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1 de dezembro de 2013

Dom Odilo é nomeado para Congregação para Educação Católica

Dom Odilo é nomeado para Congregação para Educação Católica
O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, foi nomeado pelo Papa Francisco neste sábado, 30, como membro da Congregação para a Educação Católica. O cardeal está entre os 11 novos membros nomeados para o dicastério.

Além das nomeações, Francisco confirmou a permanência do prefeito e do secretário dessa mesma Congregação, respectivamente Cardeal Zenon Grocholewski e Dom Ângelo Vincenzo Zani, e de mais 23 membros, entre os quais o Cardeal João Braz de Aviz.

Ainda neste sábado, a Santa Sé informou que o Conselho de Superintendência do Instituto para as Obras de Religião (IOR) nomeou Rolando Marranci como novo Diretor geral do Banco do Vaticano. A nomeação do novo diretor do IOR, que fora vice-diretor geral até 1° de julho último, foi confirmada pela Comissão Cardinalícia.

Fonte: Canção Nova Notícias

10 de agosto de 2013

Solidariedade – “quase um palavrão!”

Solidariedade – “quase um palavrão!”
Blog Evangelizando

A passagem do papa Francisco pelo Brasil, para a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, deixou profundas marcas e mensagens, já comentadas amplamente. Desejo, no entanto, retomar o pronunciamento que fez na sua visita à comunidade da Varginha, no dia 25 de julho.

Não deixa de ser eloquente que, depois de sua acolhida protocolar na Palácio Guanabara e da peregrinação a Aparecida, o primeiro pronunciamento público do papa Francisco no Rio de Janeiro tenha acontecido, justamente, na visita a uma comunidade pobre. Engana-se, porém, quem pensa que foi apenas um ato teatral do “Papa dos pobres”.

Foi daquela tribuna, do meio dos pobres da Varginha, que o Papa pronunciou o discurso social mais importante de sua passagem pelo Brasil. Palavras simples e diretas, como é de seu estilo, para que todos pudessem entender, ele falou com os pobres, mas também se dirigiu a quem tem poder e posses, em todos os níveis, locais e mundiais. Sua fala, de fato, retrata uma síntese da Doutrina Social da Igreja.

Observou o Papa Francisco que os pobres são capazes de dar ao mundo uma grande lição de solidariedade, “palavra frequentemente esquecida ou silenciada, porque incômoda”. Dispensando o texto, ele observou que o conceito de solidariedade é tido quase como um palavrão, que não faz parte de certa concepção do convívio social nem deve ser pronunciado.

A noção de solidariedade desenvolveu-se, com sempre maior clareza, no ensino social da Igreja do século XX. No egoísmo e individualismo, que permeiam e regulam, com frequência, as relações sociais, cada um, cada grupo ou país é levado a reivindicar e afirmar seus próprios direitos, sem ter em conta a sua contribuição para o bem comum. Na atitude solidária há sempre a preocupação pelo bem comum. A solidariedade é um dos princípios éticos basilares da concepção cristã de organização social, política e econômica.

Não se trata de vaga compaixão, distante e descomprometida, diante dos males de outras pessoas próximas ou distantes; pelo contrário, é o empenho firme e perseverante pelo bem de todos e de cada um; uma vez que todos dependem uns dos outros, todos também são responsáveis uns pelos outros.

A solidariedade é um dever moral, que decorre dos vínculos de natureza existentes entre todos os seres humanos, membros da mesma espécie e de uma grande família; todos estão vinculados uns aos outros, no bem e no mal; a sorte de uns está ligada à sorte de todos. Estamos todos no mesmo barco.

O dever de solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos. Seria alienante a ordem socioeconômica que dificultasse ou não estimulasse a solidariedade social. Se dependemos de todos, não podemos desinteressar-nos dos outros e nenhum povo pode pensar em “ser feliz sozinho”; nem devemos esquecer, nas decisões que hoje tomamos, dos que virão a integrar, depois de nós, a família humana.

Algumas questões, como a economia, a ecologia e a família, requerem, de maneira mais clara, decisões e atitudes solidárias. A economia mundial é claramente interdependente e as decisões dos governantes da cada país precisam levar em conta também o conjunto da economia mundial. Além disso, “negócios obscuros”, tráfico, mau emprego ou desvio do patrimônio público são atitudes marcadamente anti-solidárias. Também no campo da ecologia, nossas decisões e posturas, no bem e no mal, envolvem os outros e as futuras gerações. E a família, base da vida social, é o primeiro e mais importante sujeito da educação para uma vida solidária; nela se aprende a compartilhar, a ajustar as necessidades de cada um às possibilidades e condições de todos.

