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13 de agosto de 2015

Dom Luciano, servo de Deus e da alegria

Dom Luciano Mendes de Almeida soube viver a alegria do evangelho como nos propõe o papa Francisco. Soube enxergar em todas as ocasiões e momentos a oportunidade de viver a alegria do evangelho, mas, sobretudo, de anunciar esta alegria aqueles que mais necessitavam: os mais necessitados, os mais carentes, os mais pobres, os mais desprezados pela sociedade. Dom Luciano soube viver a alegria do evangelho contornando sua vida pelos preceitos da caridade, do amor ao próximo, do serviço, da doação, da disposição em abrir mão de sua vontade para realizar a vontade de Deus. Soube ser sábio sendo simples. Servidor sem ser submisso. Alegre sem ser faceiro. Comprometido sem ser extremista. Pela palavra e pelo exemplo, dom Luciano deixou sua marca no chão mineiro da Arquidiocese de Mariana.

  Dom Luciano nasceu no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930. Viveu sua vida segundo seu lema episcopal  “In nomine Iesu” (Em nome de Jesus). Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade.  Exerceu funções de relevância na Igreja, participou de diversos sínodos em Roma, foi secretário geral e presidente da CNBB, fez parte do Conselho Permanente desta entidade, atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano.

Dom Luciano marcou o coração de inúmeras pessoas, marcou porque todos nós precisamos de exemplos e de bons exemplos. Precisamos ser radicais em nossas escolhas e ele viveu isso completamente em sua vida! Celebrar mais um ano do “dies natalis” (dia 27 de agosto, dia em que faleceu) deste servo bom e fiel de Deus é oportunidade de resgatar em nossa memória o grande bem que o arcebispo de Mariana realizou em favor da sociedade brasileira e da igreja católica.

Agora como seu processo de beatificação e canonização aberto, dom Luciano é servo de Deus, servo da caridade, do amor e do próximo, servo do outro totalmente Outro, servo do outro totalmente Irmão. Dom Luciano percorreu em todos os âmbitos, ambientes e realidades porque os santos são aqueles que não se acomodam às situações, mas os que enxergam além.


Dom Luciano é símbolo, ícone de uma caridade, de um cristianismo que cada dia mais precisamos resgatar em nossa vida. Os relatos de pessoa que conviveram com dom Luciano são marcados por um senso de humildade que transparecia em todas as suas ações, mas ao mesmo tempo de grandeza nos pequenos gestos do arcebispo. No olhar, no encontro com alguém e ver nele uma história, uma vida, um sonho. De em cada um perceber uma experiência que não pode ser perdida. Por esta singeleza da ação, por esta alteridade totalmente cristã, dom Luciano pode ser chamado o irmão do outro. Nem amigo, nem colega, nem conhecido, mas irmão, que sentiu a dor, que se aproximou, que viu, que sentiu e amou! O apóstolo do amor e da caridade mostra que só se é possível viver o cristianismo amando, só se pode ser cristão despojando-se de toda e qualquer vaidade!

Geraldo Trindade
 padre da Arquidiocese de Mariana, atualmente vigário da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Viçosa. Mantém o blog: http://pensarparalelo.blogspot.com

31 de maio de 2015

Charlie Charlie e a fé católica

O que tem acontecido com as brincadeiras?!!!! O que significa o desafio Charlie Charlie?!


Nos últimos dias a prática dessa “brincadeira” tem preocupado pais, professores e a Igreja. Essa prática tem sido muito recorrente no meio dos adolescentes e tem como propósito invocar os espíritos maus através da invocação “Charlie”, um suposto espírito mexicano a responder se está ali ou não. Há várias controvérsias sobre este espírito na cultura mexicana ou de povos antigos. Porém, a grande preocupação está na proximidade com o mal, o ocultismo, a invocação de espíritos e demônios. O grande mal está em abrir as portas do coração para a ação do mal e do demônio na vida das pessoas em uma prática real e concreta de invocar os espíritos.

Quem participa de tais rituais traz, além de danos espirituais, experimenta também danos psicológicos e morais. Tais práticas advém da curiosidade e da falta de fé cada vez mais frequente entre as pessoas.  Quando se invoca o mal acaba-se renegando a Deus, deixando de amá-Lo sobre todas as coisas e pedindo o auxílio de forças maléficas para a vida. Deve-se tomar cuidado! O demônio quer mesmo que o invoque, mesmo que seja numa “brincadeira”. 
           
Invocar as forças ocultas do mal é pecar contra o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. O próprio Deus proíbe que se procure adivinhações, feitiçaria, mágica, invocação de mortos (Dt 18, 10-12; Lv 19,31; 2 Rs 17,17; Mq 5,11). Estes que buscam a sua segurança nestas coisas serão renegados por Deus.
           
“O mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O ‘diabo’ (‘diabolos’) é aquele que ‘se atira no meio’ do plano de Deus e de sua ‘obra de salvação’ realizada em Cristo”(Catecismo da Igreja Católica, 2851)
           
O Papa Francisco no dia 30 de outubro de 2014 alertava em sua missa na Casa Santa Marta: “Fizeram crer a esta geração - a tantas outras - que o diabo era um mito, uma figura, uma ideia, ideia do mal, mas o diabo existe e nós temos de lutar contra ele”. A luta contra o demônio é se armar com o escudo da fé. Não é um simples confronto, mas um contínuo combate contra o demônio. Por isso é preciso buscar a Deus, rezar, ouvir e colocar em prática a Palavra de Deus, receber a Eucaristia, a fim de que se possa ser santo como Deus é santo (1Pe 1, 15-16; Mt 5,48). Cristo venceu o príncipe do mundo quando Ele se entregou na cruz. Rezando Pai nosso (“livra-nos de todos os males”), pede-se que seja libertado de todos os males, presentes, passados e futuros dos quais o demônio é autor e instigador.

Rezemos:

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém”. (Papa Leão XIII)

“A Cruz Sagrada seja a minha luz, não seja o dragão meu guia. Retira-te satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo o teu veneno!”

Geraldo Trindade 
 padre na Arquidiocese de Mariana
 e mantém o blog: http://pensarparalelo.blogspot.com 

4 de março de 2015

Liturgia, entre o sagrado e o profano

























Geraldo Trindade
 padre da Arquidiocese de Mariana,

O que é o sagrado dentro do contexto pós-moderno que vivemos? Qual o espaço que ele ocupa dentro do profano da vida? Estas distinções são traiçoeiras e muitas vezes, corre-se o risco de pecar por serem rasas.

