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4 de outubro de 2014

Deus se reflete no matrimônio

Os fiéis da Igreja Católica, e não somente dela, estarão com os olhares voltados, de modo especial nas próximas duas semanas, para o Vaticano. Não só porque ali está o Papa e o coração da Igreja, mas porque os padres sinodais, cerca de 250, estarão reunidos para tratar do tema da família. O tema é de tanta atualidade e dimensão que serão dois anos de trabalhos. Sim, porque o encontro que tem início neste domingo com a missa presidida pelo Papa é o Sínodo Extraordinário, convocado pelo próprio Santo Padre; já no próximo ano teremos o Sínodo Ordinário, também dedicado ao mesmo tema. Na conclusão dos trabalhos deste primeiro encontro de duas semanas, a divulgação de uma mensagem, de um documento. No próximo ano na conclusão do Sínodo Ordinário teremos, se assim o Papa desejar, a divulgação da Exortação pós-Sinodal, ou seja, um documento contendo a reflexão final do Santo Padre baseado nas propostas e reflexões feitas durante o trabalho dos dois Sínodos.
























Sabemos muito bem, quanta atenção o Papa Francisco dá à questão da família, e quanto deseja que este tema retorne a ser o centro da atenção da Pastoral da Igreja. Francisco, depois de quase 30 anos, convoca uma Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos para debater a situação da família chamando a atenção para a crise que a atinge, seja cultural, social ou espiritual.

Um trabalho longo que teve início com a distribuição de um questionário às Conferências Episcopais de todo o mundo e consequentemente a todos os bispos, para que interpelassem os fiéis sobre esse tema de grande importância. Nasce então o Instrumento de Trabalho sobre o qual se debruçarão os padres sinodais nos próximos dias.

Os temas são variados; do divórcio à possibilidade dos divorciados recasados acederem à Comunhão; a simplificação dos processos canônicos de verificação de nulidade; os desafios da “contracepção” e da falta de “abertura à vida” em várias famílias; a questão de pessoas que vivem em uniões do mesmo sexo; a violência doméstica, as situações de crise, precariedade ou desemprego; os “desafios pastorais sobre a família”. Estes são só alguns dos temas que os padres sinodais vão refletir.

Certamente não faltam as polêmicas que já nasceram devido à grande expectativa que os dois Sínodos trazem, principalmente no que diz respeito à participação nos sacramentos para os casais de segunda união. Há expectativas de respostas claras e de abertura para este tema. Junto ao desejo expresso por muitos de mudanças, vem o parecer e a consideração daqueles que não vêem motivos para mudanças neste âmbito; outros já afirmaram que seria o caso de estudar caso por caso.
























O que certamente podemos afirmar é que nunca como hoje o tema da família, e tudo aquilo que a envolve, não é somente uma discussão de “Igreja”, como muitos dizem, mas é uma discussão que envolve todos, que vai além do simples fato religioso, diz respeito aos valores sobre os quais as mesmas sociedades foram fundadas. Os meios de comunicação, os pró e os contra usam programas de aprofundamento para tentar, ao seu modo, explicar o que está em jogo. Não é somente discutir se se deve ou não dar a comunhão aos recasados – eles também são filhos de Deus e membros da Igreja – mas é refletir o que significa hoje o “ser família”, ser um casal que tem filhos, que vive em uma comunidade, que tem problemas, que tem desafios a enfrentar. Deve-se refletir sobre as novas realidades que estão presentes hoje na nossa vida cotidiana, como casais de fato, casais do mesmo sexo, e apontar caminhos que possam, acima de tudo, preservar o grande valor desse sacramento, mas também olhar com magnanimidade para o drama que muitas dessas pessoas, que hoje se encontram “fora”, padecem.

Neste Sínodo Ordinário, a primeira etapa, o objetivo principal é precisamente identificar linhas de ação para pastoral da família.

Falando à Rádio Vaticano, Dom Vincenzo Paglia, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, disse ser um fato, que muitas famílias se separaram, estão feridas, e que estão lutando para se recompor. Percebe-se então que mais do que um de debate de salão sobre essas questões teóricas, seria necessário dar início a uma espécie de luta corpo a corpo com as famílias. “Portanto, sair das salas, neste caso, do Pontifício Conselho realizar um caminho ideal para se confrontar com todas as problemáticas das famílias”: também o Sínodo deve exortar todas as realidades eclesiais do mundo a fazerem o mesmo. Mudou a realidade das famílias, mudou a cultura que as circunda e é essencial que a Igreja, seguindo a inspiração do Papa Francisco, realmente saia e entre em todas as casas e em todas as situações para discutir e dar alguma ajuda e resposta às famílias de hoje.

O Papa Francisco tocou o coração de todos os casais quando sintetizou o “caminhar juntos” com as três palavras: “Pedir licença” para não ser invasivo na vida do cônjuge. “Obrigado”, agradecer o que o outro fez por mim, a beleza de dizer “obrigado”. E a outra, “desculpa”, que às vezes é mais difícil, mas é necessário dizê-la. 

É sobre esse caminho, muitas vezes tão difícil, que os padres sinodais irão refletir nos próximos dias, e sobre os quais a atenção de fiéis e não tão fiéis se dirigirá. É a forma com que o Papa pretende fazer um caminho de reflexão na unidade da Igreja, promovendo a participação responsável do episcopado de todas as partes do mundo.

O Papa Francisco pediu a todos que rezem pelo bom êxito dos trabalhos, e fazemos eco às suas palavras, recordando sempre que o matrimônio está no coração do desígnio de Deus, é a aliança com seu povo, é uma comunhão. Quando um homem e uma mulher se unem em matrimônio, Deus “se reflete neles”.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

26 de setembro de 2014

O CHORO DE UM PAPA

O Papa chorou em terras albanesas, e a emoção de Francisco fez o giro do mundo. Mas por que o Papa chorou? Bergoglio se comoveu e comoveu o mundo, quando ouviu o testemunho de um sacerdote e de uma religiosa antes da celebração das Vésperas no último domingo na Catedral de São Paulo, na capital albanesa. O testemunho do sacerdote e da religiosa fez os presentes mergulharem no passado de um país que padeceu a violência da perseguição religiosa: ambos contaram suas experiências pessoais, durante o antigo regime ditatorial e de perseguições contra a Igreja e o clero no país. Os dois sobreviventes do martírio na Albânia testemunham na Catedral de Tirana a sua fé incondicional a Cristo... e o Papa Francisco, chorou. 

Bergoglio improvisando seu discurso – disse que não pronunciaria o seu discurso preparado - ficou tão emocionado que não deixou passar aquele momento em branco e com voz embargada, disse: “Hoje quando retornarmos a casa pensemos sobre isso, hoje tocamos os mártires”. Francisco confidenciou que tinha se preparado muito para esta visita ao país das águias, lendo a história de perseguição na Albânia, mas para ele – foi outra confidência - foi uma surpresa, pois não sabia que esse povo tinha sofrido tanto. “Uma nação de mártires”, acrescentou.

A Igreja da Albânia depois de décadas de sofrimento, vinte anos atrás conheceu a luz da liberdade, abandonou o longo inverno da perseguição, do silêncio de catacumba, imposto por um regime que se dizia ateu. A liberdade de um país que teve sua fé machucada pela opressão, tem hoje o rosto, o sorriso e a paz expressa pelos dois religiosos que deram seu testemunho diante do Papa e do mundo. Dois religiosos que, até o fim, contra a corrente, jamais abandonaram aquele amor que tudo consola, o amor a Jesus Cristo. São os rostos envelhecidos e os corpos curvados de padre Ernest Simoni, 84 anos e da irmã Marije Kaleta, 85 anos. 

O testemunho e a coragem desses dois filhos da Igreja, junto com o modelo de convivência de um povo composto por várias religiões, são as chaves que nos permitem abrir a porta e compreender o significado da viagem do Papa Francisco a uma terra que foi banhada pelo sangue de fiéis inocentes.  

Este país reerguendo-se das cinzas de um passado a ferro e fogo, constrói hoje um modelo de fraternidade, não só para os Bálcãs, região onde se encontra, mas para toda a Europa, que, mais do que nunca, necessita de sentido de pertença e de voltar aos valores sobre os quais foi construída. Na sua mensagem no livro de Ouro no Palácio Presidencial, Papa Francisco recordava o seu afeto a esse povo: com “respeito e admiração pelo seu testemunho e fraternidade para levar o país em frente”.