Negar o princípio da solidariedade levaria também a negar uma das principais forças propulsoras da civilização, para adotar novamente a lei da selva, onde os mais fortes sobrevivem e os mais fracos são abandonados à própria sorte. Os mecanismos perversos que destroem o convívio social, só podem ser vencidos mediante a prática da verdadeira solidariedade. Só desta maneira muitas energias positivas poderão desprender-se inteiramente em prol do desenvolvimento e da paz. Se é verdade que a paz é fruto da justiça (cf. Is 32,17), podemos afirmar também: opus solidarietatis pax – a paz é obra da solidariedade.

O papa Francisco apelou à sociedade brasileira para que não poupe esforços no combate às injustiças sociais e na luta pela inclusão de todos os seus membros. A respeito da “pacificação” de comunidades dominadas pelo crime organizado, advertiu que a pacificação duradoura e a felicidade de toda a sociedade só serão conseguidas quando não houver mais pessoas abandonadas ou deixadas à margem: “a grandeza de uma sociedade aparece no modo como ela trata os mais necessitados, aqueles que não têm outra coisa além de sua pobreza”.

Com palavras simples e mansas, mas firmes, voltou a afirmar o que já disseram, antes, outros Pontífices em Documentos do Ensino Social da Igreja: diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam aos céus, a Igreja está do lado dos pobres e não pode calar sua voz.

Em vez de palavras contundentes sobre as manifestações de rua, acontecidas mesmo durante a sua presença no Rio de Janeiro, ele se dirigiu aos jovens: “vocês que possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, de pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram seu próprio benefício. Nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança”.

É verdade, a realidade pode mudar, quando a solidariedade deixar de ser um conceito antissocial. “Procurem ser os primeiros a praticar o bem e a não se acostumar com o mal”, concluiu o Papa.

Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 13.07.2013
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

4 de julho de 2013

Semana Missionária: Prezados padres, voluntários e famílias hospedeiras

Prezados padres, voluntários e famílias hospedeiras
Blog Evangelizando!

São Paulo, 04 de julho de 2013

Prezados padres, voluntários e famílias hospedeiras

Dentro de poucos dias terá início a Semana Missionária, para a qual nos preparamos com dedicação e esperança! Ela antecede a Jornada Mundial da Juventude, que convoca a todos nós para a missão evangelizadora: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações!” (Mt 28,19).

Desde o primeiro momento em que a Semana Missionária foi proposta, vimos nossa Igreja animada e comprometida com a sua realização. Podemos dizer que ela já gerou muitos frutos de testemunho de fé, acolhida e fraternidade. Ela foi abraçada por bispos, padres, agentes de pastoral e inúmeras pessoas de nossas comunidades e contou também com o interesse e apoio dos órgãos públicos, através dos governantes do Município e do Estado. As respostas foram muitas para todas as propostas e necessidades: formação das equipes arquidiocesanas, regionais e paroquiais; oferta de hospedagem para os peregrinos de outros países; voluntariado para todos os serviços necessários; participação significativa na ação entre amigos para angariar recursos para sustentar as atividades da Semana e apoiar os jovens na participação na JMJ, entre outras.

A resposta foi à altura e do tamanho do coração desse povo acolhedor, preparando-nos para receber até 30.000 jovens peregrinos para a Semana Missionária; assim nos tinha sido sugerido e fizemos o que devíamos e podíamos fazer! Na realização dessa tarefa, podemos dizer também como São Paulo: “combati o bom combate!”

As Paróquias e as famílias que se prepararam para a acolhida dos peregrinos estão, naturalmente, aguardando sua chegada para o encontro tão desejado. Sabemos agora, com as informações que temos sobre as inscrições, que nem todos terão esta alegria realizada plenamente, visto que não haverá número suficiente de peregrinos para todas as famílias e paróquias. Não nos deixemos tomar por um sentimento de frustração; pelo contrário, alegremo-nos, pois fizemos o que estava ao nosso alcance e tivemos a alegria de constatar tanta generosidade e disponibilidade para acolher os hóspedes; é muito bom saber que ainda continuamos uma comunidade hospitaleira! Estejamos certos de que o Cristo peregrino não deixará de manifestar sua presença em nossa casa e em nosso coração, que se dispôs a acolhê-lo na pessoa do próximo, mesmo desconhecido!

