenhuma instituição humana sobreviveu 2000 anos e teve 266 chefes ininterruptos.

Cristo concedeu ao Papa o carisma da infalibilidade, dogma este que o Concílio Vaticano I (1870) proclamou solenemente com o Papa Pio IX. É por isso que nunca na história da Igreja um Papa cancelou um ensinamento doutrinário de um seu antecessor. O Espírito Santo assiste o Papa quando ele ensina e, de modo especial, quando pronuncia um dogma.

Na revolução francesa, Voltaire, o grande inimigo da Igreja, dizia que seria o fim do Papa e que Pio VI seria o último papa da Igreja. Ledo engano, a sanguinária revolução francesa se foi e os papas continuaram mais firmes do que nunca. Nem a perseguição romana, nem o nazismo, nem o comunismo, nem o ateísmo mais agressivo conseguiram deter os papas. Stalin mandou perguntar a Pio XII, "quantas legiões de soldados tinha o Papa". É uma pena que ele não tenha sobrevivido para ver a derrocada do comunismo em 1989; e o Papa que continua.

Os trinta primeiros papas da Igreja (Pedro, Lino, Cleto, Clemente, Evaristo...) foram todos martirizados pelos imperadores romanos que perseguiram a Igreja (Nero, Trajano, Domiciano, Décio, Severo, Diocleciano...), mas sempre houve um sucessor para conduzir a Barca da Igreja. Filipe IV o Belo, da França, subjugou os papas por 70 anos em Avignon, mas Santa Catarina de Sena e Santa Brígida da Suécia, o fizeram voltar a Roma triunfante. O mesmo Filipe IV mandou o seu comparsa Nogaret esbofetear Bonifácio VIII, em Anine, mas foi vencido. Napoleão Bonaparte mandou prender e humilhar o Pio VII nas masmorras do seu palácio de Fontanebleau em Paris, mas nesse mesmo palácio teve de assinar a rendição aos ingleses quando perdeu a batalha de Waterloo; o castigo lhe veio rápido.
























Todos os poderosos que se lançaram contra o Vigário de Cristo na terra, o "doce Cristo na terra", como dizia Santa Catarina de Sena, se viram derrotados. Não se atrevam a levantar as mãos pecadoras contra o enviado do Senhor!

Um dia, Dom Bosco teve aquele famoso sonho onde viu a Barca da Igreja num mar tempestuoso, sendo atacada de todos os lados. No leme estava o papa, que foi ferido e morto; mas outro o sucedeu no timão da Barca. E quando esta ameaçava naufragar, Dom Bosco viu surgirem duas colunas, uma de cada lado, e de cada uma saia uma corrente que se ligava na Caravela e não a deixava afundar, até o fim da viagem. Em cima de uma das colunas estava a Sagrada Eucaristia no Ostensório, e na sua base a frase: "Salus credencium" - Salvação dos que creem. Sobre a outra coluna estava a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, e na base a frase: "Auxilium Christianorum" - Auxiliadora dos Cristãos. Dom Bosco entendeu que Jesus garante a invencibilidade da Igreja pelo Papa, pela Virgem, e por Ele mesmo na Eucaristia.

Viva o Papa, viva a Igreja, Viva Nossa Senhora e Viva Cristo Rei!

Prof. Felipe Aquino
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Blog: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/ Site: http://cleofas.com.br/

7 de junho de 2014

Vaticano: a casa da paz























A casa de Francisco, ou seja, o Vaticano, será neste fim de semana a “casa da paz”, e centro da paz para o Oriente Médio. Sim, o olhar do mundo se dirigirá mais uma vez para os jardins vaticanos onde no final da tarde deste domingo, os Presidentes de Israel e da Palestina, respectivamente, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, junto com o Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, vão rezar juntos pela paz naquela região martirizada do mundo. A presença do sucessor do Apóstolo André ao lado do sucessor do Apóstolo Pedro no encontro mostra como as duas “Igrejas irmãs” pretendem continuar o caminho iniciado em Jerusalém.

Ambos os presidentes e também Bartolomeu I foram convidados para este momento de oração durante a recente peregrinação de Francisco à Terra Santa. O encontro, chamado de “Invocação para a paz” nasceu da intuição de Francisco de que, mais do que nunca, devemos rezar pela paz na Terra Santa, uma terra que viu o Príncipe da Paz nascer, crescer, morrer e ressuscitar, mas que ainda não encontrou a serenidade de que tanto necessita e merece. Será um momento para pedir o dom da paz. 

Como revelado pelo próprio Papa Francisco aos jornalistas no vôo de volta a Roma, vindo de Tel Aviv, o desejo era de que o encontro de oração fosse realizado na Terra Santa. Problemas políticos e logísticos impediram tal realização, levando o Santo Padre a fazer o convite para que o mesmo se realizasse no Vaticano.