            O sagrado é Deus em si; pois Ele é o criador. De Deus viemos e para Ele retornaremos. Isto é, tudo lhe pertence. “Cristo  ontem e hoje... Princípio e fim ... Alfa e ômega... A Ele o tempo e a eternidade...A glória e o poder... Pelos séculos sem fim. Amém”. Nós, seres humanos, somos criaturas. Reconhecer esta condição é propiciar que sejamos capazes de crescer e estabelecer com Deus um relacionamento marcado pela intimidade.

            Recorda-nos São Paulo, “não somos filhos de uma escrava, mas filhos de uma mulher livre. Cristo nos libertou para que fossemos realmente livres.” (Gl 4, 31 – 5,1). Resgatados para uma condição de filhos de Deus tornamo-nos Povo Régio e Sacerdotal.  “Vós, porém, constituís uma geração escolhida, um sacerdócio régio, uma gente santa, um poço conquistado, a fim de proclamar as grandezas daquele que das trevas vos chamou para a sua luz admirável. Outrora não éreis objeto de misericórdia. Agora sim, sois objeto de misericórdia” ( 1Pe 2, 9-10). Nas vicissitudes da história e da vida cada cristão é convidado a reconhecer a gratuidade do amor. Se assim caminha passa-se a elevar a Deus um “cântico novo” (Sl 33,3) que brota dos lábios como expressão de louvor ao Criador.

            A liturgia que em grego leit (de ‘laós’, povo) e urgia (de érgon, ação, obra). Assim a liturgia é uma ação, obra que se realiza em favor do povo, da comunidade, da vida das pessoas. Para os cristãos, é atualização da entrega de Cristo para a salvação. A liturgia faz o memorial da entrega redentora de Cristo na cruz. Através da ação litúrgica se é inserido nas realidades da salvação. Dessa forma, percebe-se claramente a raiz cristológica da liturgia. Cristo rompe um simples ritualismo e faz a liturgia um “culto agradável e perfeito” ( Rm 12, 1-2). Porém, a liturgia não se restringe a uma realidade de espaço e tempo determinado, mas prolonga-se como experiência vital. E mesma a liturgia conduzida pelo ritual advém de uma experiência transcendental dos antepassados e dos contemporâneos. Ela é meio do qual Deus se utiliza para expressar plenificamente todo o realismo de Sua Palavra e de Sua carne. Por isso, é preciso educar-se para aprender dEle a bem viver e nos alimentar dEle.

            A liturgia da criação é “quebra” e “extensão” de um silêncio criador. “A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam o abismo, mas o espírito de Deus paira por sobre as águas” (Gn 1, 2). A celebração litúrgica é acolhida, como filhos de Deus do supremo Mistério Pascal (vida, morte e ressurreição do Senhor). É realidade antiga e nova, capaz de atrair mentes e corações, invade e toca a nossa realidade, transforma e convida a lançar nossa vida. O memorial da Nova Aliança torna-nos participantes da vida de Cristo, homens e mulheres, renascidos a partir do novo Adão, que liberta das fragilidades do pecado.

            A partir de Cristo a realidade e a humanidade não pode mais ser vista como profana. Elas trazem em si uma reserva de sacralidade. “No princípio existia o Verbo, o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus.  O Verbo estava, pois, voltado para Deus  no começo. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada se fez de tudo o que foi criado” (Gn 1, 1-2). O universo é acolhida e morada do Altíssimo. Por isso, somos eminentemente espirituais e como criaturas, tendemos para estar com o Criador. O sagrado, Cristo, dignou-se assumir o profano, a humanidade (Fl 2, 5-11), a fim de que a humanidade encaminhasse para o que há de mais sagrado Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre (Hb 13, 8).

            Nosso coração humano volta-se naturalmente para o que é bom, belo e verdadeiro, Cristo, o Belo Pastor. A liturgia é a extensão mais digna da Palavra de Deus. Ela indica a Presença de Jesus e do Evangelho em ritos, orações e símbolos. Ela é convite para participar da vida divina vivendo ainda a vida humana, ela quer nos conduzir do visível ao Invisível, proporciona a união entre a Terra, nossa origem e o Céu, nossa origem primeira.

6 de dezembro de 2014

Podemos encher nossa vida de sentido!

O vazio existencial se tornou na contemporaneidade o grande desafio que o homem deve enfrentar.  

Na tentativa de não experimentá-lo o homem pós-moderno busca camuflá-lo no consumismo, no imediatismo, no hedonismo e no individualismo. Neste universo, a existência humana é marcada pelas expressões do presente. É a partir dele que se deve “encher” a vida de sentido sob várias formas e maneiras. Assim, sendo a morte se torna o último e o grande obstáculo, pois ela representa o cessamento da busca e do preenchimento de sentidos. Porém, a morte não é o fim de tudo, ela não é a má sorte das esperanças humanas ou uma libertação do fardo existencial que é a vida. Diante do peso da existência não basta simplesmente “sobreviver” sob o peso das incertezas, dos medos e das inseguranças; mas é preciso que viva uma vida carregada de sentido.

Como encarar a presença de outros, que marca e contribui para encher a vida de sentido? Mas e quando a realidade nos encurrala e não se é capaz de oferecer um sentido para a vida? Como diz o adágio popular: “quando já não se encontra gosto em viver”? Como seguir em frente diante das circunstâncias injustas e dolorosas? Nestes momentos cresce o sentimento de vazio, de incapacidade de lidar e de suportar o peso da existência e da condução da vida. É-se invadido pela impotência, pela desolação, pelo desânimo e pela tristeza. Passa-se a acreditar que o tudo na verdade é o nada. O vazio grita aos ouvidos e perturba radicalmente o rumo da vida.
            
Podemos e devemos encher a vida de sentido, porém sozinho nunca se consegue. É preciso a presença de Alguém.
            
Diante da dor, do mal, da angústia e até da morte, Cristo experimentou a dimensão humana de depender de um Outro, ou seja, do Pai, de Deus. Mas, em que a atitude de Jesus faz diferença? No momento mais terrível, da agonia, Ele pediu que a cruz lhe fosse poupada (Lc 22, 41-44). Em Cristo vê-se claramente que a vida não é a última instância, o último fôlego de existência (2 Cor 5,17). Mas, a existência humana se estende para além e vai ao encontro do Pai.
            
Para esperar, nos diz Bento XVI, “o ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: ‘nem a morte, nem a vida (...) poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus’ (Rm 8, 38-39). Se existe esse amor absoluto com sua certeza absoluta, então – e somente então – o homem está ‘redimido’, independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunstância” (Spe Salvi, 26).
            