Nesta terra, não distante do Vaticano – pouco mais de uma hora de vôo – o Bispo de Roma não usou meios termos para falar ao mundo sobre uma verdade que jamais pode ser discutida: “Ninguém pense que pode usar Deus como escudo enquanto projeta e pratica atos de violência e de vexação!”. Disse ainda que “a religião autêntica é fonte de paz e não de violência” e repetiu: “matar em nome de Deus é um grande sacrilégio!”. Palavras fortes e duras que marcam o sentido profundo de uma viagem a um país que conheceu a tristeza da tentativa de banir Deus da sua vida. 

Foi uma viagem a um país pequeno, de certo modo insignificante no que diz respeito à economia, à política, à ação militar; um país da periferia. Mas depois do último domingo, o mundo passou a conhecer um país, um povo, onde a cooperação étnica e religiosa é exemplo para todos. 

A Albânia conheceu o horror da guerra e das perseguições, mas hoje percorre o caminho da paz, da convivência e da colaboração. O Pontífice deixou o país dos Bálcãs com um recipiente de cristal com terra deste país que deu ao mundo Madre Teresa de Calcutá, um presente entregue pelo primeiro-ministro em nome de todos os albaneses. Quase para recordar que o mundo da solidariedade moderna nasceu neste país, com aquela que se dizia “o lápis nas mãos de Deus”: ela o símbolo daquela abnegação que tanto Francisco prega.

O Papa chorou em terras albanesas, porque pôde ouvir da voz de mártires, que contaram as indizíveis atrocidades que o homem é capaz de fazer contra o homem... e falaram com a serenidade de alguém que encontrou a paz e recebeu o consolado de Deus. Assim o testemunho que chega do povo da Albânia e da sua história é precioso neste tempo em que o nome de Deus é usado para justificar a violência e o desvio do autêntico sentido da religião. 

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

20 de setembro de 2014

Uma lição não aprendida



No Angelus do último domingo, 14 de setembro, o Papa Francisco, recordando a sua visita a Redipuglia – o sacrário militar italiano no nordeste do país que recorda as vítimas da I Guerra Mundial -, voltou a tocar a consciência dos homens para o drama que se realiza na indiferença da chamada civilização moderna; uma civilização sem memória, sem história, e consequentemente, com a projeção de um futuro sombrio. O Papa voltou a falar da “loucura” da guerra, da qual a humanidade ainda “não aprendeu a lição”. 

Certamente vivendo em países, onde a guerra é vista somente em reportagens de telejornais, portanto distante da realidade, e onde tudo pode parecer não cruento e circunscrito, tudo termina no momento em que se desliga a televisão, o holofote para o drama do mundo. Mas também naqueles países que viveram a experiência terrível da “aventura sem retorno”, a lição foi esquecida, pertence a um passado que é melhor não recordar. Sim porque, se a memória fosse viva, a guerra seria um pesadelo constante que a todo custo seria evitada. Mas, infelizmente, não é assim. 

Há a consciência de que a guerra é sinônimo de morte, destruição, dor, mas é uma consciência que termina no fato que tudo acontece distante de casa, em lugares onde a ignorância, a pobreza, a busca de poder é de casa;... aqui onde vivo isso jamais irá acontecer.

Mas quando iremos aprender a lição de que tudo pode se repetir e de que a história continua a dar exemplos aos homens, mas sem grandes resultados? O Papa Francisco na suas palavras que tocam de modo sensível o coração, convidou a “olhar para Jesus Crucificado a fim de compreender que o ódio e o mal são derrotados com o perdão e com o bem”, e para entender de uma vez para sempre “que a guerra como resposta só faz aumentar o mal e a morte”. 

Mas o que leva um irmão a se levantar contra o outro? A resposta é simples, mas também articulada. Basta olhar ao nosso redor e ver o que impera na nossa sociedade: a ganância, a intolerância, a busca de poder... esses são motivos que impulsionam a cegueira do homem a tomar decisões bélicas, muitas vezes – disse em várias ocasiões Francisco – “justificadas por um ideologia”. “A ideologia é uma justificação, e quando não há uma ideologia há a resposta de Caim: o que me importa do meu irmão?... o que me importa dele... sou talvez o custódio do meu irmão?” Ai vem certeza de que a guerra não faz diferença, atinge todos indistintamente, jovens e crianças, mães, pais, avós... E a pergunta se refaz; o que me importa isso?

Hoje o mundo continua a produzir mortes, vítimas, e vítimas inocentes... e a pergunta é legítima. Como isso pode acontecer nos dias de hoje, numa humanidade tão avançada, que se diz civilizada, cheia de história e experiências trágicas? A resposta vem com a lágrima que cai no coração: porque o homem está se tornando cada vez mais egoísta, e os desejos e ambições são maiores do que a própria dignidade humana. Avidez, dinheiro, poder, dominam! Francisco afirmou que os mercadores de guerra ganham tanto que o seu coração corrompido perdeu a capacidade de chorar. E a humanidade tem necessidade de chorar, e esse “é o momento de chorar”.

O alerta do Papa Francisco deve tocar os corações e encorajar os esforços de toda a humanidade para que o diálogo tome o lugar da violência e que as partes em conflito, sejam no Oriente Médio, na África, na Ásia, ponham de lado os seus interesses e se comprometam, a fim de que cada pessoa, seja qual for a etnia, religião, país a que pertence, seja respeitada na sua dignidade.

“A guerra é loucura” e Francisco pede à humanidade a conversão do coração, porque hoje se está combatendo uma Terceira Guerra, “com crimes, massacres, destruições”. A Guerra é uma loucura, e enquanto Deus leva “adiante a sua criação, e nós homens somos chamados a colaborar na sua obra, a guerra destrói. Destrói também o que Deus criou de mais bonito, ou seja, o ser humano. 

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

14 de setembro de 2014

Sinal de amor

Há necessidade de uma Igreja que jamais esteja parada, que se sinta sempre mais movida: essa a síntese das palavras que o Papa Francisco dirigiu nesta semana, durante uma audiência, aos membros da Ação Católica Italiana. Partindo dessas palavras, nosso pensamento vai a todos os missionários e missionárias dispersos em todas as partes do mundo, que através de uma escolha radical, deixaram tudo, para encontrar todos. Pessoas movidas por uma “santa inquietação”, pessoas jamais “mornas”, mas corajosas e despojadas de tudo.

Imediatamente o pensamento corre ao trágico evento que se verificou no último domingo no Burundi com o assassinato de 3 religiosas italianas. Um episódio dramático que chocou a opinião pública mundial, não só pelo fato de serem religiosas de certa idade, mas porque eram pessoas que se dedicavam totalmente ao bem do próximo e da comunidade onde viviam. Deixaram seu país, no caso a Itália, para poder servir o irmão numa terra que sofre o drama da violência cotidiana. Sim, porque a morte dessas três religiosas se insere num drama cotidiano de um povo que não está sob os holofotes da mídia internacional. Falando à Rádio Vaticano, Pe. Claudio Marano, missionário e Responsável do Centro Juvenil de Kamenge, e que vive há mais de 20 anos no Burundi, afirmou que “pode parecer estranho, mas merecemos o mesmo tratamento que merece o povo. Estamos tão inseridos, com os nossos irmãos do Burundi, que merecemos o mesmo tratamento que é reservado ao povo”. 

Ele afirmou que ali é rotina as pessoas desaparecerem, é rotina encontrar corpos no lago; é rotina pessoas serem colocadas na prisão porque disseram uma palavra a mais. Esse acontecimento coloca os missionários diante de um fato: o fato que eles, estrangeiros que estão ali, que vivem com aquela gente, merecem e “estão merecendo o mesmo tratamento que é reservado à população”. São coisas que fazem pensar muito, fazem pensar no povo do Burundi. Pe. Claudio afirma enfim que “devemos absolutamente fazer a paz, devemos chegar ao ponto que estejamos todos prontos, também, para dar o sangue pela paz.”

Quando o Papa Francisco soube do ocorrido expressou seu profundo pesar pela morte das três missionárias xaverianas: Irmã Olga Raschietti, Irmã Lucia Pulici, e Irmã Bernardetta Boggian. Em dois telegramas, um ao núncio em Burundi – Dom Evariste Ngoyagoye – e outro à superiora geral das Missionárias Xaverianas – Irmã Inês Frizza –, o Santo Padre se disse consternado pela trágica morte das religiosas e fez votos de que “o sangue derramado se torne semente de esperança para construir a autêntica fraternidade entre os povos”. 