Esta convocação do Papa Francisco diz respeito a todos nós, que vemos na Terra Santa, a terra que abrigou o Filho do Homem, e da qual brotou a nossa fé. É uma oportunidade para despertar a escuta recíproca, de modo a encontrar uma maneira de “desarmar mental e emocionalmente”, pessoas que viveram uma vida baseada em conflitos e ódios. Sim, desarmamento de medos, de obsessões, de preconceitos, de arrogâncias, de fanatismos, como disse à Rádio Vaticano, Sergio Paronetto, vice-presidente italiano da Pax Christi. 

O evento histórico que viveremos neste final de semana nos seculares jardins vaticanos – ilha verde no coração de Roma – certamente irá despertar nas pessoas de boa vontade um sentimento maior de pertença à família humana, sacudindo, quem sabe, a pessoa que muitas vezes vive dentro de armaduras, enclausurada em certezas e convicções que nem sempre correspondem à realidade. E tudo isso em uma data excepcional, a Solenidade de Pentecostes: é a paz que pode, através de um encontro, ser mais forte do que os muros que erguemos nos nossos relacionamentos, e essa paz é uma pessoa, como Francisco vem repetindo constantemente, o Espírito Santo.

O Santo Padre nos dias passados, durante a Audiência Geral realizada na Praça São Pedro pediu para que todos rezem pelo encontro de oração, para que Deus dê o dom da paz à Terra Santa e a todo o Oriente Médio. “A paz se faz artesanalmente! – disse. Não há indústrias de paz, não. Faz-se a cada dia, artesanalmente, e também com o coração aberto para que venha o dom de Deus”, acrescentando que os filhos daquela Terra que há muito tempo convivem com a guerra têm o direito de conhecer finalmente dias de paz! 

Durante a sua peregrinação à Terra que todos nós chamamos de Santa, o Papa animara as autoridades palestinas, israelenses e jordanianas a continuarem com os esforços para aliviar as tensões na área do Oriente Médio, sobretudo na martirizada Síria, bem como “a continuar a busca de uma solução equitativa para o conflito israelense-palestino”. O convite para rezar pela paz, feito a esses dois representantes de dois povos há muito tempo em conflito, é também estendido a todos nós, para que não os deixemos sozinhos, para que o mundo se una em um momento de invocação e fé para que o Senhor dê a paz àquela Terra abençoada. Sim, será um encontro de oração e não de uma mediação ou de uma busca de solução. Será oração e depois todos voltam para casa. “Rezar juntos, sem entrar em discussões” precisou Francisco....

No seu convite para rezarem juntos – cristãos, judeus e muçulmanos - o Papa cria a oportunidade para inspirar decisões valentes em favor da paz e colocar um fim no conflito no Oriente Médio; o Dia da “Invocação” pode se tornar um símbolo e uma fonte de inspiração para aqueles que realmente querem a paz nesta terra amada; uma terra que poderá ser sinal de unidade e crescimento para todo o mundo.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo". 

2 de junho de 2014

Nós estamos de olho: "Deus não é católico." Será que o Papa Francisco disse isso mesmo? Acho que não!

"Estamos de olho" - Pascom de Timon
Blog Evangelizando: um blog criado para evangelizar a luz da Igreja, guiada pelo Espírito Santo; amando Nossa Senhora e honrado-a, como também defendendo-a, busca levar um conteúdo de qualidade e confiável aos seus leitores; desmascarando sites que querem destruir a Igreja e o Papa. Defendemos o Santo Padre!

O que muitos sites publicam a respeito do Papa Francisco é totalmente falso, porém, muitos ainda caem. Eles criam palavras que o papa não disse e publicam. 

Veja na integra, um notícia tirada do Blog da Pascom de Timon, desmascarando essa falsa afirmação: "Não existe um Deus católico, mas um Deus" - Site ESTADÃO. O Papa Francisco disse que Deus não é católico? 

Acessando o site do Estadão deparo-me com a seguinte manchete: "'Não existe um Deus católico, mas um Deus', diz papa". De início não fiquei tão chocado; ora, existe apenas um Deus, que criou tudo e todos: católicos, protestantes, hindus, muçulmanos, ateus, etc.
       
Até aí, tudo bem. Segundo o texto, o Sumo Pontífice teria dito isto em uma entrevista ao jornalista Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica.


Meu primeiro choque se deu quando vi a quantidade de sites protestantes postando esta suposta frase do Papa, num rompante de parcialidade. Um destes sites publicou uma frase maior, atribuída ao líder visível da Igreja: [o Papa] afirmou crer “em Deus. Não em um Deus católico, pois não há Deus católico, só há um Deus. Creio em Jesus Cristo e em sua encarnação. Jesus é meu professor e meu pastor, mas a Deus, o Pai, Abba, é a luz e o Criador”. Nestes sites, os comentários não deixam dúvida da intenção da matéria: difamar o Papa e a Igreja...