Somente a presença de Cristo é capaz de dar sentido à dor e à injustiça.  “O melhor lugar para nos encontrarmos com o Senhor é a nossa própria fraqueza. Encontramos bem Jesus nos nossos pecados, nas nossas culpas, nos nossos erros”, lembrou-nos o papa Francisco na Quaresma de 2014. É preciso deixar Cristo habitar nas fraquezas humanas porque Ele bate na porta de nossos corações todos os dias, basta que se abra e deixa Jesus entrar nos corações e fazer morada, pois “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, dos que são chamados de acordo com sua vontade” (Rm 8, 28).

Padre Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Sacerdote da Arquidiocese de Mariana, atualmente vigário na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima em Viçosa. Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/


























6 de setembro de 2014

Cipotânea, cidade mineira, se destaca pelo número de padres

A cidade de Cipotânea, localizada na Zona da Mata Mineira, que se chamava São Caetano do Xopotó, se destaca no âmbito religioso pela quantidade de padres e bispos nascidos lá.  O município de 6500 habitantes, distante da capital, Belo Horizonte, 239 quilômetros se orgulha do título “terra dos padres e bispos”. Pelo menos cinquenta padres e cinco bispos nasceram nesta cidade fundada em 1711, à margem do rio Xopotó. 

Os bispos nascidos nesta cidade são: Dom José Nicomedes Grossi e Dom Hélio Gonçalves Heleno (ambos falecidos), que estiveram à frente das dioceses de Bom Jesus da Lapa (BA) e Caratinga (MG). Dom José Heleno, emérito da diocese de Governador Valadares (MG), Dom  Antônio Afonso de Miranda emérito de  Taubaté (SP) e dom Getúlio Teixeira Guimarães, emérito de Cornélio Procópio (PR).
No próximo dia 11 de outubro mais uma vez a cidade se orgulha de ofertar um jovem para o serviço a Deus e à Igreja. Desta vez será o diácono Geraldo Trindade, que será ordenado pelo arcebispo de Mariana, Dom Geraldo Lyrio Rocha. 

O futuro sacerdote é filho Vicente Alfenas da Trindade e  Brasilina Francisca Trindade. Atuou em várias paróquias, incluindo Paróquia de São Sebastião em Cláudio Manoel (Mariana), Paróquia de Nossa Senhora da Assunção (Mariana), Paróquia de São Silvestre (Viçosa), Paróquia de São Gonçalo em Amarantina (Ouro Preto) e Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (Rio Casca).
A explicação dada por tantas vocações religiosas nascidas em uma cidade tão pequena são várias. Entre elas estão o incentivo das famílias com forte tradição e formação religiosa, a experiência de fé vivida pela comunidade cipotaneana e a proximidade com Mariana, sede do arcebispado que conta com um dos seminários mais antigos do Brasil.
A pequena cidade volta o olhar para os céus e agradece a Deus por ainda ser berço de muitas vocações sacerdotais! “O fato desta pequena cidade ser um celeiro vocacional é sinal de que se vive uma fé autêntica e que produz fruto, mostrando que em pleno século XXI a fé é uma realidade presente na vida das pessoas. Sinal também de que o desejo de servir a Deus encontra ainda acolhida no coração dos jovens e uma resposta generosa da parte deles”, comentou o diácono Geraldo Trindade.  

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diácono na Arquidiocese de Mariana, bacharel em filosofia pela FAM, formado em teologia pelo Instituto São José de Mariana. Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/


13 de agosto de 2014

O legado da caridade de Dom Luciano Mendes

Após 8 anos de falecimento do arcebispo marianense Dom Luciano Mendes de Almeida, pode-se ter uma noção dos aspectos de sua vida que o torna apto a alcançar a honra do altares e passar a ser apresentado pela Igreja Católica como exemplo de santidade e modelo de fé em Jesus Cristo.
A Congregação para a Causa dos Santos autorizou a abertura do processo para a canonização em nível diocesano, que vai ocorrer no dia 27 de agosto. O pedido enviado a Roma foi assinado por mais de 300 bispos brasileiros. Dessa forma, Dom Luciano passa a ser chamado Servo de Deus. Agora passa-se a analisar presumiveis milagres e ouve-se as testemunhas.
Dom Luciano nascido no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 1930 foi o primeiro bispo jesuíta no Brasil. Viveu sua vida segundo seu lema “Em nome de Jesus”. Era arcebispo de Mariana quando faleceu aos 75 anos de idade.  Exerceu funções de relevância, tais como participação em diversos sínodos em Roma, secretário geral (de 1979 a 1986)  e presidente (1987 1 1994) da CNBB. Fez parte do Conselho Permanente desta entidade de 1987 até sua morte. Atuou na Pontifícia Comissão Justiça e Paz, do Conselho Episcopal Latino-Americano e da Comissão Episcopal para a Superação da Miséria e da Fome.
Mas, o grande legado deste bispo é a caridade. Caridade que a própria identidade de Deus porque “Deus é amor” (1 Jo 4, 16).  O amor que retratava beste grande homem pela caridade era a forma que ele encontrava de no cotidiano da vida experimentar das realidades celestes. Dom Luciano era um servo dos humildes, dos pobres, dos simples e dos marginalizados. Já no leito do hospital pediu: “Nãos esqueçam dos meus pobres” e por isso é chamado por muitos como “o pastor dos esquecidos”. Ele fazia os pequenos gestos e palavras serem carregados de suma importância, capazes de gerar conforto, consolo e alívio. Quando foi eleito presidente da CNBB lhe perguntaram como seria sua atuação. Ele mais uma vez demonstrou sua caridade, que provém de um coração próximo ao de Deus, capaz de sentir e ver a partir dos mais sofredores: “Peço a Deus atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e se  a impaciência dos violentos, para que as estruturas de convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus”.  

Sua presença discreta, e na maioria das vezes atrasada, era aguardada com ansiedade por todos, pois era “Dom Luciano que estava vindo”. Santos nos fazem esperar, pois não é qualquer dia que os encontramos vivos. Santos elevam nossos corações para Deus e os estende aos irmãos. Santos nos mostram como Deus age e cuida daqueles que são mal vistos e mal amados. Santos nos arranca de nosso comodismo e nos mostra uma lógica própria, pois é a lógica do amor misericordioso. Santos como Dom Luciano não são simplesmente homens, mas uma “imagem bonita de Deus” como uma vez Mons. Júlio Lancelotti descreveu o bispo marianense.