As três irmãs italianas estavam em Kamenge há cerca de sete anos. Antes trabalhavam no Congo. Quando abriram uma comunidade em Kamenge, decidiram se transferir para essa terra. A Polícia de Burundi prendeu um homem que teria confessado o assassinato das três Irmãs. 

A morte das três missionárias, em  Kamenge provocou e continua a provocar grande dor, consternação, pois mais uma vez constatamos o quanto difícil é hoje ser homens e mulheres de paz, quanto é difícil viver em certas realidades, mesmo se o objetivo maior é o bem do próximo. No mundo de hoje são muitos os missionários e missionárias que, com dedicação total, consomem suas vidas procurando dar alivio aos que sofrem, como é o caso do continente africano. Pessoas impulsionadas por um amor incondicional a terras e povos distantes, mas acima de tudo animadas pelo amor a Jesus Cristo, O qual encontram nos irmãos que sofrem e vivem abandonados.

As três religiosas italianas, como tantos outros missionários e missionárias foram mortas no Burundi, no coração daquela África, daquela terra que tanto amavam e onde dedicaram a vida para ajudar os últimos em nome do Evangelho. E ali foram sepultadas na última quinta-feira, porque as pessoas que amaram e serviram, desejam que elas permaneçam ali. É um sinal de amor até o fim. As três missionárias são sementes de uma nova realidade tão almejada e tão difícil, mas que certamente produzirão muitos frutos.  

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

5 de agosto de 2014

RECEITA DE FELICIDADE

Quando abrimos os jornais, as revistas, ou quando nos introduzimos nas redes sociais, nos deparamos muitas vezes com “receitas” para se chegar à felicidade, para ser feliz. Quem não quer ser feliz? O homem nasce para ser feliz. Passamos a vida toda em busca da felicidade. Mas a pergunta que brota dessa afirmação é o que é a felicidade? Que tipo de felicidade procuramos? Se formos ao dicionário encontramos entre outras coisas: qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, sucesso. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior. Existem diferentes abordagens ao estudo da felicidade - pela filosofia, pelas religiões ou pela psicologia. Filósofos e religiosos sempre se dedicaram a definir sua natureza e que tipo de comportamento ou estilo de vida levaria à felicidade plena. A felicidade é o que os antigos gregos chamavam de “eudaimonia”, um termo ainda usado em ética. Para as emoções associadas à felicidade, os filósofos preferem utilizar a palavra prazer.


Cada um procura a sua receita à medida; alguns através do esforço pessoal tentando interpretar ao seu modo o que seja a felicidade; outros esperando que algo aconteça na vida e que a sua vida melhore; para alguns melhorar de vida, seja econômica, seja social, é ter felicidade, é ser feliz. Cada um busca a sua receita, para usá-la da melhor forma possível. 

Nos dias passados, numa entrevista ao jornal argentino “Clarín”, que realizou um caderno especial sobre os primeiros 500 dias do Pontificado de Francisco, o Pontífice falou sobre a felicidade. Não deu receitas prontas para se chegar a ela – pois alguém poderia dizer que ser feliz é algo subjetivo – mas indicou caminhos, deu conselhos, abriu portas que nos podem levar a encontrar o verdadeiro sentido de felicidade, de ser feliz. 

Certamente o Papa não falou isso para preencher lacunas de “receitas da felicidade”, mas falou de algo que todos nós, podemos ter e viver. E começa precisamente sobre o sentido de viver.

"Viver e deixar viver, é o primeiro passo para a felicidade", disse o Papa. Como parte do decálogo para a felicidade recomendou ajudar os outros, pois se "um fica estagnado, corre o risco de ser egoísta" e como todos nós sabemos "a água estagnada é a primeira que se corrompe". Francisco aconselhou a mover-se "remansado", ou seja com tranquilida, uma expressão que utilizou de um clássico da literatura argentina. 

“Em 'Don Segundo Sombra' - disse Bergoglio - há uma coisa muito linda, de alguém que relê a sua vida. Diz que quando jovem era uma corrente rochosa que levava tudo à frente; como adulto era um rio que andava para frente e que na velhice se sentia em movimento, mas remansado. Francisco utiliza esta imagem do poeta e novelista Ricardo Guiraldes. 

Outra das chaves que Francisco nos oferece nesta ideal busca da felicidade, do ser feliz, está na “sã cultura do ócio”; a doce arte do fazer nada como dizem muitos. Mas o ócio a que se refere Francisco é a oportunidade para desfrutar de outros momentos, como uma boa leitura, dar espaço à introspecção; dar espaço à arte e porque não a brincadeiras com as crianças. Sim porque brincar com as crianças é uma chave para uma cultura sã. Nos dias de hoje é difícil para um pai e uma mãe de família quando voltam para casa, depois de um dia interminável de fadiga no trabalho, encontrar energias e forças para gastar com os filhos e brincar com eles: muitas vezes quando chegam a casa os filhos já estão dormindo. Quantos momentos felizes se perdem assim.

Na mesma linha Francisco aconselhou que os domingos devem ser partilhados e vividos em família. “O domingo é para a família”, disse. Sobre esse ponto sabemos que na sociedade que vivemos está cada vez mais difícil dar espaço para o domingo em família. Certamente as opções do domingo fora de casa, com os amigos, com a partida de futebol, com a praia, muitas vezes são mais convidativas do que passar algumas horas com as crianças e familiares. São escolhas que com o passar dos anos nos arrependemos de termos feito.

Sobre os jovens, o Papa afirmou que é preciso arranjar uma forma criativa para que eles consigam um trabalho digno. O trabalho para a juventude de hoje está se tornando um tabu; uma dificuldade que envolve um exército sem rumo, sem muitas escolhas, sem perspectivas. Se faltam oportunidades, um dos caminhos é a droga. É preciso dar a eles a dignidade de um trabalho e a possibilidade de levar o pão para casa, de construir um futuro. 

Um conselho ainda do Papa no que diz respeito ao cuidado da natureza; ela merece toda a nossa atenção. 

Um aspecto que o Papa frequentemente tem destacado e que também nesta semana chamou a atenção é o que diz respeito à vida em comum das pessoas, ao cotidiano: a fofoca. “A necessidade de falar mal do outro indica uma baixa auto-estima – disse o Papa, é dizer: sinto-me tão em baixo que em vez de subir rebaixo o outro. Esquecer rápido do negativo é são”, afirmou. Gastamos muito tempo falando dos outros e não olhamos para o nosso nariz, para o nosso comportamento.

Outro conselho foi buscar ativamente a paz. "Estamos vivendo uma época de muita guerra. Na África surgem guerras tribais, mas são algo mais. A guerra destrói. E o clamor pela paz é preciso ser gritado. A paz, às vezes, dá a ideia de quietude, mas nunca é quietude, é sempre uma paz ativa".

Sem entrar nas várias análises que temos sobre o que é a felicidade podemos percebê-la que ela é formada por emoções e sentimentos, que podem ser derivados de um motivo específico, de um sonho realizado, de um desejo atendido.

O psiquiatra Sigmund Freud defendia que todo ser humano é movido pela busca da felicidade, através do que ele denominou princípio do prazer. Porém essa busca seria fadada ao fracasso, devido à impossibilidade de o mundo real satisfazer a todos os nossos desejos. Para nós cristãos, e essa é a mensagem do Papa Francisco, a verdadeira felicidade está em seguir Jesus Cristo, viver o seu amor. A verdadeira felicidade é desfrutar da plenitude do amor de Cristo: caminho, verdade e vida.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

30 de junho de 2014

Nova primavera para a família

No próximo mês de outubro as atenções da Igreja Católica estarão direcionadas para o Vaticano onde se realizará o Sínodo dos Bispos sobre o tema da família. De fato, entre os dias 5 e 19 de outubro os padres sinodais vão refletir sobre o tema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. O tema da família sempre foi um tema importante para a Igreja Católica, e hoje ganha uma dimensão ainda mais importante diante dos desafios que a atualidade apresenta, diante de situações familiares difíceis, da educação para a fé e a vida. No âmbito da preparação para esse evento que diz respeito à toda a Igreja foi apresentado nesta quinta-feira na Sala de Imprensa da Santa Sé o “Instrumentum laboris” da assembleia extraordinária. O documento contém e sintetiza as respostas ao questionário sobre os temas do matrimônio e da família, contido no Documento preparatório ao Sínodo, publicado em novembro de 2013.

As respostas, numerosas e minuciosas, foram enviadas pelos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, pelas Conferências Episcopais, pelos Dicastérios da Cúria Romana e pela União dos Superiores-Gerais. 