Quando a mídia fala da Igreja, em minha opinião, é motivo para “ficar com o pé atrás”. O que uma pessoa com o mínimo de criticidade faz ao ler esta notícia? Busca ler a entrevista original, na íntegra; foi o que eu fiz.

Daí veio meu segundo choque: ao ler a entrevista e não encontrar nada que se refira a tão famosa frase. A frase simplesmente não existe!!!

Devemos ficar atentos a esse tipo de notícia que só objetiva descredibilizar a Igreja através de mentiras. Nós estamos de olho...
            
Leia a entrevista:

O Papa: como a Igreja mudará 

Por Eugenio Scalfari - La Repubblica | Tradução: Fratres in Unum.com - O Papa Francisco me disse: “Os maiores males que afligem o mundo nestes dias são o desemprego dos jovens e a solidão dos idosos. Os idosos precisam de cuidado e companhia; os jovens precisam de trabalho e esperança, mas não tem um nem outro, e o problema é que eles sequer os buscam mais. Eles foram esmagados pelo presente. Você me diz: é possível viver esmagado sob o peso do presente? Sem uma memória do passado e sem o desejo de olhar adiante para o futuro para construir algo, um futuro, uma família? Você consegue ir adiante assim? Este, para mim, é o problema mais urgente que a Igreja enfrenta”

Santidade, digo, trata-se de um principalmente de um problema econômico e político para os estados, governos, partidos políticos, sindicatos.

“Sim, você tem razão, mas também preocupa a Igreja, de fato, particularmente a Igreja, porque essa situação não fere apenas os corpos, mas também as almas. A Igreja deve se sentir responsável tanto por corpos como almas”.

Santidade, o senhor diz que a Igreja deve se sentir responsável. Devo concluir que a Igreja não está ciente desse problema e que o senhor a conduzirá nessa direção? 

“Em grande parte há ciência, mas não suficientemente. Quero que haja mais. Não é o único problema que enfrentamos, mas é o mais urgente e mais dramático”.

O encontro o Papa ocorreu na última terça-feira, na sua residência em Santa Marta, em um quarto pequeno e simples, com uma mesa, cinco ou seis cadeiras e um quadro na parede. Ele foi precedido por um telefonema que não esquecerei por toda a minha vida.

Eram duas e meia da tarde. Meu telefone tocou e com uma voz um tanto abalada minha secretária me diz: “O Papa está na linha. Transferirei imediatamente”.

Eu ainda estava chocado quando ouvi a voz de Sua Santidade do outro lado da linha dizendo: “Olá, é o Papa Francisco”. “Olá Santidade”, disse então, “Estou chocado, não esperava que o senhor pudesse me telefonar”. “Por que está tão surpreso? Você me escreveu uma carta pedindo para me encontrar pessoalmente. Tenho o mesmo desejo, então estou ligando para marcar um horário. Deixe-me ver em minha agenda: não posso na quarta-feira, nem segunda, na terça está bom para você?”
Eu respondi que estava bem.

“O horário é um pouco complicado, três da tarde, ok? De outra forma, terá que ficar para outro dia”. Santidade, o horário está bom. “Então combinamos: terça, 24, às três da tarde. Na Santa Marta. Você tem que vir até a porta do Sant’Uffizio”.

Eu não sabia como terminar o telefonema e me deixei levar, dizendo: “Posso abraçá-lo por telefone?” “Claro, um abraço meu também. Depois fazemos isso pessoalmente, tchau”.

E aqui estou. O Papa chega, aperta minha mão e então sentamos. O Papa sorri e diz: “Alguns dos meus colegas que o conhecem disseram que você tentaria me converter”.

É uma piada, respondo. Meus amigos acham que você é quem quer me converter.

Ele sorri e responde: “O proselitismo é uma solene tolice [nonsense], não tem sentido. Nós temos que conhecer um ao outro, ouvir um ao outro e melhorar o nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas idéias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de idéias. O mundo é cruzado por vias que se aproximam e se separam, mas o importante é que elas levem ao Bem”.

Santidade, existe uma visão de Bem única? E quem decide qual é ela? 

“Cada um de nós tem uma visão do bem e do mal. Temos que encorajar as pessoas a caminhar em direção ao que elas consideram ser o Bem”.

Santidade, o senhor escreveu isso em sua carta para mim. A consciência é autônoma, o senhor disse, e todos devem obedecer a sua consciência. Creio que este seja um dos passos mais corajosos dados por um Papa. 