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diácono na Arquidiocese de Mariana, bacharel em filosofia pela FAM, formado em teologia pelo Instituto São José de Mariana. Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/

31 de julho de 2014

Cristãos perseguidos, mas não vencidos!


























A fé cristã sofre perseguições! Nada mais atual que a frase de São Tertuliano de que “o sangue dos mártires se tornam sementes para novos cristãos”. Professar a fé cristã é ser hostilizado em muitas esferas da nossa sociedade; de modo escancarado ou velado, o comportamento se transforma se se declara crente, temente a Deus e discípulo do Mestre, que é Jesus Cristo.

A fé guardada por homens, mulheres e crianças a ponto de darem suas vidas por causa do Evangelho é um grito que incomoda porque aponta para além dos modismos e das fugacidades da vida pós-moderna, onde o que importa são as aparências e a simples sensação de estar bem e ter uma “vida legal”. A fé preservada em meio às perseguições nos aponta para infinitude, para uma razão na vida, um querer de felicidade que só Cristo pode nos dar.














Os cristãos no Iraque sofrem perseguição pelo estado islâmico de Mosul, é o que afirma o jornal francês Le Figaro. Os cristãos são obrigados a deixar sua região ou a pagarem altos impostos, têm suas casas marcadas com o N de Nazareno e assim sujeitos ao massacre e transformados em cidadãos de segunda categoria. No fundo, o estado islâmico quer obrigá-los a se converterem ou a serem mortos. Os cristãos no Iraque antes da invasão americana eram de 1 milhão, hoje são 400.000.

Na Ucrânia, após a invasão russa muitos católicos tem seu futuro incerto, pois a igreja poderá ser banida do território. Padres são raptados e alguns desaparecem sem nenhuma explicação. Alguns fiéis chegam a ser espancados por oficiais russos e têm suas propriedades confiscadas. É a lógica do medo para que abandonem sua fé!
Na China o Partido Comunista Chinês silencia a Igreja Católica que é obrigada a viver na clandestinidade. São em média 12 a 15 milhões de católicos em um país de 1,4 bilhão de habitantes. Os católicos são obrigados muitas vezes a serem membros da Associação Católica Patriótica Chinesa, que é controlada pelo governo e não está em comunhão com o papa.  Alguns bispos católicos vivem encarcerados durante décadas por não abandonar a fé.

Na Mongólia, um sacerdote e uma religiosa foram mortos por cuidarem de crianças e idosos pobres. Na Síria, os conflitos têm gerado intolerância religiosa contra os cristãos num ambiente em que 90% da população é muçulmana. De acordo com estimativas divulgadas pelo Associated Press, cerca de 1800 cristãos foram mortos na Nigéria em ataques terroristas planejados por radicais islâmicos desde 2007. Na Coréia do Norte, 50 a 70 mil cristãos sofrem nos campos de concentração em trabalhos forçados. Na Somália se um ex-muçulmano é descoberto logo é condenado imediatamente à morte. No Afeganistão os cristãos são considerados inimigos do estado. Nestes e em muitos outros lugares seguir a Cristo é estar correndo risco de morrer e de ser perseguido.

No Brasil os católicos também acabam passando algumas situações sofridas, tendo suas igrejas invadidas, seus objetos de cultos ridicularizados e imagens depredadas. Isso aconteceu no Rio de Janeiro (RJ), Montes Claros (MG), Sacramento (MG) Igarapava (SP), Erechim (RS)...

O papa Francisco afirmou que há mais cristãos perseguidos atualmente que nos primeiros tempos da Igreja. Existem lugares em que não se pode ter uma Bíblia, ensinar o catecismo ou mesmo levar um Crucifixo. A cada cinco minutos um cristão é morto, segundo algumas fontes. Além do mais a perseguição não é somente física, o martírio de sangue. Outras formas de perseguição se espalham e marcam profundamente a vida das pessoas. Hoje há o martírio da ridicularização no trabalho, na universidade nos ambientes sociais...

Estes exemplos demonstram como ainda há corações, estruturas sociais e regimes políticos fechados ao Evangelho. É preciso permanecermos vigilantes para que a profissão da fé cristã não se torne um crime sujeito a retaliações. A nossa vida deve-nos falar sobretudo de Cristo e de Cristo crucificado e ressuscitado como centro da história e da nossa vida. A cruz de Cristo ocupa sempre um lugar central na vida da Igreja e tem que ocupar também em nossa vida pessoal. Na história da Igreja não faltará jamais paixão e perseguição, mas a partir delas e pelo testemunho de guardar e dar testemunho dela muitos crerão. Se aceitamos a cruz ela se converte em benção. “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2 Cor 4, 8-10).

Geraldo Trindade
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7 de maio de 2014

É possível viver a fé no ambiente virtual?

É possível viver a fé no ambiente virtual?
Cada dia mais a internet com suas ferramentas e opções estão presentes na vida das pessoas. Ela nasceu de uma experiência militar norte-americana com a finalidade de conectar computadores em diversas partes do mundo. A partir de então, estendeu-se até às universidades e de lá para o planeta e o cotidiano das pessoas. Por meio do ambiente virtual está-se presente em toda parte do planeta, comunica-se, divulga-se cultura, conhecimento, pensamento religioso...  
Com inserir a mensagem do Evangelho neste universo? E a experiência de fé? E a realidade comunitária-eclesial?

Não basta ser simplista e pensar em “entrar” neste mundo digital; é preciso refletir em como “estar” nele. A Igreja encara os meios de comunicação como dons de Deus, capazes de criar laços entre as pessoas, além de desempenharem um papel social na sociedade e na história. É impossível não perceber a importância e a centralidade que os meios de comunicação social conquistaram em nossa sociedade!
Cristo revelou-se na história e operou nela a salvação. Ele é a “grande comunicação” do Pai com o mundo. Desde então, a Igreja é desta preciosa dádiva, guardiã e portadora. Ela guarda a fé; mas também é comunicadora deste depósito. Por isso, a comunicação pertence à essência da Igreja. No dizer do santo João Paulo II, as novas mídias são como “o primeiro areópago dos tempos modernos”. Mesmo que estes meios de comunicação pareçam separados da mensagem cristã, eles oferecem oportunidades únicas para o anúncio do amor e da salvação de Cristo. 
A nossa Igreja Católica cada vez mais se insere no mundo digital, por meio de sites, blogs, vídeos, redes sociais, palestras, músicas, aplicativos... Tudo isso faz parte da obra de evangelização e enriquece a vida da Igreja, pois ela precisa dialogar com o sujeito de nosso tempo. Trata-se de comunicar a fé com novas expressões e de maneiras atuais, mas a verdade da fé é a mesma: o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo por meio da proclamação do Evangelho e do testemunho.
Em um mundo indiferente e até hostil à fé cristã, à Jesus Cristo e ao Evangelho é preciso nutrir um desejo ardente de comunicar, de evangelizar no mundo real e virtual. O Evangelho é uma mensagem globalizada e o cristianismo, as verdades da fé estão abertas a todas as pessoas e culturas. Um homem pós-moderno, vazio, materialista e carente só encontrará razão de viver e de ser em Cristo Jesus. São mais de 6 bilhões de seres humanos. Destes, 33% não ouviram falar de Jesus. Por isso é importante que se lance mão da internet de maneira criativa para que se assuma as responsabilidades de nossa fé e ajudemos a Igreja a cumprir com sua missão.