Mas podemos usar nossa criatividade para outras formas de encontro com os peregrinos, cerca de 10.000, que virão de vários países para a nossa Arquidiocese, alguns inscritos para a Semana Missionária da Arquidiocese e, outros, para as atividades organizadas pelas Congregações Religiosas, Novas Comunidades ou Movimentos Eclesiais. Organizemos visitas às famílias acolhedoras, ou às paróquias do setor, que não estão recebendo peregrinos de outros países, como parte das atividades missionárias. Organizemos atividades e encontros celebrativos e festivos envolvendo as Paróquias dos Setores! E procuremos envolver especialmente os jovens de nossas comunidades e todo o povo na missão proposta; de fato, a Semana Missionária deve envolver em primeiro lugar os jovens de cada uma de nossas Comunidades, mesmo sem a presença de peregrinos estrangeiros.

E todos nos encontraremos nos momentos fortes de acolhida e de encontro previstos nas Vigílias que realizaremos nas Regiões Episcopais no dia 19 de julho, e na Missa de Envio, no dia 20 de julho, na Praça Heróis da FEB, que será o grande encontro Arquidiocesano.

Logo a seguir, participaremos da JMJ com o Papa Francisco, no Rio de Janeiro. Quem não for ao Rio, é convidado a continuar unido na oração que nos congrega a todos no abraço do Cristo Redentor.

Irmãos e irmãs, recebam o abraço reconhecido da Igreja de São Paulo, com minha saudação e bênção!

Cardeal Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

18 de junho de 2013

Cardeal de SP diz que manifestações tem um "caráter positivo"

Cardeal de SP diz que manifestações tem um "caráter positivo"
Blog Evangelizando!

O Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, comentou nesta terça-feira, 18, que as manifestações pacíficas que têm ocorrido em São Paulo e nas principais capitais do País tem "um caráter positivo": a de um "acordar da consciência do povo e das massas".


"No convívio democrático é importante que o povo se manifeste, que acorde da 'sonolência', digamos assim, que não delegue totalmente a sua representação a quem de fato é representante e exerce um cargo, mas que as pessoas, para além de partidos, continuem a ter a sua vontade política, a sua vontade de expressão, que agora está aparecendo de muitas maneiras, na voz dos estudantes, de quem pede mais segurança, de quem pede melhores condições de saúde e de viabilidade urbana", afirmou o cardeal.

Afirmou: 'No convívio democrático é importante que o povo se manifeste', afirma Dom Odilo

Dom Odilo disse ainda que "espera que essas vozes que vêm das praças, das manifestações, possam ser ouvidas e compreendidas". E salientou que é "desaprovável" os atos de vandalismo e as manifestações de violência, seja por parte dos manifestantes ou dos policiais.

O arcebispo de São Paulo é membro do Conselho da Cidade e participa nesta manhã de uma reunião convocada pelo prefeito Fernando Haddad, juntamente com representantes do Movimento Passe Livre (MPL), que irão expor suas propostas e visões para o setor.

Fonte: Canção Nova Noticias


9 de junho de 2013

Justino e seus companheiros mártires

Justino e seus companheiros mártires
Blog Evangelizando!

No dia 1º de junho, a Igreja Católica recordou os mártires São Justino e seus companheiros. Nascido na Palestina de época romana, na hodierna Nablus, Justino foi um filósofo eclético que, na juventude, migrou por várias correntes filosóficas; finalmente, abraçou a fé cristã, entendendo ter encontrado nela a verdade, que tanto buscava. No ano 165, foi martirizado em Roma, onde abrira uma escola filosófica, com vários companheiros, sendo imperador Marco Aurélio. As Atas dos Mártires narram seu martírio.