“E repito aqui: Cada um tem sua própria ideia de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe. Isso bastaria para fazer o mundo um lugar melhor”.

A Igreja está fazendo isso?

“Sim, esse é o propósito de nossa missão: identificar as necessidades materiais e imateriais do povo e tentar ir ao encontro delas conforme pudermos. Você sabe o que é ágape?

Sim, eu sei.

“É o amor pelos outros, como Nosso Senhor pregou. Não é fazer proselitismo, é amar. Amar o próximo, aquele fermento que serve ao bem comum”.

Amar o próximo como a si mesmo.

“Exatamente”.

Jesus, na sua pregação, disse que ágape, amor pelos outros, é o único caminho para Deus. Corrija-me se eu estiver errado.

“Você não está errado. O Filho de Deus se encarnou para instilar nas almas dos homens o sentimento de fraternidade. Todos somos irmãos e todos somos filhos de Deus. Abba, como ele chamou o Pai. Mostrarei o caminho, ele disse. Siga-me e encontrará o Pai e será seu filho e ele se compadecerá de ti. Agape, o amor de cada um de nós pelo outro, do mais próximo ao mais distante, é, de fato, o único caminho que Jesus nos deu para encontrar o caminho da salvação e das Beatitudes”.

No entanto, como dissemos, a exortação de Jesus é que o amor ao próximo seja igual ao que temos por nós mesmos. Mas o que muitos chamam narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Nós falamos muito sobre esse aspecto.

“Não gosto da palavra narcisismo”, diz o Papa. “Ela indica um amor excessivo por si mesmo e isso não é bom, pode produzir sérios danos não só à alma do que dele sofre, mas também no relacionamento com outros, com a sociedade na qual se vive. O verdadeiro problema é que aqueles mais afetados por isso — que é, na realidade, um tipo de desordem mental — são pessoas que têm muito poder. Normalmente os chefes são narcisistas”.

Muitos líderes na Igreja o foram.

“Sabe o que penso disso? Os líderes na Igreja frequentemente foram narcisistas, bajulados e negativamente influenciados por seus cortesões. A corte é a lepra do Papado”.

A lepra do papado, estas foram exatamente as suas palavras. Mas o que é a corte? Talvez esteja se referindo à cúria?

“Não, há por vezes cortesões na cúria, mas a cúria enquanto tal é outra coisa. É o que no exército se chama de intendência, ela administra os serviços que servem à Santa Sé. Mas ela tem um defeito: é Vaticanocêntrica. Ela vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, na maior parte, interesses temporais. Essa visão Vaticanocêntrica negligencia o mundo ao nosso redor. Não compartilho dessa visão e farei tudo o que eu puder para mudá-la. A Igreja é ou deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus e os padres, párocos e bispos que têm a cura das almas, estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isso, uma palavra não por acaso diferente da Santa Sé, que tem a sua própria função, importante, mas a serviço da Igreja. Eu não teria condições de ter total fé em Deus e em seu Filho se eu não tivesse sido formado na Igreja, e se eu não tivesse tido a felicidade de me encontrar na Igreja, em uma comunidade sem a qual não teria tomado consciência de mim mesmo e de minha fé”.

O senhor ouviu o seu chamado na juventude?

“Não,  não muito jovem. Minha família quis que eu tivesse uma profissão diferente, que trabalhasse e ganhasse dinheiro. Fui para a universidade. Também tive uma professora por quem tive muito respeito e desenvolvi amizade, e que era um comunista fervorosa. Ela sempre lia textos do Partido Comunista para mim e me dava para ler. Então, também cheguei a conhecer aquela concepção muito materialista. Recordo-me que ela também me deu a declaração dos Comunistas Americanos em defesa dos Rosenbergs, que foram sentenciados à morte. A mulher de quem estou falando foi por fim presa, torturada e morta pela ditadura que então governava a Argentina”.

O senhor foi seduzido pelo comunismo?

“O materialismo dela nunca me convenceu. Mas aprender sobre isso por uma pessoa corajosa e honesta foi útil. Descobri algumas coisas, um aspecto do social, que então encontrei na doutrina social da Igreja”.

A teologia da libertação, que o Papa João Paulo II excomungou, era muito presente na América Latina.

“Sim, muitos de seus membros eram argentinos”.

Acredita ter sido justo que o Papa os combatesse?