No dia 1 de junho comemora-se o dia mundial das comunicações sociais com o tema: “Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro”. O papa Francisco convida a criar proximidade, união, solidariedade e encontro por meio das oportunidades que os meios de comunicação favorecem. A conquista da comunicação deve ser mais humana do que tecnológica. O convite do papa é que se abra as portas da Igreja no mundo digital para que o Evangelho cruze as paredes do templo e vá ao encontro de todos. Ele nos convida a refletir: “Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim?” As redes sociais e a internet de modo geral são lugares onde se pode viver a vocação missionária da Igreja, de redescobrir a beleza da fé e a beleza do encontro com Cristo. É preciso nos encantar por uma Igreja que consiga levar calor e inflamar o coração, “uma igreja companheira de estrada, que sabe pôr-se a caminho com todos.”
O diálogo entre a Igreja e o mundo favorece que ela informe sobre o seu credo, explique as razões de sua fé e eduque catequeticamente melhor. A internet é, por isso, uma porta maravilhosa e fascinante, que usada de forma segura, sadia e verdadeira é capaz de promover um novo anúncio de Jesus, de tal maneira que cada vez mais, ouça-se falar do amor que Deus nos comunicou em Seu Filho, Jesus Cristo.
Porém, a realidade virtual não substitui a presença real de Cristo na Eucaristia, a comunidade, os sacramentos, a liturgia, a proclamação imediata e direta do Evangelho. Mas, os novos meios de comunicação podem completar, atraindo as pessoas para uma experiência mais integral da fé e enriquecendo a vida religiosa e catecumenal. 

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
Diácono na Arquidiocese de Mariana, bacharel em filosofia pela FAM, formado em teologia pelo Instituto São José de Mariana. Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/

23 de fevereiro de 2014

Refletindo a Campanha da Fraternidade 2014

Refletindo a Campanha da Fraternidade 2014
Este ano a Igreja Católica no Brasil no tempo da Quaresma; que convida à conversão, oração e reflexão; desenvolverá a Campanha da Fraternidade, que trará como tema: Fraternidade e tráfico humano e o lema: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Mais de 200 anos após o 13 de maio que extinguiu com a escravidão no Brasil, milhões de pessoas continuam sendo tratadas como mercadorias, passíveis de serem vendidas, compradas e exploradas.

A ONU por meio do protocolo de Palermo (2003) define o tráfico de pessoas como “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo-se à ameaça ou ao uso da força ou a outras formas de coração, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter consentimento de uma pessoa que tenha  autoridade sobre outra para fins de exploração”.

As vítimas do tráfico humano são retiradas de seu ambiente, de seu país ou cidade e passa a ter sua mobilidade reduzida; pois são usadas para a exploração sexual ou de trabalho. Outros meios para o aliciamento das pessoas são as propostas de trabalho na agricultura, pecuária, comércio, construção civil ou oficinas de costura.

A pessoa humana criada por Deus (Gn 1, 26-27), vista como fruto querido e amado da criação divina, deixa de ser sujeito capaz de liberdade e passa a ser tratada como objeto, um produto, uma mercadoria, que se vende, troca, transporta e explora. O tráfico humano e a exploração buscam privar a pessoa da sua dignidade, da sua liberdade e capacidade de orientar sua vida. O reconhecimento da filiação divina possibilita que, por Jesus cristo, todos são dignos de ter sua vida respeitada. Dessa forma, tudo o que vai contra a vida também vai contra o projeto do Reino de Deus, realidade onde “justiça e paz se abraçarão” (Sl 85,11), pois o Senhor é o Deus que liberta e salva os oprimidos, liberta das algemas da opressão; pois leva ao cumprimento pleno o plano salvífico de Deus (Lc 4, 14-21).

No Brasil, mais de 25 mil pessoas prestam serviços presas em fazendas, garimpos e carvoarias. De 1995 a 2008 cerca de 33750 foram libertadas do trabalho escravo. Em 21 estados da federação já foram encontrados trabalhos escravos. No ano de 2000 foi desmantelada uma rede de tráfico humano para a venda de órgãos que ligava o Pernambuco e a África do Sul. Em 2004, o Ministério Público denunciou 28 pessoas por este crime. A comercialização de 30 órgãos movimentou 4, 5 milhões de dólares neste esquema criminoso. Há ainda o tráfico interno de pessoas no Brasil para o trabalho em situações ilegais e subumanas. O nosso país, infelizmente, é também importador de mão de obra dos países vizinhos, principalmente da Bolívia, do Peru, do Paraguai, do Haiti e da Colômbia.

No âmbito internacional, das 2,5 milhões de pessoas traficadas, 43% são para a exploração sexual, 32% para a exploração econômica e 25% para os dois ao mesmo tempo.

O tráfico humano está diretamente associado ao modelo de desenvolvimento presente na economia, pois a competitividade e o desejo de lucro pressiona para que se reduza os gastos do trabalho, a “flexibilizar” as leis trabalhistas para que o produto final chegue a um preço mais baixo e gere um consumo maior. Porém, tais mercadorias, que alimentam a sede de lucro vem da exploração escrava de homens, mulheres e crianças; que têm sua liberdade cerceada, seus planos e projetos desfeitos, seus laços afetivos relegados ao esquecimento.

Esta Campanha da Fraternidade favorece-nos em gestos concretos claros e pertinentes:
- estar atento para perceber pessoas que aliciam outras para o trabalho e atividades que não respeitam as leis trabalhistas e denunciá-las;
- buscar em nossas relações trabalhistas pautar pela justiça e honestidade para com as leis trabalhistas e os direitos dos trabalhadores;
- dar prioridade à compra de mercadorias de lugares e regiões que não utilizem de mão de obra explorada desrespeitando os direitos dos trabalhadores;
- educar-se para a vida de liberdade, reconhecendo-se como filhos e filhas de Deus, criados em dignidade e amor.