Presos sob a acusação de “heresia”, por se recusarem a adorar o imperador e seus deuses oficiais, Justino e seus companheiros foram interrogados por Rústico, prefeito da cidade. Depois de arguir os acusados quanto às suas convicções, Rústico os ameaçou: “agora vamos ao que interessa: aproximai-vos e, todos juntos, sacrificai aos deuses. Se não o fizerdes, sereis torturados sem compaixão”. Diante da recusa firme dos cristãos, o prefeito sentenciou: “os que não quiseram sacrificar aos deuses e obedecer à ordem do imperador, depois de flagelados, sejam levados para sofrer a pena capital”. E assim, Justino e seus companheiros foram torturados e decapitados.

O Cristianismo conheceu perseguição e martírio desde a sua primeira hora. O próprio Jesus Cristo morreu mártir e seus apóstolos, da mesma forma. Esclareço que, no sentido cristão, não é “mártir” quem se auto-imola por uma causa, mas quem é morto por outros, por causa da sua fé. Foram muitos os mártires ao longo da história da Igreja. O papa João Paulo II constatava, na virada do milênio, que o século XX foi o que teve o maior número de mártires.

Os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo. Se aqui me refiro apenas aos cristãos, não é por desconhecer que existem discriminações e violências também contra outros grupos religiosos. Há poucos dias, Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Santa Sé na ONU, em Genebra, fez uma denúncia alarmante: mais de 100 mil cristãos têm sido assassinados anualmente em todo o mundo por razões ligadas, de alguma maneira, à sua fé.

De 196 países avaliados recentemente, 131 não apresentaram sinais de perseguição religiosa; em outros 49 países, porém, verificaram-se muitos episódios de perseguição e violência contra os cristãos. Chama a atenção que essa violência acontece, geralmente, onde o Estado não é “laico” e deixa de assegurar a liberdade religiosa a todos os seus cidadãos, ou até impõe uma religião oficial a toda a população.

Esses dados impressionantes foram, de alguma forma, também trazidos a público e confirmados em recentes manifestações da Associação Internacional pela Liberdade Religiosa (IRLA), que realizou em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de maio, um Festival Mundial de Liberdade Religiosa. Estranhamente, esses fatos graves têm escassa ressonância e espaço na opinião pública ocidental.

O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos dispõe que toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito inclui também a liberdade de mudar de religião ou de crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em privado.

Se Justino vivesse hoje, ainda correria o risco de perder a cabeça por causa de suas convicções religiosas e de ver crescendo o número de seus companheiros... Lamentavelmente, 65 anos depois da Declaração da ONU, o direito à liberdade religiosa ainda não é respeitado em muitas partes do mundo; pelo contrário, adotam-se novas leis severamente restritivas, até mesmo contra a liberdade de consciência, que vetam a mudança de crença ou religião, sob a ameaça de pesadas sanções, inclusive a pena de morte.

Não cessou o cerceamento à liberdade religiosa com a superação dos regimes totalitários e anti-religiosos que, sobretudo no século XX, impediram a livre manifestação da fé religiosa de cristãos e não-cristãos e tentaram manipular ou erradicar a religião, promovendo a perseguição e até a eliminação sistemática de quem ousasse professar publicamente a fé.

É comum que ideologias e regimes totalitários tendam a instrumentalizar a religião em seu proveito, ou a restringir a liberdade religiosa dos cidadãos, por considerá-la um empecilho aos seus propósitos.

Uma das formas sutis de perseguição religiosa é o tratamento preconceituoso e discriminatório dos praticantes de alguma fé religiosa, como se fossem cidadãos “desqualificados”, com menos direitos e credibilidade, cujas convicções não devem ser levadas em consideração, ainda que não sejam sobre questões religiosas. Toleram-se até as convicções religiosas nos espaços da vida privada, mas nega-se a sua contribuição para o convívio social e a cultura.

Essa forma velada de preconceito e discriminação acontece também em países do Ocidente, onde pessoas aderentes à fé religiosa precisam lutar por seus direitos civis e pelo respeito aos mais primários direitos humanos.

Por vezes, atribui-se de maneira primária à religião a culpa de conflitos e guerras e sugere-se a sua supressão, como fórmula para alcançar a paz; não se percebe, neste caso, que muitos conflitos ditos “religiosos”, de fato, não são motivados por questões religiosas, mas por ideologias políticas que instrumentalizam a religião para alcançar seus objetivos.

A liberdade religiosa e de consciência é um direito humano fundamental, que pode ser assegurado somente quando a postura do Estado é pautada pela verdadeira laicidade, que não é de intolerância nem discriminação, mas de garantia para que todos os cidadãos exerçam, sem impedimento, suas escolhas em relação à religião.


Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 8.6.2013

Dom Odilo Pedro Scherer
Colaborador do Blog Evangelizando
Arcebispo de São Paulo (SP). Estudou filosofia na Universidade de Passo Fundo (RS) e teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em filosofia e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
Página de Dom Odilo: https://www.facebook.com/domodiloscherer

4 de junho de 2013

Creio em Deus: não estou sozinho!

Creio em Deus: não estou sozinho!
Blog Evangelizando!

No domingo da Santíssima Trindade celebramos na Liturgia a fé em Deus, que a Igreja professa. Se observarmos bem, uma boa parte do “Credo”, nossa profissão de fé, diz respeito à nossa fé em Deus – Pai, Filho e Espírito Santo.

De fato, a primeira e mais fundamental questão da nossa fé é a que se refere a Deus; tudo o mais, decorre desse ato de fé primordial que expressamos: creio em Deus. Por isso, a Igreja nos encoraja a renovar e aprofundar o sentido e a experiência de nossa fé em Deus ao longo deste Ano da Fé; crendo com mais clareza e firmeza em Deus, seremos capazes de crer também no ensinamento da fé oferecido pela Igreja. O Catecismo da Igreja Católica é uma ajuda inestimável para a compreensão da nossa fé eclesial.

Uma pergunta preliminar: é possível falar algo sobre Deus, se não o vemos nem tocamos, e nem podemos demonstrar “cientificamente” nossas afirmações? A resposta é positiva: sim, podemos, embora sempre de maneira imperfeita e insuficiente! Nossa inteligência é “capaz de Deus”, ou seja, ela não está fechada nem é inapta para acolher a verdade sobre Deus! Há muitos sinais, que “falam” de Deus e dão testemunho dele; e nós somos capazes de perceber e interpretar esses sinais.

No entanto, Deus não é propriamente objeto das ciências, como o são as coisas deste mundo; não porque Deus seja uma ilusão, mas porque os métodos das ciências naturais, sendo próprios para conhecer as coisas deste mundo, não são apropriados para tratar de Deus. Deus é transcendente, ou seja, uma realidade que está além das coisas este mundo.

A filosofia usa um método diverso, apropriado para tratar de Deus; naturalmente, faz afirmações sobre Deus sempre nos limites da racionalidade humana e daquilo que ela é capaz de afirmar com argumentos. E a teologia fala de Deus a partir de um horizonte diferente: da racionalidade humana apoiada pela fé. Para nós, cristãos, não se trata apenas da fé subjetiva e individual, mas da fé eclesial, baseada na revelação divina e na Palavra de Deus. Assim, a teologia é capaz de afirmar muito sobre Deus.

Outra pergunta que se faz com frequência é se todas as maneiras de crer são igualmente verdadeiras e boas. A resposta é não. A consciência e a maneira pessoal de cada um crer deve ser respeitada; mas não é possível afirmar que todas as afirmações sobre Deus são igualmente verdadeiras; se assim fosse, estaríamos relativizando todas as afirmações sobre Deus e seríamos nós, finalmente, os “criadores” de Deus... Para começar, é inconcebível afirmar que haja mais de um Deus; só pode existir um único Deus, que é a perfeição de tudo o que já percebemos de bom neste mundo. Em Deus, não há maldade nem defeito; e Deus não pode ser igualado, simplesmente, às criaturas, embora estas revelem algo sobre Deus, especialmente a criatura humana.

Nossa fé cristã nos ensina que Deus, perfeito e todo-poderoso, também está próximo de nós e se interessa por nós e pelo mundo; embora tenha dado às criaturas uma existência e dinâmica próprias, não as abandona a si mesmas, nem a alguma outra “força superior” autônoma, capaz de tomar conta ou de prejudicar as criaturas. Deus está na origem de tudo e a tudo quis para uma finalidade boa.

Cremos em Deus; e isso não significa que cada um crê do seu jeito, mas “como” a Igreja crê. Não seríamos capazes de afirmar por nós mesmos muitos artigos de nossa fé; neste caso, cremos “com” a Igreja, e isso significa que temos a mesma fé dos apóstolos e mártires, dos santos e grandes homens e mulheres de Deus que professaram com firmeza essa mesma fé. Cremos também com grandes mestres da fé, os pastores e doutores da Igreja, os missionários e místicos, e com a imensa multidão dos fiéis, que viveu antes de nós e transmitiu essa fé ao longo de quase 2 mil anos, até chegar a nós.