“Eles certamente deram um aspecto político à sua teologia, mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade”

Santidade, posso lhe contar algo sobre minha própria formação cultural? Fui criado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos, venci um concurso de catecismo realizado por todas as paróquias em Roma e recebi um prêmio do vicariato. Recebi a comunhão nas primeiras sextas-feiras de cada mês, noutras palavras, fui um católico praticante e um verdadeiro crente. Mas tudo isso mudou quando entrei na universidade. Eu li, entre outros textos filosóficos que estudávamos, o “Discurso sobre o Método” de Descartes, e fui golpeado pela frase, que agora se tornou um ícone, “Penso, logo existo”. O indivíduo, assim, se torna a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

“Descartes, todavia, nunca negou a fé em um Deus transcendente”.

Isso é verdade, mas ele assentou os alicerces para uma visão muito diferente e acontece que eu sigo esse caminho, que mais tarde, com o apoio de outras coisas que li, me deixaram em um lugar muito diferente.

“Entretanto, você não é crente, mas também não é anticlerical. Essas são duas coisas muito distintas.”

Verdade, não sou anticlerical, mas me torno anticlerical quando encontro clericalistas.

Ele sorri e diz, “também acontece comigo quando encontro um clericalista, de repente, me torno anticlerical. O clericalismo não deveria ter qualquer coisa a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos gentios, os pagãos, crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isso.”

Posso perguntar a Sua Santidade de que santos o senhor se sente mais próximo em sua alma, aqueles que modelaram a sua experiência religiosa?

“São Paulo é um que colocou as pedras fundamentais de nossa religião e nosso credo. Você não pode ser um cristão consciente sem São Paulo. Ele traduziu os ensinamentos de Cristo em uma estrutura doutrinal que, mesmo com os acréscimos de um grande número de pensadores, teólogos e pastores, resistiu e ainda existe após dois mil anos. Em seguida, há Agostinho, Bento, Tomás e Inácio. Naturalmente, Francisco. Preciso explicar o porquê?”

Francisco  -  Permito-me chamá-lo assim porque é o próprio Papa que dá a entender pela maneira como ele fala, o modo como sorri, com as suas exclamações de surpresa e compreensão – olha para mim como para me encorajar a fazer perguntas que são até mais escandalosas e constrangedoras para aqueles que conduzem a Igreja. Assim eu lhe pergunto: o senhor explicou a importância de Paulo e o papel que ele desempenhou, mas eu quero saber quais desses que o senhor mencionou é mais próximo de sua alma?

“Você está me pedindo para fazer um ranking, mas classificações servem para esportes ou coisas assim. Eu poderia lhe dizer o nome dos melhores jogadores da Argentina. Mas os santos…”

Brinque com os soldados, se quiser, mas deixe tranquilo os santos, o senhor conhece o ditado?

“Exatamente. Mas eu não estou tentando evitar a sua pergunta, porque você não me pediu para classificar a sua importância cultural e religiosa, mas quem é mais próximo da minha alma. Assim eu diria: Agostinho e Francisco.”

Não Inácio, de cuja ordem o senhor procede?

“Inácio, por motivos compreensíveis, é o santo que conheço melhor do que quaisquer outros. Ele fundou a nossa Ordem. Gostaria de recordar-lhe que Carlo Maria Martini também veio dessa ordem, alguém que me é muito caro e também a você. Os jesuítas foram e ainda são o fermento  -  não apenas um, mas talvez o mais eficaz -  do catolicismo: cultura, ensinamento, trabalho missionário, lealdade ao Papa. Mas Inácio que fundou a Companhia, também foi um reformador e um místico. Especialmente um místico.”

E o senhor acha que os místicos têm sido importantes para a Igreja?

“Eles são fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.”

O senhor tem uma vocação mística? “O que o senhor acha?”

Acho que não. “Provavelmente, você está certo. Amo os místicos; Francisco também o foi em muitos aspectos de sua vida, mas não acho que tenho vocação e então precisamos entender o significado profundo dessa palavra. O místico consegue desvencilhar-se de ação, fatos, objetivos e até mesmo missão pastoral e ascende até atingir a comunhão com as Beatitudes. Breves momentos, mas que preenchem toda uma vida.”

Alguma vez isso já aconteceu com o senhor? “Raramente. Por exemplo, quando o conclave me elegeu Papa. Antes de aceitar perguntei se eu poderia passar alguns minutos na sala contígua àquela com um balcão que dá para a praça. Minha cabeça estava completamente vazia e fui tomado de uma grande ansiedade. Para conseguir relaxar fechei meus olhos e fiz todos os pensamentos desaparecerem, mesmo os pensamentos de recusar aceitar o cargo, conforme permitido pelo procedimento litúrgico. Fechei meus olhos e não tive mais ansiedade ou emoção. Em dado momento fiquei repleto de uma grande luz. Isso durou um minuto, mas para mim pareceu muito longo. Então, a luz esmaeceu, levantei-me subitamente e caminhei na sala onde os cardeais estavam aguardando e a mesa onde estava o ato de aceitação. Assinei o documento, o Cardeal Camerlengo contra-assinou e em seguida no balcão deu-se o ‘“Habemus Papam”.