A fé cristã favorece que cada cristão se reconheça co
nstrutor de um mundo novo, onde o Evangelho encontre acolhida nas estruturas sociais e nos corações humanos; onde a Vida em plenitude seja a meta concreta de uma vida imersa em Cristo. Em Jesus somos plenamente livres, a Lei do Amor deve ser vivida plenamente, sem diferenciações, à ponto que se possa afirmar que “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”(Gl 2,20); pois sabemos que o Amor nos criou e se entregou de forma plena e radical na cruz. Assim, ninguém tem a capacidade e o poder de inibir a liberdade do outro, pois “todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gl 3, 26).

Refletindo a Campanha da Fraternidade 2014
Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando. (+ artigos)
diácono na Arquidiocese de Mariana, bacharel em filosofia pela FAM, formado em teologia pelo Instituto São José de Mariana. Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/








25 de novembro de 2013

Eu, rede social

Eu, rede social
Nas últimas semanas duas notícias tornaram-se alarmantes, pois trouxeram à tona a realidade existencial de milhões de adolescentes e jovens. Uma jovem se suicida no Piauí quando tem um vídeo privado divulgado e difundido entre celulares; o outro fato é o suicídio de uma jovem mexicana. O que há em comum é que ambas jovens anunciaram suas mortes em redes sociais, onde receberam centenas de curtidas e comentários.

A pergunta é: por que tal ação? O que leva jovens ao suicídio? Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio juvenil  é a terceira causa de morte entre pessoas de 15 a 44 anos e o suicídio anunciado por meio das redes sociais tem crescido em muitos países.

Hoje o dia-a-dia das pessoas exige uma velocidade muito maior do que há anos atrás, os relacionamentos presenciais foram sendo substituídos pelos virtuais, desencadeando um afastamento do mundo real. A era da informação e da tecnologia está lançada! O íntimo, que não era para ser exposto, mas sim preservado, pois é uma instância de segredo, de ser “dono de si mesmo” está sendo substituído por uma compulsão pela exposição de si nas revistas e nas redes sociais. Na maioria das vezes essa hiperexposição é o sintoma da angústia do vazio.

É indiscutível o papel desempenhado pelas redes sociais no âmbito da vida privada, social, política, comunicacional e profissional. Elas favorecem a interação entre as pessoas. Dão visibilidade, facilitam a comunicação, o reencontro, eliminam as extensões territoriais; além de ter um poder ainda incalculável de convocação e mobilização. As mudanças provocadas pelas redes sociais não são para o futuro, pois elas são presente e intervém significativamente no comportamento das pessoas. A inclusão e a participação nas redes sociais dá a sensação de ter muitos amigos, de estar antenado e conectado aos acontecimentos com uma participação efetiva e eficiente. Tudo isso é uma verdade em termos, pois essas conexões e realidades são raseiras e instáveis, os relacionamentos superficiais e temporários e os vínculos momentâneos.

Na “vida” das redes sociais a busca de novidades é o interesse geral. Os comentários que importam são os seus, enquanto que os dos outros servem para que se possa expressar a opinião individual. A imagem que os outros têm é essencial e a aceitação também. Daí a exposição com fotos, informações de viagens, atividades, emoções e sentimentos. É a sensação de ser querido e bem aceito pelas curtidas e comentários na foto escolhida a dedo dentre as infinidades de álbuns. Há uma disputa de quem aparenta levar uma vida mais bacana, mais interessante e mais feliz. Quando se posta uma foto, a pessoa revela um fragmento daquilo que se deseja que os outros definam e aceitem.

Cada um busca ser mais brilhante, interessante e atraente do que o outro. Nesta empreitada muitos são os seguidores e “amigos”, mas os usuários mais sensatos sabem que são poucos aqueles com os quais se podem contar. O resultado de tudo isso é frustração, solidão e incapacidade de lidar com seus próprios sentimentos.

O nível de suicídio entre os jovens revela que não se está preparado para lidar com as frustrações em meio ao narcisismo da cultura e da mentalidade de que somos sempre o centro do universo e da realidade. A pobreza da vida interior presente no coração das pessoas não encontrará a solução por meio da tecnologia e da posse de bens materiais.

A solidão no século 21 bate à porta de inúmeras pessoas cercadas de “amigos” virtuais. Ao mesmo tempo que os comentários em um post estimulam, são eles também capazes de levar a pessoa à frustração e à necessidade de exposição sem limites, a fim de encontrar nos milhares de usuários virtuais a aceitação que nem a própria pessoa tem dela. Gera-se a angústia, a ansiedade, as frustrações, invejas, raivas, alegrias e curiosidades pelos feedbacks.

Neste emaranhado de relações nas redes sociais deve-se ir além das superficialidades que elas podem oferecer. As relações virtuais e superficiais não podem ser capazes de substituir as reais. O imediatismo do contato pela rede não ultrapassa a grandeza do relacionamento de cada dia reconhecer no outro suas riquezas, tesouros e dons, de forma pessoal. O verdadeiro tesouro dos relacionamentos não está na quantidade, mas o quanto fundo se vai, lançando mutuamente na relação o seu eu na verdadeira recíproca do descobrir e desvelar no rosto do outro um amigo e uma amiga.

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando
Bacharel em filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana, estudante de teologia no Seminário São José da arquidiocese de Mariana (MG). Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/



8 de novembro de 2013

ANO DA FÉ: término ou início

ANO DA FÉ: término ou início
O Ano da Fé convocado por Bento XVI teve início no dia 11 de outubro de 2012, mesmo dia em que há 50 anos se celebrava a abertura do Concílio Vaticano II. Destacou-se, dessa forma, que o Concílio e seus desdobramentos giram em torno do anúncio ao homem de hoje sobre Deus e da importância da fé para sua vida. No fim deste ano tão especial fica claro que foi uma ocasião única para reavivar a fé dos católicos e animá-los no espírito de uma evangelização mais convicta.

A Igreja não é uma realidade estática e à parte do mundo que a cerca. Daí a necessidade de compreender o Vaticano II como um evento carregado de esperança no intuito de favorecer o anúncio do Evangelho de Cristo. A Igreja renova ininterruptamente a Sua fé no Senhor Jesus. A fé, que a Igreja é depositária e guardiã, é uma abertura ao amor de Cristo! Ela alarga o “eu” a uma dimensão de “nós” e do “humano” ao “divino”.