“Creio em Deus” não pode ser uma afirmação neutra e sem consequências; se é verdadeira, a fé se expressa nas “obras da fé”, mediante a prática assídua e sincera da religião, a vida moral orientada pela obediência aos mandamentos de Deus e pela dignidade de filhos de Deus e pela participação ativa na edificação do mundo conforme Deus.

Dom Odilo Pedro Scherer
Colaborador do Blog Evangelizando
Arcebispo de São Paulo (SP). Estudou filosofia na Universidade de Passo Fundo (RS) e teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em filosofia e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
Página de Dom Odilo: https://www.facebook.com/domodiloscherer

24 de maio de 2013

Eucaristia: Nós cremos!

Eucaristia: Nós cremos!
Blog Evangelizando!

Celebramos a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo no Ano da Fé. E isso nos leva a refletir sobre nossa fé no “Augusto Mistério” da Eucaristia e a renovar nossa fé nesse dom precioso deixado por Jesus à sua Igreja.

A Eucaristia é o Sacramento do sacrifício de Jesus Cristo, que se entregou à morte de cruz, como “preço pelo nosso pecado”. Ele é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Toda vez que oferecemos a Deus o Sacrifício da Missa, fazermos isso “em memória” de Jesus Cristo, “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, daquela única e suprema doação de sua vida a Deus e em favor de toda a humanidade. Na participação, com fé, da celebração da Eucaristia, recebemos também nós os frutos do perdão e da reconciliação com Deus e da vida nova em Cristo.

É o Sacramento da comunhão com Deus e entre nós por meio de Jesus Cristo. Quando participamos da Eucaristia e recebemos a comunhão, Jesus Cristo nos une mais a si e a Deus Pai e nos concede o dom de sua vida e de sua amizade. Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos une como irmãos e estreita os laços vitais entre todos os que recebem esse mesmo sacramento e vivem a mesma fé, na Igreja.

É o “pão da vida”, Sacramento do alimento, que nos nutre desde agora para a vida eterna; esse alimento é o próprio Jesus, mais necessário para nós que o próprio pão de cada dia: “quem comer deste pão, tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

A Eucaristia é, por excelência, o Sacramento de Jesus Cristo, que continua presente com Igreja e a humanidade “até os fins dos tempos”. Ele não nos deixou sozinhos, mas continua no meio de nós! “Deus habita esta Cidade!” A Eucaristia é o Sacramento dessa Sua presença e do significado salvador dessa presença entre nós.

A Eucaristia é também o Sacramento da Igreja, entendida como a união dos discípulos com Jesus, que está com eles e à frente deles, como Mestre, Pastor e Sacerdote. A celebração da Eucaristia torna “visível” o mistério a Igreja e de sua missão no mundo.

Eis, o “mistério da fé”! Na Eucaristia anunciamos a morte de Jesus, proclamamos sua gloriosa ressurreição e crescemos na esperança de participar da plenitude da salvação. Na celebração da Eucaristia, somos a humanidade que crê e espera ansiosa o Dia da Salvação, enquanto suplica: “Maranatá! Vem, Senhor Jesus, vem!” (cf Ap 22,20).

Dom Odilo Pedro Scherer
Colaborador do Blog Evangelizando
Arcebispo de São Paulo (SP). Estudou filosofia na Universidade de Passo Fundo (RS) e teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em filosofia e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
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29 de abril de 2013

Maioridade penal e violência

Maioridade penal e violência
Blog Evangelizando!

Na semana passada, mais uma vez assistimos a fatos de violência inaudita, com acréscimos estarrecedores de maldade, como foi o caso da dentista “incendiada” num assalto no ABC Paulista, por não ter à mão a soma satisfatória para entregar aos larápios. Detalhe a mais: um menor assumiu a autoria da ação. Sempre mais crimes envolvem menores de idade. Não passa desapercebido, que muitos menores também são vítimas de ações criminosas, perdendo a vida precocemente.