Ficamos em silêncio por um momento, então eu disse: estávamos falando sobre os santos que o senhor sente mais próximos de sua alma e ficamos com Agostinho. O senhor vai me dizer porque o senhor sente muito próximo dele? “Mesmo para o meu predecessor, Agostinho é um ponto de referência. Esse santo passou por muitas vicissitudes em sua vida e mudou sua posição doutrinal várias vezes. Ele também tinha palavras ásperas para os judeus, com as quais nunca partilhei. Ele escreveu muitos livros e creio que o que mais revela a sua intimidade intelectual e espiritual são as “Confissões”, que também contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos argumentariam, uma continuação de Paulo. Sem dúvida, ele vê a Igreja e a fé de muitas maneiras diferentes de Paulo, talvez porque quatro séculos passaram entre um e outro. “Qual é a diferença, Sua Santidade?” Para mim ela reside em dois aspectos substanciais. Agostinho se sente impotente diante da imensidão de Deus e as tarefas que um cristão e bispo tem de cumprir. Na verdade, ele não foi impotente de modo algum, mas sentia que sua alma estava sempre menor do que ele queria e precisava que ela fosse. E então a graça dispensada pelo Senhor como elemento básico da fé. Da vida. Do sentido da vida. Alguém  que não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mancha e sem medo, como dizem, mas ela nunca será como uma pessoa que tocou a graça. Esse é o insight de Agostinho.”

O senhor se sente tocado pela graça? “Ninguém pode saber isso. A Graça não é parte de nossa consciência, ela é a quantidade de luz em nossas almas, não de conhecimento ou de razão. Mesmo o senhor, sem o saber, poderia ser tocado pela graça.”

Sem fé? Um não crente? “A Graça diz respeito à alma.”

Não acredito na alma. “Você não acredita na alma, mas você tem uma.”

Sua Santidade, o senhor disse que não tem a intenção de tentar me converter e não acho que o senhor conseguiria. “Não podemos saber isso, mas eu não tenho qualquer tal intenção.”

E Francisco? “Ele é grande porque ele é tudo. Ele é um homem que quer fazer as coisas, quer construir, ele fundou uma ordem e as suas regras, ele é um itinerante e um missionário, um poeta e um profeta, ele é um místico. Ele encontrou o mal em si e o extirpou. Ele ama a natureza, os animais, a folha de grama no gramado e os pássaros voando no céu. Mas acima de tudo, ele amava as pessoas, as crianças, os idosos, as mulheres. Ele é o exemplo mais brilhante daquele ágape de que falamos anteriormente.”

Sua Santidade está certa, a descrição é perfeita. Mas porque nenhum de seus predecessores jamais escolheu esse nome? E creio que depois do senhor ninguém mais o escolherá.

“Não sabemos disso, não especulemos sobre o futuro. É verdade, ninguém o escolheu antes de mim. Aqui nos deparamos com o problema dos problemas. O senhor gostaria de beber alguma coisa?”
Obrigado, talvez um copo d’água.

Ele se levanta, abre a porta e pede a alguém na entrada para trazer dois copos d’água. Ele me pergunta se quero um café, digo que não. O garçom chega. Ao final de nossa conversa, meu copo d’água estará vazio, mas o dele permanece cheio. Ele pigarreia e começa.

“Francisco queria uma ordem mendicante e uma itinerante. Os missionários que queriam encontrar, ouvir, conversar, ajudar, espalhar a fé e o amor. Especialmente o amor. E ele sonhava com uma Igreja pobre que cuidaria dos outros, receberia ajuda material e a usaria para apoiar os outros, sem preocupação consigo. Oitocentos anos passaram desde então e os tempos mudaram, mas o ideal de uma Igreja missionária, pobre ainda é mais do que válido. Essa ainda é a Igreja que Jesus e seus discípulos pregaram.”

Vocês cristãos agora são uma minoria. Mesmo na Itália que é conhecida como o quintal do papa. Os católicos praticantes, de acordo com algumas pesquisas, estão em torno de 8 a 15 por cento. Aqueles que se dizem católicos, mas, na verdade, não são muito, estão em torno de 20%. No mundo, há um bilhão de católicos ou mais, e com outras igrejas cristãs há mais de um bilhão e meio, mas a população do planeta é 6 ou 7 bilhões de pessoas. Certamente há muitos de vocês, especialmente na África e América Latina, mas vocês são uma minoria.