Para melhor entender esse documento que serve de base para as discussões devemos recordar que o mesmo está dividido em três partes: a primeira trata do desígnio de Deus, do conhecimento bíblico e magisterial e da sua recepção, da lei natural e da vocação da pessoa em Cristo. Uma constatação do escasso conhecimento do ensinamento da Igreja, que exigem então dos agentes pastorais uma maior  preparação e compromisso.

Uma reflexão específica é dedicada à dificuldade de compreender o significado e o valor da “lei natural”, colocada na base da dimensão esponsal entre o homem e a mulher. Para muitos, "natural" é sinônimo de "espontâneo", o que comporta que os direitos humanos são entendidos como a autodeterminação do sujeito individual que tende à realização dos próprios desejos. 

Já a segunda parte, se detém sobre os desafios que estão relacionados com a família. Neste capítulo do texto a atenção se concentra nas situações pastorais difíceis, que dizem respeito às convivências e às uniões de fato, aos separados, aos divorciados, aos divorciados recasados e aos seus eventuais filhos, às mães solteiras, a quantos se encontram em condições de irregularidade canônica e a quantos pedem o matrimônio sem serem crentes ou praticantes. É uma temática de grande atualidade e sobre a qual se espera, por parte da Igreja, novas luzes, indicações precisas para enfrentar muitas sombras que ao longo se formaram neste âmbito da célula da sociedade. O documento frisa a urgência de permitir que as pessoas feridas se curem e se reconciliem, voltando a ter confiança e serenidade renovadas. Por isso é invocada uma pastoral capaz de oferecer a misericórdia que Deus concede a todos sem medidas. Trata-se portanto de “propor, não de impor; acompanhar e não obrigar; convidar, não expulsar; inquietar, nunca desiludir”.

A propósito das uniões entre pessoas do mesmo sexo, se põe em evidência que todas as Conferências Episcopais dizem não à introdução de uma legislação que permite tal união "redefinindo" o matrimônio entre homem e mulher. Pede-se, contudo, uma atitude respeitosa e de não-julgamento em relação a estas pessoas, enquanto se destaca a falta de programas pastorais a este respeito, uma vez que se trata de fenômenos recentes.

Na terceira parte temáticas relativas à abertura à vida, como o conhecimento e as dificuldades na recepção do magistério, as sugestões pastorais, a praxe sacramental e a promoção de uma mentalidade acolhedora.
De fato, se diz que é pouco conhecida na sua dimensão positiva a Doutrina da Igreja sobre a abertura à vida da parte dos esposos, pelo que é considerada como uma ingerência na vida do casal e uma limitação à autonomia da consciência. Daqui a confusão que se cria entre os contraceptivos e os métodos naturais de regulação da fertilidade. Relativamente à profilaxia contra a Aids, é necessário que a Igreja explique melhor a sua posição, também para contrastar algumas “reduções caricaturais” dos meios de comunicação e para evitar reduzir o problema a uma mera questão “técnica”, quando na realidade se trata de “dramas que marcam profundamente a vida de inumeráveis pessoas”. 

Nos seus encontros com as famílias, Francisco encoraja sempre a família a olhar com esperança para o próprio futuro, recomendando estilos de vida através dos quais se conserva e se faz prosperar o amor em família: pedir licença, agradecer e pedir perdão, sem jamais deixar que o sol se ponha sobre uma desavença ou uma incompreensão, ter a humildade de pedir desculpa um ao outro. Três palavras que podem mudar o sentido de uma vida em comum. Basta começar a usá-las. 

Na premissa desse documento se pode notar a consciência da Igreja de que as dificuldades não determinam o horizonte último da vida familiar e de que as pessoas não se encontram unicamente diante de problemáticas inéditas, sobretudo entre os jovens, que fazem entrever uma nova primavera para a família. 

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

22 de junho de 2014

REINVENTAR A SOLIDARIEDADE

Nesta última semana o Papa Francisco, entre os muitos discursos e homilias que proferiu, chamou a atenção para dois temas que dizem respeito à nossa atualidade: a corrupção e a pobreza; uma filha da outra. Já na segunda-feira quando recebeu os participantes de um encontro dedicado à pobreza que teve como tema “Investir para os pobres ”, promovido entre outros pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, e pela Catholic Relief Services (Caritas EUA), Francisco afirmou que a “solidariedade para com os pobres e os excluídos nos faz refletir sobre uma forma emergente de investimento responsável, conhecida como investimento de impacto”.

Explicando um pouco o que é o investidor de impacto, o Papa disse que é um conhecedor da existência de profundas desigualdades sociais e de penosas condições de desvantagem enfrentadas por populações inteiras. Assim a lógica que anima esse investidor é a lógica que “reconhece a ligação entre lucro e solidariedade”, ou seja, a existência de um círculo virtuoso entre ganho e doação.

Está ai então um caminho interessante para o cristão, redescobrir, viver e anunciar esta preciosa e original unidade entre lucro e solidariedade.

Neste mundo da economia, muitas vezes fechado, desconhecido, intransponível, é importante que a ética retome seu espaço e que os mercados se ponham a serviço dos interesses dos povos e do bem comum da humanidade. Não podemos mais tolerar – disse o Papa - que os mercados financeiros governem o destino dos povos, ao invés de servirem às suas necessidades, ou que poucos prosperem recorrendo à especulação financeira enquanto muitos sofrem as suas consequências.

O desenvolvimento tecnológico deu velocidade às transações financeiras, dando oportunidade a especulações que atingem de cheio muitos setores da vida da nossa sociedade, em primeiro lugar, e mais dramático, os preços dos alimentos; um verdadeiro escândalo que tem graves consequências para o acesso dos pobres à comida.

E nesta ótica o segundo tema sobre o qual o Papa se deteve nesta semana, e desta vez durante a Santa Missa na Casa Santa Marta, por dois dias seguidos, foi o da corrupção: E a pergunta; quem paga a corrupção?: são os pobres.

Francisco não usou meias palavras ao falar que a corrupção dos poderosos acaba sendo “paga pelos pobres”, e que por causa da avidez dos mesmos, os deserdados ficam sem aquilo de necessitam e têm direito. “Lemos tantas vezes nos jornais sobre o político que enriqueceu magicamente, disse o Papa. Foi processado, levado ao tribunal, ou sobre o empresário que ficou rico como num passe de mágica, ou seja, explorando seus operários. Fala-se também do bispo que enriqueceu e deixou a sua função pastoral para cuidar de seus bens. “Os corruptos políticos e os corruptos eclesiásticos estão em todos os lugares”. Porém, se pergunta o Papa, “quem paga a corrupção?”. A corrupção na verdade “quem paga é o pobre”. Pagam os hospitais sem medicamentos, os doentes que não recebem cura, as crianças sem educação. E o Papa vai mais longe e pergunta quem paga a corrupção de um prelado? Pagam as crianças, que não sabem fazer o sinal da cruz, que não recebem catequese, que não são acompanhadas. Pagam os doentes que não são visitados, pagam os encarcerados que não recebem atenções espirituais.

E a receita para vencer a corrupção – disse Francisco - é o serviço aos outros. “O corrupto irrita Deus e faz o povo pecar”, disse.

Corrupção e pobreza; dois temas de grande atualidade e que se tocam, se entrelaçam, frutos de uma sociedade egoísta, individualista e que vê no outro somente uma mercadoria, um objeto a ser explorado, e jamais um sujeito a ser respeitado. É necessário que a nossa sociedade seja transformada, regenerando aquelas raízes profundas que foram renegadas, iniciando precisamente por escolhas que vão ao encontro do bem comum, dos últimos, dos deserdados. Devemos reinventar a palavra solidariedade num mundo cada vez mais individualista, para que ninguém fique de fora, para que ninguém seja descartado, para que ninguém viva e sobreviva à margem da vida de uma sociedade, sociedade que se diz moderna.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".


















7 de junho de 2014

Vaticano: a casa da paz























A casa de Francisco, ou seja, o Vaticano, será neste fim de semana a “casa da paz”, e centro da paz para o Oriente Médio. Sim, o olhar do mundo se dirigirá mais uma vez para os jardins vaticanos onde no final da tarde deste domingo, os Presidentes de Israel e da Palestina, respectivamente, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, junto com o Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, vão rezar juntos pela paz naquela região martirizada do mundo. A presença do sucessor do Apóstolo André ao lado do sucessor do Apóstolo Pedro no encontro mostra como as duas “Igrejas irmãs” pretendem continuar o caminho iniciado em Jerusalém.