De maneira inevitável, volta a discussão sobre a redução da idade penal no Brasil. Creio que a questão deva ser vista num contexto mais amplo, pois a simples imputação de responsabilidade criminal não é a verdadeira solução para o problema. Há que se perguntar sobre as razões dessa realidade preocupante, para tomar medidas para diminuir o fenômeno, se não se consegue erradicá-lo de vez.

Examinemos alguns fatores presentes no aumento da criminalidade juvenil. Muitos adolescentes, e até crianças, são “usados” por criminosos adultos, que se valem da não punibilidade de menores; isso mereceria penas bem mais severas aos eventuais “mandantes” e responsáveis de organizações criminosas, que manipulam ou envolvem menores.

Outro fato lamentável é que o crime compensa e, por isso, torna-se atraente para adolescentes e jovens, que vêem nele uma oportunidade de ganhar a vida; a ineficiência dos órgãos de segurança e de justiça, somada a persistentes fatos de corrupção, acaba abrindo espaços para a impunidade e para o desenvolvimento de organizações criminosas, que também arrebanham adolescentes e jovens. A escola, a formação profissional, o esforço disciplinado para conquistar o espaço na vida de maneira honesta perdem interesse para essa outra aposta para “vencer na vida”, geralmente ilusória e temerária; a maior parte dos adolescentes e jovens que entra no crime acaba eliminada bem antes de conquistar seu próprio “negócio”.

É preciso admitir também que há uma certa complacência cultural e social em relação ao crime; as pessoas sentem-se impotentes para reagir e lutar contra o crime e acabam se resignando numa atitude fatalista, achando que nada pode ser mudado. Fica-se com a consciência calejada diante das notícias diárias sobre chacinas, atos de violência e maldades de todo tipo. É nebulosa a consciência comum sobre o valor do bem e sobre o direito à justiça e à segurança. Vale a pena ser honesto? E o envolvimento de agentes de segurança e de justiça em atos de corrupção aumenta essa incerteza da sociedade.

Mas há um fator ainda mais preocupante. O crime é muito mais divulgado, quase em forma de apologia, do que a prática do bem e a educação para a vida virtuosa e honesta. É uma forma de educação subliminar para a vida desonesta. Alguém já viu nos Meios de Comunicação um apelo claro à prática da justiça, à honestidade, à virtude por iniciativa do Estado? Ou alguma chamada em que se diga claramente que os atos de violência, quaisquer que sejam, são reprováveis e devem ser evitados? Quem está educando para a prática do bem e para a vida honesta?

Mas quem ousa falar publicamente em honestidade e em virtude, sem ser logo tachado de “conservador” e “careta”? Neste caso, de maneira estranha, dir-se-á que isso é moralismo e que não é competência do Estado educar para atitudes morais e virtudes. E qual seria a educação que o Estado deve dar? Será o próprio Estado que, através de suas instâncias competentes, deverá investir pesadamente para reprimir e punir as ações criminosas. Não valeria a pena investir bem mais numa educação preventiva explícita contra a criminalidade? Por que a educação para a virtude e os comportamentos dignos não merece investimentos semelhantes aos encargos resultantes das condutas criminosas?

Há ainda um fator a ser considerado: se os desvios de conduta e as atitudes anti-sociais são fruto de uma deseducação social, deve-se acrescentar que também resultam de uma falta de educação de crianças e adolescentes por parte de quem deveria fazê-lo. Falo da família, que sempre de novo é cobrada quando aparece um menor infrator. Mas quem apóia a família e estimula os pais no cumprimento de seu dever? Prefere-se desmantelar a família e tirar-lhe a capacidade e até a competência para educar. Como podem ser educados os filhos de pais ausentes? Como pode educar uma família, cada vez mais desfigurada na sua natureza e competência? Como educar, se falta quase tudo em casa, se escola e família não interagem adequadamente? Como educar, se há estímulo aberto a toda sorte de promiscuidade sexual?

Falar em diminuição da “idade penal” pode ser uma reação de pânico diante de situações dolorosas, que merecem todo nosso respeito e solidariedade. Mas a solução para a criminalidade juvenil precisa ser vista num contexto mais amplo.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Colaborador do Blog Evangelizando.
Arcebispo de São Paulo (SP). Estudou filosofia na Universidade de Passo Fundo (RS) e teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em filosofia e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

16 de abril de 2013

Cardeal Odilo Pedro Scherer: Nós, católicos, e as mudanças religiosas no Brasil

Cardeal Odilo Pedro Scherer: Nós, católicos, e as mudanças religiosas no Brasil
Blog Evangelizando!