“Sempre fomos, mas a questão hoje em dia não é essa. Pessoalmente, creio que ser uma minoria é realmente um ponto forte. Temos que se um fermento de vida e amor, e o fermento é infinitamente menor do que uma massa de frutas, flores e das árvores que nascem delas. Creio já ter dito que a nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança. Precisamos restaurar a esperança dos jovens, auxiliar os idosos, estarmos abertos para o futuro, espalharmos o amor. Sermos pobres dentre os pobres. Precisamos incluir os excluídos e pegar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo Papa Paulo VI e João, decidiu olhar para o futuro com um espírito moderno e abrir-se para a cultura moderna. O Padres Conciliares sabiam que abrir-se para a cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com não crentes. Mas posteriormente muito pouco foi feito nessa direção. Tenho a humildade e ambição de querer fazer alguma coisa.”

Também porque – permito-me acrescentar – a sociedade moderna ao redor do mundo está passando por um período de crise profunda, não somente econômica, mas também social e espiritual. No início de nosso encontro, o senhor descreveu uma geração esmagada sob o peso do presente. Mesmo nós, não crentes, sentimos esse peso quase antropológico. Essa é a razão pela qual queremos dialogar com os crentes e com aqueles que melhor os representam.

“Não sei se sou o melhor daqueles que os representam, mas a providência me colocou à frente da Igreja e da Diocese de Pedro. Farei o que puder para cumprir o mandato que me foi confiado.”

Jesus, conforme o senhor salientou, disse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O senhor acha que isso aconteceu?

“Infelizmente, não. O egoísmo aumentou e o amor em direção aos outros diminuiu.”

Assim, esse é o objetivo que temos em comum: Pelo menos para equalizar a intensidade desses dois tipo de amor. A sua Igreja está pronta e equipada para conduzir essa tarefa?

“O que você acha?”

Creio que o amor pelo poder temporal ainda é muito forte dentro dos Muros do  Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a instituição domina a Igreja pobre e missionária que o senhor gostaria.

“De fato, as coisas são assim, e nessa área você não pode fazer milagres. Deixe-me recordar que mesmo Francisco em sua época teve longas negociações com a hierarquia romana e o Papa para que as regras de sua ordem fossem reconhecidas. Eventualmente ele obteve a aprovação, mas com mudanças e compromissos profundos”

O senhor terá de seguir o mesmo caminho?

“Não sou Francisco de Assis e não tenho a sua força e sua santidade. Mas sou o Bispo de Roma e Papa do mundo católico. A primeira coisa que decidi foi nomear um grupo de oito cardeais para serem meus conselheiros. Não cortesãos, mas pessoas sábias que partilham de meus próprios sentimentos. Esse é o início de uma Igreja com uma organização que não é apenas do alto para baixo, mas também horizontal. Quando o Cardeal Martini falou sobre enfocar nos concílios e sínodos, ele sabia do tempo e da dificuldade que implicaria caminhar nessa direção. Gentilmente, mas de maneira firme e tenaz.”

E a política?

“Por que você faz essa pergunta? Já disse que a Igreja não lidará com política.”

Mas há apenas alguns dias o senhor apelou aos católicos para se engajarem civil e politicamente.

“Não estava tratando apenas dos católicos, mas de todos os homens de boa vontade. Digo que a política é a mais importante das atividades civis e tem o seu próprio campo de ação, que não é o da religião. As instituições políticas são laicas por definição e operam em esferas independentes. Todos os meus predecessores têm dito a mesma coisa, por muitos anos ao menos, embora com acentos diferentes. Creio que os católicos envolvidos em política trazem os valores de sua religião dentro de si, mas têm a consciência madura e a experiência para implementá-las. A Igreja nunca irá além de sua tarefa de expressar e disseminar os seus valores, ao menos, pelo tempo que eu esteja aqui.”

Mas isso nem sempre aconteceu com a Igreja.

“Nem sempre aconteceu assim. Com frequência a Igreja como instituição foi dominada pela temporalidade e muitos membros e líderes católicos maiores ainda pensam assim. Mas agora deixe-me fazer-lhe uma pergunta: Você, um ateu que não acredita em Deus, em que você acredita? Você é um escritor e um homem de pensamento. Você acredita em alguma coisa, você deve ter um valor dominante. Não me responda com palavras como honestidade, busca, a visão do bem comum, todos princípios e valores importantes, não é isso que estou perguntando. Estou perguntando o que você considera ser a essência do mundo, sem dúvida, do universo. Você deve se perguntar, é claro, como todo mundo, quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Mesmo as crianças fazem essas perguntas a si mesmas. E você?”

Agradeço essa pergunta. A resposta é esta: Acredito no Ser, que está no tecido do qual surgem as formas e o corpos.

“E eu creio em Deus, mas não em um Deus Católico, não há Deus Católico, há Deus e creio em Jesus Cristo, sua encarnação. Jesus é o meu mestre e meu pastor, mas Deus, o Pai, Abba, é a luz e o Criador. Esse é o meu Ser. Você acha que estamos muito distantes?”