No dia 24 de novembro, Solenidade de Cristo Rei do Universo, se dará o encerramento do Ano da Fé pelo papa Francisco. Neste período muito foi feito e promovido: esforço em valorizar a fé, conhecendo-a, aprofundando-a e vivendo-a com mais intensidade; aprofundamento nos documentos conciliares; valorização do Catecismo da Igreja Católica, o seu estudo como oportunidade de aprofundamento da fé e torná-la consciente e firme; ações para a transmissão da fé; renovação missionária da Igreja em nível local e paroquial; o fortalecimento da fé, em meio às adversidades, pelo testemunho cristão...

Encerra-se o Ano da Fé, mas o esforço empreendido se perpetua. A fé, após este ano, deve sair mais robusta, mais esclarecida, mais capaz de dar testemunho e de experimentar a confiança no Senhor. Conhecer, viver e transmitir a fé são compromissos irrenunciáveis do batismo e devem ser assumidos no findar deste ano. Os esforços não se esgotam em um tempo determinado, mas traduzem a missão perene da Igreja: viver da fé professada, vivida e celebrada em Jesus Cristo.

Por isso, o itinerário proposto pelo papa emérito na Carta Apostólica Porta Fidei (PF) e levado adiante pelo Francisco continua atual, necessário e enriquecedor para a fé e a Igreja. A fé é um meio para um acesso exclusivo à intimidade profunda com Deus (PF 1). No itinerário de fé é preciso que se ajude os outros a atravessarem o deserto e encontrem Cristo, fonte que sacia todas as sedes (PF 2). Destaque neste itinerário é a Palavra de Deus e a Eucaristia. “Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quanto são seus discípulos (cf. Jo 6, 51)” (PF 3).

É preciso que cada fiel experimente e testemunhe o amor de Deus, pois “os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou” (PF 6). É necessário reacender a chama da fé por meio da conversão constante ao Senhor da vida, do coração e das ações pastorais (PF 6). Neste processo metanoico a fé cresce e se fortalece quando se abandona progressivamente no amor de Deus (PF 7).

Outros dois pilares que se deve valorizar são o valor da profissão de fé (PF 9) e o estudo do catecismo (PF 11); como também a vivência e o testemunho da caridade (PF 14). Assim, o Ano da Fé não encontra seu término no plano espiritual, mas se constituirá, para além da data oficial do programa da Igreja, uma disposição de vida espiritual rico e inesgotável para crescer na fé e no amor a Igreja e, acima de tudo, a Cristo (PF 15).

ANO DA FÉ: término ou início
Geraldo Trindade 
Colunista do Blog Evangelizando
Bacharel em filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana, estudante de teologia no Seminário São José da arquidiocese de Mariana (MG). Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/




1 de novembro de 2013

Finados e seu significado para nós

Finados e seu significado para nós
Celebramos no dia 2 de novembro o dia de Finados. O culto aos mortos é uma das celebrações mais antigas tanto no Oriente quanto no Ocidente, pois sempre houve essa necessidade de fazer memória dos antepassados. Nos primórdios do cristianismo os mártires eram venerados nos locais de seu martírio e as primeiras construções genuinamente cristãs foram monumentos em homenagem a estes heróis da fé. Os cristãos sempre recordaram seus entes queridos falecidos até que se passou a dedicar-lhes um dia para orar pelos mortos, inclusive por aqueles que nem sempre são lembrados.

Essa celebração, de fato, é revestida de uma grande riqueza, pois além dos atos religiosos é uma oportunidade ímpar para se refletir sobre a morte e a vida, como também uma relembrança dos nossos antepassados, estabelecendo o vínculo entre o que somos e toda a carga histórica que trazemos impressos em nós.

Nós cristãos estamos desde a origem imergidos neste mistério da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Ele, como todo ser humano, experimentou a crueldade da morte e sofreu amargamente a morte de cruz, porém, a morte não foi a palavra definitiva, pois ele ressuscitou, garantindo, assim, que toda a humanidade ressuscitará definitivamente com Ele um dia. Esta certeza na Ressurreição elimina de nós qualquer concepção de renascimento ou reencarnação. São Paulo nos diz que "E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais em vossos pecados" (1Cor 15, 17).

Finados e seu significado para nós
A vida que aqui vivemos é um preparar-se para a verdadeira, definitiva e gloriosa vida junto a Deus. “Amados, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.” (1 Jo 3,2) Trazemos a certeza da verdade revelada por meio de Jesus Cristo, que levantado da morte por Deus nos trouxe a salvação. “Deus dos vivos e dos mortos: crer em Vós é ter a esperança de encontrar na luz de sempre a paz do último Dia.” (Laudes/Ofício de defuntos)


Neste dia de Finados não celebramos a morte, mas, exatamente, essa Vida Eterna presente e real já em Jesus Cristo. Somos, cristãos, esperançosos em nossa fé na ressurreição, na morada que Jesus preparou para nós.  Na participação da celebração eucarística, na visita aos cemitérios, na nossa oração pelos irmãos falecidos transpareceremos a certeza de que somos finitos e que a cada dia necessitamos da graça de Deus para mantermos viva, em nós, a chama da fé, da verdade, da caridade, do amor e do perdão rumos à eternidade. “A eternidade não é um contínuo suceder-se de dias do calendário, mas algo como o momento pleno de realização, cuja totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade do Ser, da verdade, do amor.” (Bento XVI)

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando
Bacharel em filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana, estudante de teologia no Seminário São José da arquidiocese de Mariana (MG). Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/


28 de outubro de 2013

E, agora, jovem?

E, agora, jovem?
O ano de 2013 foi singular na vida da Igreja Católica no Brasil, pela escolha da juventude como sua prioridade. A CNBB escolheu como tema da Campanha da Fraternidade a juventude, o Rio de Janeiro sediou a Jornada Mundial da Juventude.  Transpareceu que a Igreja Católica quer respirar com os jovens, caminhar com eles, sonhar seus sonhos, lutar suas lutas...

A peregrinação da cruz e do ícone de Nossa Senhora pelas comunidades em nosso país favoreceu com que a presença da Igreja, que tem com missão comunicar Cristo, estivesse junto às mais variadas realidades: educacionais, de sofrimento, exclusão, de trabalho, de oração, caminhada, reflexão, celebrações, adoração...