Ambos os presidentes e também Bartolomeu I foram convidados para este momento de oração durante a recente peregrinação de Francisco à Terra Santa. O encontro, chamado de “Invocação para a paz” nasceu da intuição de Francisco de que, mais do que nunca, devemos rezar pela paz na Terra Santa, uma terra que viu o Príncipe da Paz nascer, crescer, morrer e ressuscitar, mas que ainda não encontrou a serenidade de que tanto necessita e merece. Será um momento para pedir o dom da paz. 

Como revelado pelo próprio Papa Francisco aos jornalistas no vôo de volta a Roma, vindo de Tel Aviv, o desejo era de que o encontro de oração fosse realizado na Terra Santa. Problemas políticos e logísticos impediram tal realização, levando o Santo Padre a fazer o convite para que o mesmo se realizasse no Vaticano.

Esta convocação do Papa Francisco diz respeito a todos nós, que vemos na Terra Santa, a terra que abrigou o Filho do Homem, e da qual brotou a nossa fé. É uma oportunidade para despertar a escuta recíproca, de modo a encontrar uma maneira de “desarmar mental e emocionalmente”, pessoas que viveram uma vida baseada em conflitos e ódios. Sim, desarmamento de medos, de obsessões, de preconceitos, de arrogâncias, de fanatismos, como disse à Rádio Vaticano, Sergio Paronetto, vice-presidente italiano da Pax Christi. 

O evento histórico que viveremos neste final de semana nos seculares jardins vaticanos – ilha verde no coração de Roma – certamente irá despertar nas pessoas de boa vontade um sentimento maior de pertença à família humana, sacudindo, quem sabe, a pessoa que muitas vezes vive dentro de armaduras, enclausurada em certezas e convicções que nem sempre correspondem à realidade. E tudo isso em uma data excepcional, a Solenidade de Pentecostes: é a paz que pode, através de um encontro, ser mais forte do que os muros que erguemos nos nossos relacionamentos, e essa paz é uma pessoa, como Francisco vem repetindo constantemente, o Espírito Santo.

O Santo Padre nos dias passados, durante a Audiência Geral realizada na Praça São Pedro pediu para que todos rezem pelo encontro de oração, para que Deus dê o dom da paz à Terra Santa e a todo o Oriente Médio. “A paz se faz artesanalmente! – disse. Não há indústrias de paz, não. Faz-se a cada dia, artesanalmente, e também com o coração aberto para que venha o dom de Deus”, acrescentando que os filhos daquela Terra que há muito tempo convivem com a guerra têm o direito de conhecer finalmente dias de paz! 

Durante a sua peregrinação à Terra que todos nós chamamos de Santa, o Papa animara as autoridades palestinas, israelenses e jordanianas a continuarem com os esforços para aliviar as tensões na área do Oriente Médio, sobretudo na martirizada Síria, bem como “a continuar a busca de uma solução equitativa para o conflito israelense-palestino”. O convite para rezar pela paz, feito a esses dois representantes de dois povos há muito tempo em conflito, é também estendido a todos nós, para que não os deixemos sozinhos, para que o mundo se una em um momento de invocação e fé para que o Senhor dê a paz àquela Terra abençoada. Sim, será um encontro de oração e não de uma mediação ou de uma busca de solução. Será oração e depois todos voltam para casa. “Rezar juntos, sem entrar em discussões” precisou Francisco....

No seu convite para rezarem juntos – cristãos, judeus e muçulmanos - o Papa cria a oportunidade para inspirar decisões valentes em favor da paz e colocar um fim no conflito no Oriente Médio; o Dia da “Invocação” pode se tornar um símbolo e uma fonte de inspiração para aqueles que realmente querem a paz nesta terra amada; uma terra que poderá ser sinal de unidade e crescimento para todo o mundo.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo". 

18 de abril de 2014

Nada é possível contra o amor

Nada é possível contra o amor




























O Papa Francisco deu início no último domingo, com a procissão de ramos, aos ritos da Semana Santa ao longo da qual, com diversos atos litúrgicos, celebramos a Paixão, Morte e na Vigília de Páscoa, a Ressurreição de Jesus. E no início desta Semana que nós chamamos de Santa, centro da fé cristã, o Papa Francisco, improvisando a sua homilia, fez uma profunda reflexão recordando os personagens descritos na leitura do Evangelho daquele dia, e pedindo um exame de consciência a todos os fiéis, e com qual personagem eles se identificavam.

A recordação da alegria, que envolveu jovens e crianças, com a entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, deu lugar ao longo da semana, à meditação da herança que Jesus nos deixou; antes de tudo o amor pelo próximo, o serviço, e a instituição da Eucaristia; mas também deu lugar à reflexão sobre a tristeza e a amargura da traição.

O Papa Francisco fez uma pergunta que tocou o coração dos milhares de fiéis presentes na Praça São Pedro: Quem sou eu diante do meu Senhor? Quem sou eu? E as perguntas continuaram tocando fundo os sentimentos de todos. Eu sou como Judas que finge amar e beija o Mestre para entregá-lo, para traí-lo? Eu sou um traidor? Eu sou como os líderes que, com pressa, fazem o tribunal e procuram falsos testemunhos?

O Papa vai mais longe e recorda a figura de Pilatos, perguntando-se se sou como Pilatos que, quando vejo que a situação está difícil, eu lavo as minhas mãos e não sei assumir a minha responsabilidade? Ou sou como os soldados que batem no Senhor, cospem n’Ele, O insultam, se divertem com a humilhação do Senhor? Talvez eu seja como o Cirineu, que voltava do trabalho, cansado, e teve a boa vontade de ajudar o Senhor a carregar a cruz? Ou eu sou como aqueles que passavam diante da Cruz de Jesus e zombavam d’Ele. Francisco recorda ainda de José, o discípulo escondido, que leva o corpo de Jesus com amor, para sepultá-lo. Pergunta também: Eu sou como as duas Marias que permanecem na porta do sepulcro, chorando, rezando? Ou sou como os líderes que no dia seguinte foram a Pilatos para dizer: “Mas, olha ele dizia que iria ressuscitar; que não seja mais um engano”, e bloqueiam a vida, bloqueando o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não venha para fora? A qual de todas essas pessoas eu me assemelho, perguntou Francisco.

Muitos de nossos irmãos ao longo dos séculos responderam a essa pergunta com suas vidas, com a doação total de si mesmos à causa do Evangelho, do irmão que sofre, dos deserdados desta vida. Muitos deles foram declarados santos pela Igreja, como o caso do Padre José de Anchieta, que entregou

toda a sua vida em prol da evangelização do novo mundo. Como João Paulo II e João XXIII que serão declarados Santos no próximo domingo, com a dedicação total ao Evangelho. Mas também muitos dos que responderam com sua vida e testemunho à pergunta, “quem sou eu diante do meu Senhor?” são desconhecidos, são “Cirineus” que depositaram suas vidas nas mãos do Senhor, na esperança de aliviar a dor dos necessitados e dos últimos, sendo testemunhas fiéis do amor de Deus.

Mas ao longo dos séculos, e também hoje, temos ainda muitos Judas que em nome de outro deus, o deus dinheiro, colocam valores nos seres humanos. Transformam o ser humano em fonte de lucro, em escravos da era moderna; seja através da exploração, seja através da droga. A traição de Judas colocou um preço em Jesus “como se estivesse num mercado”, disse nesta semana Papa Francisco.

A Paixão de Cristo que tem início com a sua traição e prisão é como “um espelho dos sofrimentos da humanidade”. Jesus toma todo este sofrimento sobre si e morre numa Cruz, castigo para os criminosos, estrangeiros e escravos. Mas como recordou o Santo Padre na última quarta-feira durante a audiência geral na Praça São Pedro, “quando tudo parece perdido, é então que Deus intervém com a força da ressurreição. “A ressurreição de Jesus – que celebramos nesta noite das noites - não é o final feliz de uma linda fábula, mas a intervenção de Deus Pai, quando toda a esperança humana já tinha desmoronado.