Estamos distantes em nossa maneira de pensar, mas somos semelhantes como seres humanos, inconscientemente animados por nossos instintos que se transformam em impulsos, sentimentos e vontade, pensamento e razão. Nisso somos iguais.

“Mas você pode definir o que você chama de Ser?”

Ser é uma fábrica de energia. Energia caótica, mas indestrutível e caos eterno. As formas emergem da energia quando ela atinge o ponto de explosão. As formas têm as suas próprias leis, os seus campos de magnetismo, os seus elementos químicos, que combinam aleatoriamente, evoluem e eventualmente são extintos, mas a sua energia não é destruída. O homem é provavelmente o único animal dotado de pensamento, ao menos, no nosso planeta e no sistema solar. Disse que ele é guiado por instintos e desejos, mas eu acrescentaria que ele também contém dentro de si uma ressonância, um eco, uma vocação de caos.

“Está certo. Não quero que você me faça um resumo  de sua filosofia e o que você me disse é o suficiente. Do meu ponto de vista, Deus é a luz que ilumina a escuridão, mesmo se não a dissolve, e uma fagulha de luz divina está dentro de nós. Na carta que lhe escrevi, você irá lembrar que disse que as nossas espécies terminarão, mas a luz de Deus não terminará e nesse ponto ela invadirá todas as almas e estará toda em todos.”

Sim, lembro disso muito bem. O senhor disse: “Toda a luz estará em todas as almas” que – se posso dizer assim – transmite uma imagem mais de imanência do que de transcendência.

“A transcendência permanece porque essa luz, tudo em tudo, transcende o universo e as espécies em que habita nesse estágio. Mas de volta ao presente. Demos um passo à frente em nosso diálogo. Observamos que na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo tem aumentado mais do que o amor pelos outros, e que os homens de boa vontade precisarão trabalhar, cada qual com os seus pontos fortes e experiência, para garantir que o amor aos outros aumente até que seja igual e possivelmente exceda o amor por si mesmo.”

Novamente, a política é invocada.

“Certamente. Pessoalmente creio que o chamado liberalismo irrestrito somente faz do forte mais forte e do fraco mais fraco e exclui os mais excluídos. Precisamos de grande liberdade, não descriminação, não demagogia e muito amor. Precisamos de regras para conduzir e também, se necessário, intervenção direta do estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.”

Sua Santidade, certamente o senhor é uma pessoa de grande fé, tocada pela graça, animada pelo desejo de reviver uma igreja pastoral e missionária, que é renovada e não temporal. Mas da maneira que o senhor fala e de como compreendo, o senhor é e será um papa revolucionário. Metade jesuíta, metade franciscano, uma combinação que talvez nunca tenha sido vista antes. E então, o senhor gosta de “The Betrothed” de Manzoni, Holderlin, Leopardi, especialmente, de Dostoevsky, o filme “La Strada” e “Prova d’orchestra” de Fellini, “Open City” de Rossellini e também dos filmes de Aldo Fabrizi .

“Gosto desses porque os assisti com meus pais quando era criança.”

Aqui está. Posso recomendar dois filmes lançados recentemente? “Viva la libertà” e os filmes sobre Fellini de Ettore Scola. Estou certo de que o senhor irá gostar deles. Com relação ao poder, digo, o senhor sabe que quando eu tinha 20 anos passei um mês e meio em um retiro espiritual com os jesuítas? Os nazistas estavam em Roma e eu havia desertado do serviço militar. A deserção era passível de punição por sentença de morte. Os jesuítas nos esconderam sob a condição de que fizéssemos exercícios espirituais o tempo todo que eles nos mantivessem escondidos.

“Mas é impossível ficar um mês e meio de exercícios espirituais?” Ele pergunta, maravilhado e divertido. Eu lhe direi mais da próxima vez.

Nos abraçamos. Subimos o pequeno lance de degraus até a porta. Digo ao Papa que não é preciso me acompanhar, mas ele faz um gesto dizendo que deixe isso pra lá. “Ainda iremos discutir o papel da mulher na Igreja. Lembre-se de que a Igreja (la chiesa) é feminina.”

E se você quiser, também podemos falar sobre Pascal. Gostaria de saber o que você acha dessa grande alma.

“Transmita a todos os seus familiares as minhas bênçãos e peça-lhes para rezarem por mim. Pensem em mim, pensem em mim com frequência.”

Apertamos as mãos e ele fica de pé com dois dedos levantados em sinal de benção. Aceno para ele da janela.

Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar como ele e ficar do jeito que ele quer que ela seja, será uma mudança de época.

Fonte: Blog Pascom de Timon

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