A JMJ marcou vivamente a memória de todos os que lá estiveram ou acompanharam pelos meios de comunicação. Em torno do sucessor de Pedro, Francisco, que tem como missão confirmar na fé, os jovens puderam renovar seu compromisso com a humanidade e com Jesus Cristo, atendendo o Seu convite: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações”.

Muitos bons propósitos, planos, projetos e iniciativas surgiram a partir das vivências desses momentos e de inúmeros outros. Passado o tempo de empolgação inicial, é hora de verificarmos as chamas que ainda fumegam, de planos e iniciativas, que não estão apenas ancorados em nós mesmos, mas no fundamento, que é Cristo e no desejo de segui-Lo. Porém, a relação do jovem com a Igreja passa, necessariamente, pelos ministros sagrados, consagrados, passa pelas nossas paróquias, pastorais e movimentos. Será que todos esses agentes têm também se ocupado com os jovens? Estão eles comunicando e proporcionando uma experiência de Deus? A juventude tem sido prioridade pastoral em vários planos, mas tem se constituído em ação de oportunidade, escuta, participação dos jovens como força ativa em nossas comunidades?

Não pode ser permitido aos jovens a apatia diante da fé, do projeto de Jesus Cristo, da vida social do nosso país e das realidades mais desafiadoras e excludentes! É preciso que os jovens saibam viver, buscando os mais altos valores, os projetos mais audaciosos, os sonhos mais preciosos... Viver é pouco se se não coloca razão no dia-a-dia da vida, dando sentido a partir de uma meta de vida. O que muda a história é o que, antes, muda o coração humano. Nada melhor do que deixarmos enquanto batizados, que seja Cristo capaz de nos encantar com sua vida, seus gestos e posturas. Não podemos considerar Jesus totalmente conhecido e apreendido por nossa razão e sentimentos, é sempre uma novidade que deve nos questionar e nos encantar.

E, agora, jovem?
“ Ide, sem medo, para servir. Seguindo estas três palavras, vocês experimentarão que quem evangeliza é evangelizado, quem transmite a alegria da fé, recebe mais alegria. Queridos jovens, regressando às suas casas, não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho.  Deus envia o profeta Jeremias, lhe dá o poder de ‘extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar’ (Jr 1,10). E assim é também para vocês. Levar o Evangelho é levar a força de Deus, para extirpar e destruir o mal e a violência; para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; para construir um mundo novo.” (Papa Francisco).


E, agora, jovem?
Geraldo Trindade 
Colunista do Blog Evangelizando
Bacharel em filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana, estudante de teologia no Seminário São José da arquidiocese de Mariana (MG). 





7 de outubro de 2013

Catedral de Mariana, 300 anos de evangelização

Catedral de Mariana, 300 anos de evangelização
Neste ano de 2013, a arquidiocese de Mariana festeja os 300 anos de edificação de sua catedral metropolitana Nossa Senhora da Assunção. A celebração se dá pela importância, pois é uma das primeiras catedrais no interior do Brasil, fazendo com que a evangelização, que se iniciou no litoral do país, estendesse para o interior, atingindo uma maior extensão territorial e populacional.

A diocese de Mariana foi criada em 1745 pelo papa Bento XIV no dia 6 de dezembro de 1745 pela bula Candor lucis aeternae por Bento XIV, desmebrando-a da então diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. A igreja escolhida para se tornar catedral da nova diocese foi a capela da beata Virgem Maria do Monte Carmelo. Depois com a elevação da capela à matriz, ela foi dedicada a Nossa Senhora da Conceição. A construção deste templo se deu na administração do governador Antônio Francisco de Albuquerque. Não se sabe, porém, a data específica da finalização da obra; mas o período de construção compreende os anos de 1713 a 1760, que é a data em que se acredita o término da construção como está atualmente.

Com a criação da nova diocese em território mineiro, foi elevada à categoria de cidade a vila e a catedral à matriz, agora dedicada a Nossa Senhora da Assunção. Essa mudança de padroeira remete a uma tradição luso-brasileira em que a maioria das matrizes era dedicada a Nossa Senhora da Conceição e as catedrais a Nossa Senhora da Assunção.

A catedral sofreu várias intervenções artísticas e arquitetônicas desde a posse do primeiro bispo, dom Frei Manoel da Cruz, como a colocação do forro, pintura interior, construção da capela do Santíssimo, assentamento do órgão Arp Schnitger em 1753 doado pelo rei Dom José I. Em 1º de maio de 1906 a diocese de Mariana é elevada à Arquidiocese e Sé Metropolitana pelo papa Pio X por meio da bula Sempiternan Humani Generis. Em 1961 a Catedral é elevada à categoria de Basílica menor. A construção da cripta, onde estão sepultados os restos mortais dos bispos e arcebispos marianenses se deu no ano de 1963 e neste mesmo ano foi sagrado o seu altar no dia 16 de julho.

A Sé Catedral de Mariana tem seu traçado arquitetônico externo bastante simples, o que contrasta com a exuberância de seu interior, marcado por um rico douramento e policromia. Possui uma nave central e duas laterais separadas pelas arcadas, provocando uma sensação de solidez. A leve inclinação das paredes da nave central dá a impressão de grandiosidade. As laterais são formadas por 10 altares de diferentes estilos e o caideral do cabido enfeitado com paisagens chinesas.

Outros destaques são o tapa-vento, na entrada, de Francisco Vieira Servas, a pia batismal em pedra, cuja tampa também foi esculpida por Servas e o painel representando o batismo de Cristo que tem como autor Manoel da Costa Athaide.

Além desses aspectos artísticos e arquitetônicos, a celebração dos 300 anos da catedral, que ocorrerá entre os dias 21 a 26 de outubro, contará com a presença do núncio apostólico no Brasil, Dom Giovanni d’Aniello no dia 24. A celebração quer marcar o grande passo dado neste período de tempo por meio do anúncio e da pregação do Evangelho no estado de Minas Gerais e em todo o Brasil. Por meio da presença da Igreja Católica, e neste caso especial pela edificação da catedral e criação da diocese de Mariana, pode-se levar adiante a evangelização de regiões antes desconhecidas ou pouco habitadas. Destarte, os 300 anos significam o grande desejo de perenemente, enquanto Igreja, sermos anunciadores de Cristo e das verdades do Evangelho, que continuam levando a força da Palavra de Deus aos corações desejosos do Caminho, da Verdade e da Vida, que é Jesus Cristo.

Geraldo Trindade
Colunista do Blog Evangelizando
Bacharel em filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana, estudante de teologia no Seminário São José da arquidiocese de Mariana (MG). Blog: http://pensarparalelo.blogspot.com.br/



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