Cheios de confiança, vamos deixar de lado o Judas que temos dentro de nós, e vamos entregar todas as nossas esperanças ao Deus amor, que se entregou e morreu por nós. Somos chamados a seguir Jesus até o fim. Ele nos ensinou que nada é possível contra o amor.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

14 de março de 2014

A revolução de Francisco





A revolução de Francisco
Na semana em que o Papa Francisco, de certo modo se desligou do mundo, participando dos Exercícios Espirituais fora do Vaticano, o mundo inteiro, ao contrário, se ligou no “homem que veio do fim do mundo”, para recordar e comemorar o seu primeiro ano de Pontificado. De fato, no dia 13 de março de 2013, a chaminé da Capela Sistina anunciava ao mundo que a Igreja Católica tinha um novo Papa... momentos depois, já no balcão central da Basílica Vaticana, o rosto sereno e afável de um argentino de origem italiana, dirigia ao mundo a sua primeira saudação. Num italiano perfeito saiu o “buona sera”, boa-noite; depois a primeira indicação de que algo de novo estava acontecendo. Ele por primeiro pede aos fiéis, que em silêncio, rezassem por ele e pela sua grande missão; pedido aliás que ele renova a cada contato que tem com os fiéis. O que ocorre depois nos seguintes 365 dias é de conhecimento de quase todos. Sim porque a mídia católica e a mídia chamada leiga, o acompanhou em todos os seus momentos dentro e fora do Vaticano. Acompanhou e dissecou suas ações, palavras, buscando neste novo Sucessor de Pedro, os porquês, e motivos de tais gestos. Todos foram unânimes: “é novo oxigênio para Igreja Católica”.

E como Francisco chegou aos corações de crentes e não crentes? Simplesmente através de seu exemplo, da suas palavras e gestos simples. Da sua identificação com os últimos, com os pobres, com aqueles que sofrem. Da sua pregação de pároco que reafirma que o nosso Deus, não é um Deus inatingível, distante, duro, mas sim um Deus misericordioso, que nos amou por primeiro.

Francisco traz a autenticidade de um Papa que sabe que o gesto é uma forma de comunicar por vezes mais forte do que a palavra. Conhece perfeitamente as dificuldades que a Igreja atravessa, a necessidade de uma reestruturação da Cúria Romana, trabalho aliás que já está fazendo. Conhece também os anseios das famílias, dos jovens diante dos desafios da sociedade atual. Tem um olhar preferencial para as crianças e idosos; olha para a necessidade da paz naqueles lugares onde vidas são ceifadas em nome de ideologias políticas. Conhece o drama dos novos mártires cristãos,

perseguidos e assassinados pelo simples fato de carregarem uma cruz ou uma Bíblia.

É através desse conhecimento das realidades fora dos muros vaticanos que Francisco, com a sua proximidade, é amado pelas pessoas, sejam elas de que religiões forem. Ele não é um super-homem, não é um astro do cinema ou da música; é simplesmente um homem que acredita no amor, nas pessoas, no Deus único que tudo transforma, no Cristo, que se tornou nosso irmão.

O segredo de Francisco... colocar Deus e o homem no centro de tudo. Sim, tudo para ele parte da oração, da contemplação do mistério redentor de Cristo, e do homem, destinatário dessa redenção.

Muitos artigos, programas televisivos, radiofônicos foram feitos nesta semana para comemorar, explicar, dar dimensão ao primeiro ano de Pontificado de Bergoglio. Todos colocando em destaque temas e gestos que para eles foram mais impressionantes. Francisco sem querer jamais ser um homem popular, mas sim um pastor que ajuda, anima as pessoas a caminharem na sua fé, despertou em uma grande parcela da humanidade a esperança de que o mundo e a vida das pessoas podem mudar. Essa esperança é a esperança dos jovens que no Rio de Janeiro, durante a JMJ viram nele, o amigo que caminha junto e indica a direção.

Temos em Francisco, o amigo que veio de longe não para realizar grandes feitos, mudar simplesmente a Igreja, ser o homem do ano. Não, ele veio para mudar o coração das pessoas. Essa é a grande revolução de Bergoglio, a revolução do coração. É bom comemorar esse aniversário, mas melhor ainda é dar ouvidos aos seus ensinamentos, nos quais ele convida todos a serem discípulos e missionários de Cristo, com o coração cheio de alegria e esperança.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

9 de março de 2014

O veneno do vazio

O Papa Francisco não se cansa de chamar a atenção dos jovens, mas também daqueles que são responsáveis pelo seu futuro. Nos dias passados, quando recebeu no Vaticano os membros da Pontifícia Comissão para a América Latina, voltou a insistir no cuidado das crianças e dos jovens. Recordamos que a América Latina, em sua grande maioria é formada por jovens que vivem o presente com o olhar e esperança no futuro. Nas suas palavras improvisadas, Francisco recordou um ensinamento básico que educar não é somente transmitir conhecimento. E neste ensinamento colocou a transmissão da fé. Sim porque se a mesma for feita unicamente através da passagem de conteúdos, será superficial ou ideológica. A fé não terá raízes se não for acompanhada de comportamentos e de valores.

Nesta transmissão é necessário criar o hábito de uma conduta para favorecer a acolhida de valores. E o Papa citou então três pilares para essa transmissão: utopia, memória e discernimento. Chama a atenção esses pilares, essa visão do Papa que vai buscar no seu passado como pastor em Buenos Aires a inspiração para chamar a nossa atenção para o que podemos e devemos fazer pelos nossos jovens.

A utopia, que para muitos pode parecer negativa, no sentido de algo irrealizável, é evidenciada como um projeto, uma riqueza para o jovem, pois “um jovem sem utopia é um velho precoce”. A utopia olha para o futuro.

No que diz respeito à memória e ao discernimento o Papa afirma que a memória olha para o passado e o discernimento é o presente. O jovem deve receber a memória e plantar as raízes da sua utopia nesta memória; e assim discernir no presente a sua utopia. Discernir no presente, analisar a situação, é já estar projetando o futuro.

O Papa Francisco traz o seu pensamento para o momento em que vivemos, para a nossa sociedade que está se acostumando com vários vícios e criando novas culturas, como a “cultura do descarte”. Em muitas ocasiões falou da especificidade da sociedade moderna em deixar de lado, de cancelar, excluir aqueles que não produzem, aqueles que “somente consomem”, que são vistos como empecilhos para o desenvolvimento. Tudo sintetizado num pensamento econômico.

Mas nesta cultura do descarte também o jovem é atingido, pois no centro “está o deus dinheiro e não a pessoa humana”. Portanto, tudo aquilo que não entra nesta ordem, se descarta. “Descartam-se as crianças que sofrem, que incomodam e que não convém que nasçam, descartam-se os idosos. Hoje também os jovens fazem parte deste material de descarte. Assim, o jovem que se encontra sem trabalho – mal dos nossos tempos - “anestesia a sua utopia”. A utopia de um jovem cheio de entusiasmo está cada vez mais se transformando em desencanto. E o convite do Papa: “é preciso dar fé e esperança aos jovens desencantados.

Creio que ninguém tem dúvida de que o Papa que veio “do fim do mundo” agrada aos jovens do mundo inteiro, sejam eles católicos ou não. Isso pudemos constatar no Rio de Janeiro, no ano passado, durante a JMJ. O coro foi uníssono: “ele é um de nós”.

A juventude não vê no Santo Padre um Super-homem, uma estrela de cinema, alguém que está recitando a sua parte como um ator, mas sim alguém que está como eles, e se sentem fascinados pela sua simplicidade, pelos seus gestos e palavras. É alguém que apesar da idade, como um avô, os compreende, mas ao mesmo tempo é exigente, chama a atenção para as armadilhas do mundo, do provisório, exorta a buscar o que permanece, o que é essencial para a vida.

Francisco insiste sempre com os jovens para que busquem a fé como um antídoto para combater “o veneno do vazio”, da não utopia, do ter em detrimento do ser, do consumismo. Os jovens são sensíveis aos apelos do Papa e aos seus chamados a conservarem valores. O Santo Padre não se poupa em reafirmar que é absurdo basear a própria felicidade nas coisas materiais, no ter. “A verdadeira riqueza, - diz - é o amor de Deus partilhado com os nossos irmãos”.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

2 de fevereiro de 2014

O VALOR DE UMA CARTA

O VALOR DE UMA CARTA
Creio que todos recordam muito bem, pelo menos os mais idosos, do uso das cartas para se comunicar com parentes, amigos, instituições etc. A carta sempre foi uma experiência a dois sentidos: a primeira a experiência da emoção de escrever, e a segunda a expectativa de receber uma resposta, resposta que às vezes durava semanas e até meses para chegar. Hoje, na chamada era digital, pós-moderna, o uso desse meio de comunicação diminuiu muito, pois a grande maioria usa a internet para escrever, para se comunicar. Alguém já sentenciou no passado: “preparem-se para viver em um mundo sem Correios”. O e-mail, Facebook e SMS, têm praticamente dizimado as cartas. Usam-se o telefone e os torpedos: são mais velozes, chegam antes. Mas neste nosso mundo do imediatismo e da velocidade perdemos a poesia da escrita pensada e esperada.