Durante a 51ª Assembleia da CNBB, de 10 a 19 de abril, em Aparecida, foi feita uma análise do quadro religioso do Brasil, com base nos dados do Censo de 2010.

Conforme já foi noticiado, houve uma nova diminuição do número dos que se professam católicos, que seriam ainda cerca de 64% da população brasileira; houve quedas igualmente de adeptos das Igrejas Protestantes tradicionais ou históricas, como a Luterana, a Presbiteriana, a Congregacional e outras Igrejas Evangélicas de missão; mas também houve queda acentuada dos aderentes à Igreja Universal do Reino de Deus e de outros grupos pentecostais livres. Novos grupos “livres”, de inspiração neo-pentecostal, surgiram e conquistaram adeptos.

Essa mudança religiosa não deixa de nos questionar. Há explicações culturais, sociais e religiosas na base dessa mobilidade religiosa que assistimos no Brasil nas últimas décadas. Mas, não basta compreender o fenômeno: como católicos, não podemos ficar indiferentes. E como Arcebispo da Igreja, expresso minha viva dor e preocupação por todo o católico que abandona a sua fé e me pergunto sobre os motivos que estão na base da sua escolha. Evidentemente, partimos do pressuposto de que a liberdade religiosa e de consciência das pessoas deve ser respeitada.

Mas, quando isso nos envolve, devemos dar respostas adequadas. Os motivos do abandono da fé católica, no entanto, devem ser examinados por nós, levando-nos às decisões que nos cabem tomar, com o coração movido pela caridade pastoral, por amor às pessoas, respeito e amor à verdade. Não podemos cair no indiferentismo religioso, em que uma coisa vale a outra e a verdade da Igreja fica relativizada pelo irenismo ou até pelo comodismo.

A causa do abandono da fé católica pode ser o conhecimento insuficiente ou apenas superficial da fé e da própria Igreja Católica. Muitas pessoas nunca foram verdadeiramente evangelizadas, nem tiveram a oportunidade de fazer uma experiência genuína e gratificante da fé em Deus na nossa Igreja. Não se ama o que não se conhece. E, não havendo raízes profundas nem identificação pessoal sólida com a fé e a Igreja Católica, o abandono acontece com facilidade.

O que devemos fazer nesses casos? Certamente, é preciso evangelizar mais e melhor, dando aos fiéis a oportunidade de conhecerem melhor a Deus e a Igreja, e de fazerem a experiência gratificante e profunda da fé. Devemos propor a verdade integral do Evangelho, sem poupar esforços para convidar as pessoas a fazerem um caminho de crescimento e amadurecimento na fé.

Acontece também que as pessoas abandonam a fé católica e a Igreja porque ficam decepcionadas com o nosso atendimento, nem sempre acolhedor. Isso nos deve levar, evidentemente, a rever nossos modos de tratar as pessoas. Ninguém espera ser tratado mal, ainda mais por quem representa a Igreja e fala em nome de Deus. E isso vale para nossos atos oficiais, como as celebrações, mas também para as relações pessoais dos católicos.

Entre as causas do abandono da fé e da Igreja Católica também está a discordância com a nossa doutrina moral ou mesmo com artigos da nossa fé. Nesse caso, por certo, não devemos renunciar à nossa fé, nem ocultar as exigências morais que decorrem do Evangelho. Mas, devemos cuidar de não transformar a fé em moralismo superficial, nem deixar de propor o encontro vital com Deus por meio de Jesus Cristo, antes de tratar das exigências morais do Evangelho. O resto será obra da graça de Deus, que conta com o diálogo paciente e respeitoso, o testemunho pessoal de vida cristã e o desejo sincero de ganhar irmãos para Cristo, para que tenham, por ele, a vida verdadeira.

Há também o fato da pregação contrária à Igreja Católica e sua doutrina, que leva muitos irmãos ao engano, ao abandono da fé e ao desprezo da Igreja. Nesse caso, cabe-nos defender as ovelhas do nosso rebanho e vigiar, mostrando-lhes a verdade e esclarecendo os aspectos em que sua fé e seu amor à Igreja são abalados.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 16.04.2013
Arcebispo de São Paulo

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