Pensada, refletida, escrita e reescrita; e esperada e sonhada. Sim sonhar aquelas palavras que foram escritas talvez a milhares de quilômetros de distância e que traduzem sentimentos e afetos que o espaço não cancela. Essa reflexão surge do fato que nesta semana a Rádio Vaticano retomou uma entrevista concedida pelo Responsável do Setor de Correspondência do Papa, Mons. Giuliano Gallorini, ao semanário de informação "Vatican Magazine", produzido pelo Centro Televisivo Vaticano.

Nesta entrevista Mons. Gallorini desenterra as cartas esquecidas no tempo por causa do uso das redes sociais, e re-propõe o uso das mesmas por fiéis e não fiéis que desejam se comunicar com o Papa Francisco.

“O homem que veio do fim do mundo”, acessível também através das cartas, recebe todas as semanas milhares delas, junto com pacotes, desenhos e objetos. Destinatário: o Papa Francisco, endereço; talvez o mais conhecido no mundo, Casa Santa Marta, Cidade do Vaticano. Os emitentes: gente do mundo inteiro.

Escritas com uma grafia fácil de se ler ou às vezes quase incompreensível, ou de modo eletrônico com o computador, as cartas descrevem de modo simples histórias de cada dia: histórias de famílias, de alegrias, mas também de dramas, dilemas, pedindo a Francisco uma palavra, um conselho, uma benção. Descrevem –

disse Mons Gallorini – dramas pessoais e o auspício de receber uma luz, uma indicação, quase uma bóia de salvação onde se agarrar, e não perder a esperança. Sim, o Papa Francisco fez com que as pessoas descobrissem mais uma vez o papel, a caneta, a carta, para expressar e partilhar seus sentimentos e aspirações.

“Os pedidos são, sobretudo, de conforto e de oração. Muitos dizem respeito – certamente também devido ao momento que vivemos – a dificuldades, sobretudo a doenças... Pedem orações para as crianças, descrevem também situações de dificuldades econômicas”, disse Mons. Gallorini.

Com essas cartas os emitentes se sentem próximos ao Papa, que acolhe os seus sofrimentos, as suas dificuldades, está próximo com a sua oração. Muitos desses pedidos são dirigidos aos setores específicos, como por exemplo os pedidos de ajudas econômicas que “são transmitidos às Caritas diocesanas a fim de que possam verificar e sejam imediatamente mais atuantes”.

Certamente há os casos mais delicados como os de consciência, então esses pedidos são levados aos secretários para que o Papa tome conhecimento diretamente: sem dúvida as lê, coloca a sigla e orienta sobre como se deve responder.

O Papa não pode responder a todas as cartas e pedidos que cruzam os muros do Vaticano, seria impossível, mas todas as missivas que chegam para Francisco recebem uma resposta. Aí vem a poesia da espera, do retorno das palavras enviadas. Sim esperar aquelas palavras tão desejadas, que podem até mesmo mudar a vida. Podem ser somente de gratidão e apreço, mas é a resposta do Papa Francisco, do homem simples e gentil.

Assim, com esse meio de comunicação enterrado pelas novidades tecnológicas, se descobre a alegria do partilhar, da proximidade, do valor das palavras; a alegria de esperar uma resposta, um incentivo, um muito obrigado. A simplicidade da carta, dá em certo sentido o tom simples de um pontificado cheio de surpresas, um pontificado marcado pelo estilo da partilha, pela simplicidade. É o pastor que vai, também como esse instrumento, ao encontro do seu rebanho, ao encontro das suas ovelhas para viver com elas a grande experiência da vida.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".



26 de janeiro de 2014

Comunicar: apaixonante desafio

Comunicar: apaixonante desafio
No próximo dia 1º de junho celebraremos o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que este ano tem como tema “Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro”. A comemoração desse Dia foi instituída pelo Concílio Vaticano II, com o Decreto Inter Mirifica, de 1963. E como ocorre todos os anos, por ocasião da memória litúrgica de São Francisco de Sales, patrono dos comunicadores, o Santo Padre divulgou uma mensagem ao mundo da comunicação social, aos profissionais e usuários.

Nos últimos tempos o tema recorrente das mensagens foi o da Internet e as novas formas de relacionamento nas redes sociais. Na sua primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco dá continuidade à temática que vem abordando quase cotidianamente, ou seja, a da cultura do encontro. E o verdadeiro poder da comunicação – sublinha Francisco – é a “proximidade”.

Os novos espaços onde evangelizar, onde estar presente nos devem como comunicadores e usuários, levar a uma reflexão sobre o serviço que a comunicação presta para aproximar as pessoas, para criar relações interpessoais. Estamos vivendo um período, diria, histórico e muito particular: evidentemente notamos um progresso técnico extraordinário, que cria novas oportunidades, inéditas de interação entre os homens e entre os povos; em certo sentido estamos vivendo realmente uma globalização das relações. Mas essa globalização dever ajudar as pessoas, o indivíduo a crescer em humanidade, excluindo o egoísmo, o isolamento, o indiferentismo, concentrando energias e aspirações nos encontros que cancelam desconfianças, preconceitos, barreiras.

O Papa Francisco constata na sua mensagem que hoje nós vivemos em um mundo cada vez menor, mas onde ainda permanecem divisões e exclusões. E os meios de comunicação podem ajudar a nos sentirmos mais próximos uns dos outros. O Santo Padre parte dessas considerações para desenvolver a sua reflexão aos comunicadores. A tecla que Francisco toca é mais uma vez a da “cultura do encontro” pois podemos notar que apesar dos avanços da humanidade, em nível global vemos a distância escandalosa que

existe entre o “luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres”. E uma dura constatação: “estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona mais”.

E a cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber dos outros. Os meios de comunicação podem ajudar nisso. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos. E Francisco chama a atenção para os problemas que se apresentam neste mundo virtual: antes de tudo a “velocidade da informação” que “supera a nossa capacidade de reflexão e julgamento”. O desejo da tão fala conexão digital – e isso já é linguagem cotidiana, estou conectado – pode, é a advertência, nos levar ao isolamento, distanciar-se do nosso próximo. Temos ainda o paradoxo, quem não tem internet, não está na rede, corre o “perigo de ficar excluído”.

Neste universo da tecnologia e da velocidade, o Santo Padre recorda que não devemos rejeitar a mídia social e que a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica: daí brota o convite contracorrente, de “recuperar o sentido de lentidão e de calma”. Temos necessidade de ser pacientes. Um convite distinto, vamos diminuir a velocidade para que possamos conhecer o outro, aquele que é diferente de nós, aquele que encontramos no nosso caminho. Não só encontrar, mas também ajudar.

Então a pergunta de Francisco, como a comunicação pode estar ao serviço da cultura do encontro? Recordando a parábola do Bom Samaritano vem fora a dimensão da “proximidade”. De fato, quem comunica se faz próximo. E citando ainda a Parábola o Papa adverte que quando a comunicação tem como finalidade principal levar ao consumo ou à manipulação das pessoas, estamos diante de uma agressão violenta como aquela sofrida pelo homem que foi surrado pelos bandidos e deixado ao longo da estrada. E aí vem a chamada de atenção, porque alguns meios de comunicação levam as pessoas a ignorar o próximo. As redes sociais devem ser um lugar rico de humanidade, não uma rede de fios, mas sim de pessoas humanas. Essas estradas digitais estão cheias de humanidade e muitas vezes humanidade ferida.

O Convite, então à Igreja para que abra a portas também no ambiente digital para que o Evangelho possa atravessar os umbrais do tempo e sair ao encontro de todos. O convite do Papa é para não termos medo de sermos cidadãos do ambiente digital, para dialogarmos com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo. A revolução nos meios de comunicação e de informação - a ultima constatação de Francisco – “é um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus”.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

18 de janeiro de 2014

REDESENHAR O MUNDO

REDESENHAR O MUNDO
Mais uma semana com o Papa Francisco, cheia de novidades, reflexões e convites. A novidade já no último domingo, 12, durante o Angelus quando tocou o coração da Igreja de 12 países com a criação de 16 novos cardeais eleitores – entre os quais o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta – dando cada vez mais, uma nova face à Igreja de Pedro presente em todo o mundo. Sim, porque entre os novos cardeais temos arcebispos que não eram das chamadas “cidades cardinalícias”, ou seja, tradicionalmente com a presença de um cardeal, como de Cotabato nas Filipinas, e Les Cayes, no Haiti. O Papa nas suas escolhas – e a imprensa internacional salientou muito isso -, confirmou o seu desejo de uma Igreja simples, humilde, pobre, pois foi buscar também em realidades pequenas e inexistentes no cenário mundial – parece recordar Nazaré e Belém no tempo de Jesus – colaboradores mais estreitos para fazer parte do seleto grupo de cardeais, outrora chamados de “príncipes da Igreja”, hoje mais insistentemente “servidores da Igreja”. Foi uma escolha pessoal de Francisco que nem mesmo os cardeais nomeados sabiam, pois ficaram sabendo junto com os fiéis de todo o mundo. E para não distorcer o papel e a missão dos cardeais, nesta semana o Papa Francisco escreveu aos neo-cardeais recordando que o “cardinalato não significa uma promoção, nem uma honra e nem uma condecoração. É simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e dilatar o coração". O Papa Francisco pediu aos futuros cardeais para "receberem esta designação com um coração simples e humilde".

Com a criação dos novos cardeais, o Papa Francisco dá um sinal importante e concreto da visão que ele tem para a Igreja, pois foi buscar colaboradores na grande periferia do mundo, aquela periferia que tanto ele ama e que não cansa de citar. Alguns meios de comunicação internacional sentenciaram em títulos garrafais, “começou a revolução de Francisco”, uma revolução patente quer nas escolhas relativas ao Colégio Cardinalício, quer nas situações evidenciadas diante dos embaixadores de todo o mundo acreditados junto à Santa Sé no seu discurso da última segunda-feira, na Sala Régia, no Vaticano.

A primeira comunicação, aos novos cardeais, o Papa Francisco fez da janela do Palácio Apostólico, durante o Angelus, diante de

milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro e dos fiéis coligados com o Vaticano através do rádio, da televisão e internet. Uma comunicação para a grande massa de fiéis, dispersa em todos os ângulos do planeta.

A segunda comunicação, e também os convites ao mundo inteiro, foram feitas dentro de uma sala, a Sala Régia, aos representantes das cerca de 180 nações que mantém relações diplomáticas com a Santa Sé, diante dos embaixadores que representam seus países e governos. Sim, de dentro de uma sala fechada o Papa também falou ao mundo através desses representantes diplomáticos para fazer chegar a sua voz aos potentes do mundo, àqueles que tem poder de decisão sobre a vida de milhões de pessoas. Assim Francisco, no seu discurso à diplomacia abriu o seu coração, olhar e pensamento para o mundo, para as situações mais difíceis e frágeis, dolorosas. Mas também falou de esperança, pedindo aos que podem ajudar a encontrar soluções, que o façam.

O homem que “veio do fim do mundo” e que ganhou o mundo com a sua simplicidade e gestualidade, não perdeu a oportunidade de enfatizar mais uma vez, a sua rejeição à cultura do descartável, não só dos alimentos ou bens, mas também de seres humanos. Levantou a voz em defesa das crianças e do horror ao aborto, ao tráfico de pessoas, que são objeto de mercado numa nova forma de escravidão moderna, um verdadeiro “crime contra a humanidade”; falou da valorização dos jovens e dos idosos.

Os temas tocados no discurso aos embaixadores denotam mais uma vez, a importância que o Papa dá à pessoa, individualmente, onde quer que ela esteja, mas com um acento agudo àqueles que vivem na periferia, seja da Igreja, seja da cidade, seja do mundo, os últimos, para Francisco não faz diferença.

O Santo Padre demonstrou mais uma vez nesta semana, primeiramente com o chamado dos 16 novos cardeais ao Colégio Cardinalício, e depois com suas palavras aos representantes diplomáticos, que no seu coração está a família humana à qual todos nós pertencemos. Está o desejo da cultura do encontro, da paz, da partilha, da fraternidade. Assim, Francisco continua a nos indicar o caminho para redesenhar um novo cenário do mundo.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

11 de janeiro de 2014

Abrir novos caminhos

Abrir novos caminhos
Cerca de 50 anos atrás, exatamente no dia 4 de janeiro de 1964, Paulo VI realizava sua peregrinação à Terra Santa. Era um evento histórico, pois pela primeira vez “Pedro” voltava à Terra de Jesus depois de 2 mil anos. Uma peregrinação de três dias que também representou a primeira Viagem Apostólica internacional de um Pontífice na era contemporânea.

Agora será o Papa Francisco a seguir as pegadas de Cristo e de seus predecessores. De fato, no Angelus do último domingo, o próprio Santo Padre, em meio a um “clima de alegria” do período natalício, comunicou ao mundo a sua decisão de realizar a sua segunda viagem internacional – a primeira foi ao Brasil -, com o objetivo, antes de tudo, de comemorar o histórico encontro entre Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I.

O encontro entre os dois líderes religiosos na cidade de Jerusalém foi histórico e importante no sentido de anular as excomunhões do Grande Cisma do Oriente de 1054. Foi um passo significativo na restauração da comunhão entre a igreja de Roma e a de Constantinopla. De fato, esse encontro produziu a declaração de União Católico-Ortodoxa em 1965, simultaneamente ao Concílio Vaticano II. A declaração não acabou com o cisma, mas mostrou um grande desejo de reconciliação entre ambas as igrejas, representadas por Paulo VI e Atenágoras I.

A visita de Paulo VI à Terra Santa, criou naquele tempo uma grande expectativa, - a mesma que se verificou com João Paulo II, Bento XVI e agora com Francisco -, pois abriu os horizontes de uma nova era na Igreja.

Agora a visita do Papa Francisco no próximo mês de maio desperta nos habitantes da Terra Santa grande esperança com novas oportunidades, novos momentos de diálogo para se alcançar a tão desejada paz neste pedaço de terra que viu nascer o “Príncipe da Paz”. Desperta grande esperança na comunidade cristã, uma minoria, que se encontra no meio do conflito entre israelenses e palestinos, entre judeus e muçulmanos.

Por isso, a peregrinação de Francisco certamente será uma visita de oração, mas terá também uma dimensão social e política, sobretudo no que diz respeito à reflexão sobre o Oriente Médio e sobre a vida das comunidades eclesiais locais. Basta notar os esforços contínuos do Santo Padre para que a paz seja uma realidade nesta região, na Terra Santa. E seu olhar vai para além de Israel e Palestina, vai à Jordânia, à Síria, onde vidas inocentes são ceifas em uma guerra fratricida, que produz também deslocados e refugiados. Já está programado um encontro do Papa às margens do Rio Jordão, no dia 24 de maio, na Jordânia, no lugar do Batismo de Jesus; ali Francisco jantará com um grupo de refugiados sírios e pobres da comunidade local.

Como se pode notar será uma viagem a 360 graus, marcada pela simplicidade e humildade durante a qual o Sucessor de Pedro tocará as consciências e corações de fiéis das três religiões monoteístas. Segundo o Patriarca Latino de Jerusalém, Dom Twal, se espera que com o seu apelo à paz a visita anime a Jordânia em seu esforço pela paz e a justiça, particularmente na Palestina, na atenção aos refugiados sírios, e nas iniciativas para preservar a identidade árabe do cristianismo e afirmar a rejeição de toda violência e ataque aos lugares santos e à dignidade humana.

As etapas da viagem serão três: Amã, Belém e Jerusalém, e no Santo Sepulcro será realizado um encontro ecumênico com todos os representantes das Igrejas cristãs de Jerusalém e com o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla. O Santo Padre neste terreno arado e aberto pelos seus predecessores deseja abrir novos sulcos, para responder de uma maneira nova e atual às novas necessidades que surgiram. Mas a sua viagem, sua visita, é também uma visita de busca e de esperança.

Aqueles que vivem na Terra Santa e que por muitos motivos vivem uma situação difícil, precisam de esperança; muitos cristãos deixaram a região por falta de futuro. É por esta razão que o Papa Francisco vai ao encontro deles, para mostrar o caminho que ele mesmo irá abrir com seus gestos, suas palavras, seu estilo, sua simplicidade.

Serão três dias em que ressoará forte o apelo à “paz e ao diálogo”, três dias de Boa Nova.

Silvonei José Protz
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diocese de Roma (Itália). Doutor em comunicação e professor universitário em Roma. Jornalista da Rádio Vaticano: "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo".

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